Por Ernesto Vázquez Souza
Puede ser que algunos dificulten el que haya Médicos tan bárbaros, que viendo que a la ejecución de su receta se sigue empeorar el enfermo, continúen con ella. Pero les aseguro, que sucede esto frecuentísimamente. Verdad es, que cuando la peoría es poca o poco perceptible, procuran trampearla, y persuadir con alguna sofistería, que se logró éste o el otro fruto del remedio. Más cuando el daño es tan considerable que no se puede ocultar, se refugian al sagrado del Aforismo, facienti secundum rationem, que es asilo ordinario de Médicos delincuentes. Lo más gracioso, o lo más desgraciado es, que cuando de tal modo se agravan los síntomas, que apenas de que aquel túmulo fue ocasionado del remedio, tienen otra admirable escapatoria, que es decir, que ya lograron descubrir al enemigo. Esto ostentan como un triunfo del arte, aun cuando para sí conocen el daño que hicieron; y la necia credulidad de los oyentes celebra la acción, como que fue gran industria y sabiduría sacar de la emboscada al enemigo oculto y ponerle en campaña rasa, donde le pueden acometer libremente. Benito J. Feijó, El Aforismo exterminador, Teatro Crítico, T. V, Disc. VII
Ao aforismo Hipocrático LII: Omnia secundum rationem facienti, si non succedat secundum rationem, non est traseundum ad aliud, suppetente quod ab initio probaberis (que quer dizer que quando o Médico obra em tudo conforme a razão, ainda que o sucesso não corresponda ao seu desejo, não tem de mudar o modo de cura, senão insistir ou prosseguir no que em princípio concluiu) denominou com sentidinho e ironia o sábio Feijó, aforismo exterminador.
E nada é de raro, pois é mais que frequente, que nos venham hoje com ele, porque, se no século XVIII a medicina era em boa medida superstição, a minha razão e observação me leva a considerar que é também a superstição perseveradora e a empedernida confiança em princípios purgantes, remédios casenhos (que alguma vez deram certos) e sangrias o que rege a teoria econômica atual e o que dela se deriva na política.
Se reparássemos no cronograma de feitos que se sucederam desde há dez anos até chegar a hoje, poderíamos concluir que os “médicos do mundo”, após uns anos de sofisterias e vender curações imaginárias em belos relatórios avalizados pelos governos, as auditoras, os grandes média e até os serviços secretos, perseveram em sangrias ultraliberais nos investimentos públicos e em aplicar purgas, remédios fortes e perigosos venenos para cortar as enfermidades subsequentes.
E continuam nas suas conclusões diagnósticas e proclamam uma e outra vez a utilidade dos seus métodos e peçonhas, reunidos nos seus salões de chá com esses notáveis que obsediados pela sua imagem nos salões de beleza e atarefados no desenvolvimento de urbanizações, campos de golfe, absurdas comunicações, negócios exploradores e centrais nucleares, dão adiante a qualquer guerra em que saiam televisivos e mediáticos; com a mão assinando mas com os olhos postos nas estatísticas de voto.
E deste jeito, entanto enfraquece o corpo social pelas sangrias recomendadas à força pelos gritos e presenças autoritárias dos médicos e a capacidade de reação econômica da gente vai ficando visivelmente danada, recomenda-se por riba o jejum, nada de alimento proteínico e vitamina pública: pois como a razão indica, o que é preciso é mais sangria.
E entre complacências dos muitos dos seus que como praga de assessores inçaram o mundo, precavidos nos seus saberes de qualquer crítica ou razão diversa e apoiados nas prescrições dos censorinos sabem com as suas palavras achegar-se dos validos, que são na verdade os que justificam e fazem andar o mundo, e celebram nas suas arbitrariedades que enchem de fortuna arredor os petos.
O corpo do enfermo é o de menos. A cura prescrita é sangria no investimento público e jejum e se o doente porfiar em não melhorar: mais sangria e jejum. E não aceitam críticas e teimam estes médicos criminais do mundo nas suas receitas econômicas e sociais e com falso sorriso e aplauso ultraliberal, acompanhados de grossos relatórios, estatísticas, congressos e reuniões de alto nível enunciam uma e outra vez o aforismo hipócrita: senão é boi… que outra cousa havia de ser senão boi?
Mas, em concluindo isto que escrevo de sangrias não sei porque me vêm à mente as imagens de alguns filólogos galegos fardados de seriosos galenos.
