A nossa terra não é nossa?

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Por Ernesto Vázquez Souza

Se perguntásseis a todos os homens antes de Copérnico:

— O sol levantou-se hoje? O sol se pôs?

— Temos absoluta certeza – responder-vos-iam à uma

Tinham certeza, e no entanto estavam errados.

Voltaire, Dicionário filosófico, 1764 (vid. certo, certeza)

Aquela fora outrora gente abastada. Longa em fazenda. De muitas terras no Sul e no Leste.

No Leste, por trás da casa, montes e madeira. Logo das congostras nos outeiros, longas chairas de loiro pão e fortes vinhos cor sangue. Bem diante da casa, depois do velho jardim e horto casenho, apenas atravessando o rio pela velha pontela romana, entre as beiras marinhas e os caminhos das férias, as ricas leiras do Sul: fruitos, verdura e vinhos saudosos na Outonia dourada.

Porém, por uma daquelas falcatruadas da política de então, entanto as terras do Leste pertenciam aos limites administrativos e judiciais em que entrava a casa, as terras do Sul, nos velhos lindes ainda da mesma paróquia, caíram dentro doutros, mesmo justo ao passar o rio.

Desde havia uma cheia de anos, as terras do Sul, deixaram de ser explorações rendáveis pelas complicações administrativas – e mesmo políticas – que traziam. E entanto as terras do Leste, com toda a administração gasalheira, em terra mais seca, cheias de pedras e inçadas de más ervas, davam bons reditos. Mas exigiam de todas as mãos e ainda muito levaram em caciquear.

Por isso as terras do Sul, foram-se – cousa lógica – deixando a monte. Quitando, no canto da leira da casa, beira do fresco rio onde tinham, ainda um pequeno horto e vinhedos. Vinhas e horto que alguma vez sachavam os velhos, as mulheres, os nenos e os homens nos feriados, para mantença e regalia festeira da casa. Ou onde, por gerações, alguma das almas artísticas da família pretendia restituir o jardim com experimentos e livros trazidos de longe ou com recordos da velha biblioteca/arquivo da casa.

O resto daquelas terras, mesmo logo do rio, iam virando montesias. E a gente cada dia menos transitava por aquele Sul dos bons caminhos, os mares e as feiras.

Mas, ainda os cuidados ocasionais dalgum dos herdeiros, a casa pouco a pouco foi esmorecendo. Apenas os velhos ainda lembravam nos contos de quando a casa era forte,: daquela quando não se sabia se eram mais ou menos estrangeiros “os da outra beira do rio” que os da parte “da lá dos montes”.

As terras do Leste davam para viver, mas as fragas castanheiras, outrora ricas, iam-se esmoucando e malvendendo a madeira. A casa passou a residência de verão. Entanto a família ia cada vez mais vivendo na casa nova na Chaira e já ultimamente na Capital.

O horto apenas se cultivava e o jardim já era um derrame de sebes, caminhos esquecidos, ruínas e fontes cegas. O velho e farto solar converteu-se aos poucos numa casa grande e labrega, na que cada anada comia o valor da seguinte.

Mas, passaram os anos e houve de vir internet agilizar os papéis e remexer as vontades dos herdeiros. Um dia qualquer, a lerem poesia ou na procura de um informe ténico para tratóres, acharam que o fazer da administração e o pesadelo de papéis era um jogo para os pícaros argalheiros.

E justo quando o derrube da casa estava mais certo, alguém intrigado mesmo com o jardim e as velhas roseiras, compreendeu que o cultivo daquelas terras do Sul, ainda não vendidas e cheias de futuro, era não apenas simplesmente possível quanto desejável.

Máis de Ernesto V. Souza