A lei de poder e o reintegracionismo

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Por Paulo Gamalho

A lei de potência (ou exponencial) modela um tipo de distribuição enviesada para valores extremos, de tal jeito que, dentro de uma população de objectos, há poucos com valores altos e muitos com valores baixos. Estas distribuições organizam sistemas naturais e sociais muito diversos, embora aqui me interessam só os sociais.

No sistema económico, a lei de potência conhece-se como Lei de Pareto. Vilfredo Pareto foi um economista italiano o qual, em 1897, publicou um estudo sobre a distribuição da renda. Nesse estudo, observou que a distribuição da riqueza não se dava de maneira uniforme, havendo grande concentração nas mãos de uma pequena parcela da população. Mais concretamente estimou que o 80% da riqueza estava em mãos de uma minoria: o 20% da população. Recentemente, os economistas descrevem também as leis do mercado mediante um tipo de distribuição de potência, que chamam Cauda Longa (Long Tail). Esta distribuição estabelece que a maioria das vendas se centram em poucos produtos, enquanto que existe um grande número de produtos que se vendem muito pouco (são estes os que formam a cauda longa). Frente às multinacionais, focadas na venda de poucos produtos muito rendíveis, estão a nascer recentemente muitas empresas e lojas online, baseadas no uso extensivo de tecnologias para reduzir os custos de armazenamento e distribuição, cujo objectivo é a venda de produtos especializados (da cauda longa) para minorias de consumidores.

No que atinge o âmbito das línguas e dos sistemas linguísticos, a lei de potência é mais conhecida como Lei de Zipf, formulada na década dos 40 pelo linguista americano George K. Zipf. Sem entrar em pormenores, esta lei prevê que, em qualquer texto escrito ou oral, a maioria das palavras têm baixa frequência enquanto que há um conjunto de muito poucas palavras com altas frequências. É dizer, usamos muito um número reduzido de palavras enquanto que usamos pouco a maioria das palavras do vocabulário.

Existem outros muitos sistemas que também se organizam mediante a lei de potência. A população das cidades e vilas segue este princípio, já que há poucas cidades muito populosas enquanto que a grande maioria são pequenas vilas. Um outro caso bem conhecido é a distribuição das visitas na Web: um número muito reduzido de sites concentra uma percentagem muito elevada das visitas, frente à maioria que não convoca nenhuma ou quase nenhuma atenção por parte dos usuários da Rede.

Estes são apenas alguns exemplos de sistemas de natureza social que se auto-organizam ou emergem mediante a distribuição de potência. Queria já agora utilizar esta mesma lei para modelar um sistema ou organização mais abstracto, que vou chamar Sociedade, e que vou descrever simplesmente como uma rede de conexões entre nós, que representam pessoas ou grupos. Não é preciso ser um sociólogo avezado para chegar à conclusão de que a maioria das conexões passa por poucos nós, frente a uma grande maioria com poucas possibilidades de interação. Também não é preciso especificar quais são as pessoas ou instituições que têm muitas conexões e quais temos poucas. Vou chamar este modelo Lei de Poder, já que nesta grande rede social, de natureza claramente hierárquica, alguns poucos ordenam e muitos obedecem (exceto em Grândola, onde alguém disse que é o Povo quem mais ordena).

Todos os sistemas e redes sociais que se organizam mediante a distribuição hierárquica da lei de potência ou de poder semelham seguir um princípio universal básico baseado na máxima eficiência e no mínimo esforço. São sistemas que concentram os valores, a força, as relações de poder, os mecanismos de controlo, num número reduzido de objetos, indivíduos ou entidades. Isto favorece a homogeneização e globalização do sistema a partir de uma minoria ou elite, facilitando a construção do pensamento único, ao mesmo tempo que esconde a diversidade, as diferenças e a heterogeneidade da grande maioria (a cauda longa).

Face a este tipo de organização, existem outros sistemas e redes mais densos e equitativamente distribuídos onde as conexões não se concentram em poucos nós, senão que se distribuem entre todos os membros de jeito mais uniforme. A rede neuronal do cérebro é o melhor exemplo. A mente humana está construída de tal jeito que nenhum simples neurónio tem o poder de obstruir a rede completa. Não há elites que controlam o funcionamento de todo o sistema, senão um grande número de grupos fortemente interconectados que podem intercambiar funções, objetivos e tarefas. Desde uma perspectiva social, os modelos que tentam imitar este tipo de distribuição, que fomenta a diversidade face a oligarquia, definem-se arredor de termos e conceitos como o de glocalismo, plurarquia, democracia cooperativa e participativa, e assim por diante. No passado, os defensores destes modelos agrupavam-se baixo o termo de anarquistas.

Quando escuto a canção ‘Os anarquistas’ de Léo Ferré, uma obra inmortal onde se diz que ‘Y en a pas un sur cent et pourtant ils existent’ (não chegam ao um por cento e, no entanto, existen), sempre penso nos teimosos e animosos reintegracionistas. Somos uma minoria que apenas chega ao um por cento da população e, além de mais, em termos da lei de poder, as nossas conexões de domínio são escassas. Dadas estas circunstâncias, podemos pensar em duas estratégias para reverter a situação. A primeira é tentar aumentar o número de conexões até chegarmos a ser uma minoria que domine a rede. Não é preciso sermos muitos. Basta com ser uma elite que controle os mecanismos de transmissão da ideologia, assim como as instituições que geram e implementam as normas que nos concernem. Nesta situação, a estrutura da rede não muda, só há uma reorganização das conexões. A segunda estratégia é mais profunda. Trata de mudar a rede, regida pela lei hierárquica de poder, para uma outra rede com uma distribuição mais equitativa das relações. Uma estratégia que busca um novo sistema com mais diversidade ideológica, mais dialéctica interpessoal, e com mais nós e subredes com capacidade de influenciar outras subredes, assim como de contra-arrestar a emergência de grandes grupos de poder.

É claro que a primeira estratégia é mais realista e possibilista, enquanto que a segunda, que propõe uma mudança de modelo, é talvez utópica e revolucionária (como a dos anarquistas?). Mas é importante, acho eu, esclarecer onde se situa um movimento que tenta mudar o paradigma linguístico do nosso pequeno mundo, atualmente subsumido pela lei de poder.