Por Pablo Gamalho Otero
A minha filha maior, de 5 anos, perguntou-me um dia: ‘Papi, em que trabalhas?’, ‘eu sou linguista’, respondi-lhe intuindo que era a primeira vez que escutava essa palavra. ‘Pero papi, ti não és uma moça!’, retrucou, dando por suposto que um homem deveria ser ‘linguisto’. Na linguística ortodoxa explica-se que, para entender o sistema morfológico da nossa língua, é preciso separar o género gramatical do sexo biológico. Evidentemente, esta separação é uma simplificação teórica que não toma em conta as estreitas relações entre essas duas noções no uso da língua, e que explicam os complexos processos de gramaticalização. Outro dia falarei destas questões e da linguagem sexista, mas hoje quero centrar-me na sabedoria das crianças à volta da língua.
Uma das deformações profissionais mais conhecidas dos linguistas, que também são pais ou mães, é o facto de usar a sua prole como cobaia de laboratório. E eu, confesso, não sou exceção. Tenho um caderno onde anoto curiosidades da fala dos meus cativos, a diferentes níveis linguísticos. O exemplo com o que comecei este artigo é de natureza morfológica, mas o que quero analisar com mais detalhe hoje é um outro exemplo de natureza morfo-fonológica, que calha bem com o facto de ser, além de linguista, reintegracionista.
A protagonista é de novo a minha filha maior. Estava a ver o filme de animação ‘Cars 2’ em língua portuguesa. Na nossa casa elaboramos um algoritmo para escolher a língua dos filmes de animação: se o filme só está dobrado em inglês e castelhano, escolhe-se o inglês. Se está em inglês, português e castelhano, escolhe-se o português. Se está em inglês, catalão e castelhano (o que acontece bastantes vezes), escolhe-se o catalão. Para mais de três línguas, prioriza-se por esta ordem: português, inglês, francês, catalão e italiano. Se só estiver em castelhano, oculta-se o dvd. São normas estritas, como a de recolher a mesa ou ir à cama cedo. Mas este não é o tema do que quero falar hoje. Voltemos a cena descrita anteriormente: a minha filha vendo ‘Cars 2’. Ao entrar eu no salão, onde estava ela, para despedir-me, diz-me apontando com o dedo a dous carros, um com aspecto feminino e o outro com bigode:
– ‘Mira papi, são os espiONS, esta é a espiOA e este o espiOM’.
Coloco em maiúsculas uma aproximação do que ela realmente pronunciou, em oposição ao que ela escutou no filme: ‘espiÕES’, espiÃ’ e espiÃO’, respetivamente (o filme estava dobrado ao português europeu). Devo precisar, antes de mais nada, que era a primeira vez que ela visionava o filme e que eu nunca falara na casa de espiões. Como a minha filha não costuma tratar com outros reintegracionistas exceto eu, podemos inferir que era a primeira vez que ela escutava e reproduzia essas palavras.
A fonética é a ciência que estuda os sons reais tal e como se produzem, enquanto que a fonologia estuda os sons tal e como imaginamos que se produzem. A fonologia centra-se, portanto, no sistema abstrato e idealizado de traços fonéticos de uma língua, graças ao qual conseguimos simplificar a complexa realidade sonora e a partir do qual se determina o que cremos escutar. Quando a minha filha enuncia a palavra ‘espions’, após ter escutado ‘espiões’, está aplicando princípios básicos da fonologia e da morfologia, princípios que podemos simplificar deste jeito: mesmo se o som que escutou é ‘-ões’, ela imaginou escutar ‘-ons’ por influência do sistema morfológico do galego ocidental, que é a sua variedade materna. Em realidade, ela tinha a priori três opções de escolha: se escolhesse ‘espiões’ estaria a diferenciar o sistema do português padrão do galego, é dizer, estaria a atuar como isolacionista. Se utilizasse ‘espiones’ (mui perto foneticamente do que realmente escutou), estaria a utilizar o sistema morfológico castelhano como catalisador. Faria esta escolha, mui provavelmente, se se tratasse duma cativa castelhano-falante. Mas ela escolheu a opção reintegracionista: considerou que ‘-ões’ não é mais que uma variante fonética do sufixo ‘-ão+plural’ que, na sua variante galega, se pronuncia ‘ons’.
O caso do feminino ‘espioa’ em vez de ‘espiam’ ou ‘espiã’ é bem diferente, pois penso que intervêm aqui elementos de analogia morfológica. Na casa, costumamos dizer ‘campeoa’ (em vez de ‘campeã’), e jogamos muito com leões e leoas. Semelha evidente que foi o peso deste paradigma morfológico o que a levou a utilizar o sufixo ‘-oa’. De facto, acho que no filme não se diz nunca ‘espiã’, polo que o uso de ‘espioa’ não é mais que uma simples construção por analogia sem influência direta da fonologia.
Em resumo, e como corolário, podemos enunciar duas asserções: primeiro, as crianças sabem muito de sistemas linguísticos e, segundo, as crianças galegas são, de facto, reintegratas.
