Por Ernesto Vasques Souza
Não há nada tão absurdo que o hábito não torne aceitável nem há nada tão aceite que o tempo não torne absurdo. Aforismo.
Talvez seja a anedota newtoniana da maçã a alegoria do positivismo na Ciência, mas para mim é a laranja emblema do relativismo e da perspetiva. É claro que eu não sou Isaac Newton nem parelho.
Era ao sol de agosto, no Alentejo, pelos caminhos de poeira em conversa com uma turma de moços de vários países. Andaria eu pelos 18 anos. Daquela experimentava por vez primeira que num ambiente internacional e num país lusófono um galego é um elemento senão central quando menos mediador na comunicação que todo o pessoal quer ter na sua turma ou grupo de trabalho.
É interessante e sei que com isto concordaremos os mais dos galegos que tenhamos andado e trabalhado em grupos internacionais: um galego é um bom contextualizador para os lusófonos não europeus, para os europeus não portugueses, para os espanhóis não castelhanos e também para os europeus lusófonos, para os castelhanos e para os mais dos europeus que falam português.
E não só. Na minha experiência, um galego, é um mediador nato, flexível e adaptativo que aprende não apenas as outras línguas decalcando da sua quanto capaz de integrar as flexões culturais e contextos que definem as bases culturais dessas línguas. E ao deixar expandir o seu cultural relativismo na resolução do bombardeamento constante da incomunicação, um galego transforma-se numa máquina subtil de perceção e no depositário de muitas confianças.
Mas deixemos as divagações. Eis a laranja. Um valenciano cambiou-me uma mediação com uma moça de Angola pela maneira em que se come uma laranja ruim em caminhada. Não se monda, não se emprega faca, nem se lixa as mãos. Esmaga-se aos poucos com cuidado de não romper a tona, depois fura-se e absorve-se o líquido.
A minha inicial surpresa ante o absurdo da proposta e o estrago quando ia fazendo, tornou-se num final comentário admirativo pelo muito que se aprende no mundo e o mais que se desconhece dos costumes das gentes: e como seria viver num país cheio de laranjas?
