A Rosa de Ouro

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Por Ernesto Vasques Souza

Para Francisco Pillado na sua despedida como editor.

Nem todos os baralhos servem para os mesmos jogos, nem todos são tão bonitos como os que fazem os amigos da Gentalha do Pichel; todos sim, são — como os mesmos jogos e os símbolos que se combinam — alegorias da realidade.

A Rosa de Ouro é um ornamento delicado, símbolo permanente de reverência, estima e afeição a monarcas, persoeiros, dignidades, governos e cidades que tenham demonstrado clara lealdade para com a Santa Sé.

Condecoração pontifícia por excelência é também o título do capítulo primeiro de El Ruedo Ibérico, o romance-rio histórico incompleto do Ramón del Valle Inclán mais estupendo, esperpêntico e serôdio.

A Rosa, concedida à católica, castiça e “jamona” majestade de Isabel II, serve para encetar em alto contraste, naquele subversivo ano, a descrição da corte corrupta, disparatada, avarenta e ridícula da rainha da casa de Bourbon.

…salvado el símbolo y mirada en su ser de orfebrería, no era un primor del cincel: Si deslumbraba a los legos ingenuos, a los peritos edificaba contándoles las estrecheces Del Santo Padre. Su Majestad la Reina, muy experta tasadora de alhajas, en el ceremonial de la entrega, se afligió con un ahogo de lágrimas…

Não me lembro agora exatamente onde foi que li, em falando desta ou outra cena, que as últimas cartas que jogam as monarquias na defesa das oligarquias que as apoiam e levantam uma e outra vez são as dos escândalos: caçatas perpétuas nas devesas com tiros perdidos, amores tumultuosos, olhares aflitos nos palcos do teatro do mundo, separações e cornos concedidos, casamentos inadequados, corrupções de barato e incómodos declarativos que ecoa e espalha a ritmo das apostas na partida a própria imprensa (voz também e propriedade dessas oligarquias) em dissimulo e a favor dessa constante de alienação da realidade e substração de informações pertinentes.

O derradeiro naipe, chamemos poéticos: Rosa de ouro, é o da fugida, o exílio, a abdicação estrondosa, ou a mudança de dinastia, segundo mandem trunfos. E enquanto o respeitável aplaude a cena do desterro, com panos e muitas bágoas dos tradicionalistas monárquicos e apupos da massa operária em grande voz coral, não repara nunca nas sacas e tesouros que a mesma oligarquia que os despede emocionada manda quitar pelas portas de serviço.

Afinal, acabam sempre por voltar, com propaganda impressa de se procuram “desejados”, bom soldo, perguntar pelos donos. Reclamados e tirados por causas e necessidades das mesmas oligarquias, de “pelotazo” em “pelotazo” e com golpe de Estado e saída de bastos ou d’ouros quando é banca Salamanca ou anda em jogo um bom botim – chamem-se os reis, os oligarcas do turno e os seus amigos políticos como se chamarem – no perpétuo carnaval e brinde de grandes cálices e magníficos os vinhos.

Porque o que não se entende, enquanto miramos à agitação do cortejo de fanfarras, penas e bandas que enchem as capelas e corredores de Palácio entre ecos doentes e besbelhos saborosos dos cegos dos cordéis, é como por mui parvas que sejam as infantas, por mui ladinos que sejam os cavaleiros e por mui belos os loiros pajens, que país é esse da Espanha onde os secretários com várias carreiras e idiomas, os advogados do Estado com toda a sua preparação, a nobreza de salão, a de sangue e a adventícia, ou mesmo o CNI, e a polícia que tão bem os custódia, deixa que façam, sem darem por estas e outras asneiras.

Máis de Ernesto V. Souza