Por José Ramom Pichel Campos
Ai! a infância e os seus afluentes, os rios que correm e o garanhão que sobre ela trota, as bestas simpáticas que pousam patas marcando o território rabunhado, os índios de filmes de sábado de tarde encontrando as pegadas para os sétimos de cavalaria trás Touro Sentado, o mau Touro Sentado, nos filmes por suposto. Tudo fica colado, as caminhadas deixam sempre lugar para a memória e logo com o passar do tempo, esse cheirinho a erva, a baixada a mil por hora que parecia, por essa encosta de carro de bolas, de bicicleta logo, de moto para alguns, as pegadas eram o nosso rumo.
Temos todos um lugar para a imprevisibilidade ou que queres que che diga, que é possível que se deitas uma taça desde o bordo da mesa da cozinha, nem sempre caia à mesma velocidade, desafiando a Sir Newton insisto.
Que bonita a imprevisibilidade, estar rodeado de variáveis humanas, olhadas maravilhadas polos descobrimentos. A lógica é um lugar para perder-se, adaptar-se ou correr, por isso a imprecisão para apanhar um caminho ou outro fai que se respire melhor, quase como comer eucaliptos e ter olhos abertos para esse novo recuncho, essa nova rua por descobrir, centrar-se nesse preciso instante, nesse preciso instante.
Mas quando aparece um nome nos correios electrónicos desconhecido, ou nas cartas de trabalho, ou um lugar, ou um fotógrafo em exposições de arte, os dedos caminham cara os pesquisadores da net, procurando, a certeza, a certeza, quem é?, onde trabalha?, com quem trabalhou? com quem se relaciona? wikipedia, wikipedia vencerá! Onde ficou a lentidão do descobrimento.
E se já parecia que Google tinha reservado para nós essa bela de cristal contemporânea, e a magia existia, um novo engenho de pesquisa melhorado (já leva anos) chamado Kartoo (www.kartoo.com) realiza um abre-te sésamo, não sabemos muito bem cara onde, fazendo pesquisas que geram para cada um dos termos a procurar uma galáxia de relacionamentos. Isto é, se procuramos o nosso nome, incrivelmente apareceram sistemas solares de páginas web que têm a ver connosco, ou nas que nos alguma vez aparecemos. Uma radiografia completa de nós mesmos, de gostos e relacionamentos.
Com esta ferramenta, voltamos caminhar como os índios polos caminhos transitados, historial da navegação polo mares do sul. Às vezes dá vontade que em qualquer dos horizontes possíveis apareça um barco pirata cracker, e que sem pedir permiso, aborde esse intruso que procura nos nossos oceanos. As pegadas como a infância melhor nossas, acho.
(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.
