A Geografia de Fraguas



Nos últimos anos, as escolhas da Real Academia Galega afastaram-me mais que muito de uma celebração muito querida e que me pareceu, desde que lembre, um grande acerto político e cultural, académico e popular. O Dia das Letras galegas, já na origem de 1963, ganhou aquele sentido da genialidade e da oportunidade das grandes intuições nacionais: celebrar um autor (e alguma autora) que escrevesse em língua galega, consagrando-os como clássicos em homenagens e lembranças destinados a sua recuperação, popularização, divulgação e reconhecimento coletivo.

No decurso das décadas a festa foi adquirindo mais sentidos, e mais presença social. Passou de ser um ato académico, minoritário e formal, a ser um festivo oficial, adquirindo na passagem dos anos também uma formulação de presença editorial e universitária; mas isto, sem perder o sentido social e reivindicativo, convertendo-se, via escolar e associativa, numa festa popular incontornável. O interessante da festa, é que socapa da exaltação de uma personagem, a data celebra e reivindica a língua galega, a língua do povo, a língua da Galiza, e consegue amplificar essa curiosa admiração e conexão que a gente da Galiza outorga aqueles das suas e dos seus bardos que vincularam a sua voz a causa da gente e a causa da cultura nacional.

Neste ano, no 17 de maio, a figura a celebrar é a de Antón Fraguas, uma personagem de limpa trajetória democrática, galeguista dos de sempre, e também um dos protagonistas e conformadores dessa política académica, ativista, reivindicativa e popularizante que tão bem representa o Dia das Letras.

Poderia preferir outras escolhas, mas não me desagrada esta. Não me resulta difícil evocar com carinho a figura tolerante e retranqueira do último Fraguas, já velho (e mais velho aos olhos do mocinho novo que eu era nos anos 90). Uma figura humana e presença característica, sólida, na sua aparência frágil e humilde, com uma obra académica basilar no campo da conservação, da antropologia, da etnografia, da arqueologia, da cultura popular.

Na minha memória privada, sobre todas as cousas, ecoa o impacto da pesquisa e descobertas das inúmeras caixas da sua Biblioteca, legadas à obra fundamental da sua vida, o Museu do Povo Galego.

Lembro aquelas caixas e pastas de arquivo cheias publicações, de folhetos e livrinhos de pequenos formatos, que o saudoso Carlos García Martínez gentilmente e com a mesma emoção compartilhada a cada olha-aí-que-há, ia tirando das prateleiras para mim. A biblioteca testamentaria ao Museu não estava daquela inventariada nem catalogada, como também na altura não estava tão completamente analisada a produção impressa galega de princípios do século XX e fins do XIX. Fraguas tinha muita cousa, nomeadamente livros e folhetos da editorial Nós e dos anos 20-30, que eram os que eu procurava, alguns repetidos, numerosos intonsos, bem e mal conservados.

Aquela biblioteca não era a de um colecionista, os livros tinham diversas condições de conservação, nem também era a de um leitor, nem a de um estudioso. Era a biblioteca de um resgatador, de uma pessoa que procurara aqueles livros perseguidos, marginalizados e esquecidos como um tesouro para legar as vindouras gerações.

Passei tardes de outono em Compostela nesta conversa e ambiente de maravilha com o Carlos. Talvez não tirei muito em concreto da pesquisa, mas vi capas que nunca antes vira, vi os folhetos e os livros, mais uma vez como conjuntos, como projetos editoriais. Com o seu sentido de obra coletiva, com a sua entidade artística de objetos estéticos para além do mero texto, isso tudo que permite enxergar o vínculo intelectual e nacional, o relacionamento com o publico da época e intergerações.

978920359475Essa mesma sensação reapareceu-me estes dias, ao percorrer as páginas da sua velha Geografia (Geografía de Galicia .-Santiago de Compostela : Porto, 1953); dissimuladas naquele castelhano de fábrica valleinclenesca e murguiana, encontram-se as análises, propostas e teses do Partido Galeguista; na descrição notarial e emocionada do território, nessa geografia sentimental, encontra-se o discurso regeneracionista e restaurador do galeguismo, focado numa reestruturação racional do país, conforme as suas velhas demarcações comarcais, paroquiais; encontra-se a estruturação do tecido comercial e a organização do transporte, das comunicações e correios, da sanidade, da educação, da comunicação a serviço das diversas entidades de população humana espalhadas pela geografia, condicionadas por esta e conformadoras – nas teses de Otero Pedrayo, a quem como mestre se dedica o livro – da paisagem, de muito velho humanizada pela mão e obra, agrícola, comercial, militar do ser humano.

Poderíamos dizer, sem muito erro, que a geografia é o eixo central do programa de redenção galeguista. A imagem parece fixada como na alegoria de Adrião Solóvio alumeando em percorrido a contemplação final do tio moribundo do mapa de Fontán.

Pois a Geografia não é apenas uma contemplação e descrição emotiva da Galiza tradicional e agrícola que se perde. O conjunto dos mapas históricos (e presentes) e as descrições da geografia, tão caros à gente da Galiza e os seus jeitos descritivos da socialização ubicativa, são uma constatação das potências perdidas e também do que podia ter sido a Galiza, a inícios do século XIX, durante e até a metade do século XX. Uma Galiza que seria outra de ter podido comandar a sua história, geografia e organização territorial.

Geografia Fraguas 1953

Geografia, Fraguas, 1953. Frontis.

É essa uma reivindicação presente na obra de Fraguas. Uma reividicação que é fascinante re-ver, neste hoje de despovoamento e destruição constatável (e imparável?) após décadas de absurda e nenhuma planificação autonómica e após dous séculos de implantação a martelo dos modelos administrativos da chaira castelhana, da estrutura territorial e social, da economia, da paisagem, do património e da vida da Galiza.

Enfim, é curioso comprovar num velho livro, como o modelo para a análise da história geográfica passada continua a ser o mesmo que o da racionalização de uma Galiza futura. O modelo do Partido Galeguista de Bóveda, Otero, Castelao, Vítor Casas, Picallo, o de Fraguas, Seoane, González López ou Diaz Pardo, o que, por outra parte, seria o mais o mais lógico a olhos da gente, se puidesse.

Para conocer Galicia hay que sorprenderla en la campiña, señalada con matices propios en cada estación del año. Una vida ordenada y laboriosa entretiene las horas del lugar en continuo movimiento, un poco aferrado a la tradición, pero gozoso de apoderarse de toda novedad con la lentitud que requiere la bien pensada marcha de la economía dispuesta con afecto y sin sobresalto. (A. Fraguas, Geografia, [Prólogo, p.3]).

* Publicado em A Viagem dos Argonautas,

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza

(Crunha, 1970). Formado como filólogo, publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. É sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; entre 2016 e 2019 foi Diretor do Portal Galego da Língua.
Ernesto V. Souza

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  • Heitor Rodal

    Grande artigo Ernesto. Como dizem em inglês: “Geography is Destiny”. E a Galiza tem umas potencialidades geográficas e de estruturação a partir dela que têm sido sistematicamente negligenciadas ou marginadas. Ninguém se deveria surpreender então dos resultados.
    Apertas.

  • Heitor Rodal

    Ainda, um outro novo paradigma que se está a impor pola via dos factos: “Connectivity is Destiny”. [ https://www.paragkhanna.com/connectography ].
    E daí não é difícil tirar uma correlação aplicável às normas linguísticas que mais nos conetam, não é?

    • Ernesto V. Souza

      curioso… olha, isto é o último que escrevi nos Argonautas:

      https://aviagemdosargonautas.net/2019/05/23/a-galiza-como-tarefa-camlaam-ernesto-v-souza/

      • Heitor Rodal

        Magnífico e certo também. Nesta nova fase da eterna guerra polo domínio, possessão e controlo, perderemos mais uma vez todos, até porque, como acertadissimamente apontas aí, a vitória é impossível.
        “Deus escreve certo por linhas tortas”. Sei lá, mas por acaso, continuemos a escrever.