Por Pablo Gamalho Otero
Gosto mais dos conceitos que dos termos linguísticos que tentam expressá-los. Os conceitos são conexões de ideias que se activam e desactivam, evoluindo constantemente como resultado de operações cognitivas complexas. Representam o dinamismo do pensamento. Os termos são as formas, os limites, as fronteiras que separam, de jeito arbitrário esses conceitos. Há muito tempo que a cultura oriental quer ensinar-nos a desfazer-nos das redes terminológicas para “ver” o conceito, despido da sua verbalização paralisante. Desconheço se existem criaturas que sabem como apreender conceitos sem verbalizá-los. Eu, com certeza, não. Mesmo se não gosto deles, preciso dos termos para organizar o pensamento.
Esta semana revivi uma estranha experiência onde “vi” com clareza o conceito antes de aprisioná-lo com um termo. Normalmente, seguimos o caminho oposto: aproxima-mo-nos do conceito através de um ou vários termos. Era uma reunião informal de negócios organizada por um grupo de pessoas que vinham de Madrid para falar duma aplicação informática focada ao empreendimento. Enquanto se verbalizavam termos como redes distribuídas, mercado global, bazares locais, software livre, modelo de negócio, pouco a pouco, devagarinho, foi construindo-se um discurso que me soava mui familiar. Falava-se de utilizar a aplicação informática para elaborar um mercado transnacional através de redes locais baseadas na confiança e na intercompreensibilidade linguística. Um mercado de 600 milhões de falantes, com um valor económico superior ao Chinês, presente em estados e regiões dos cinco continentes: Espanha, Portugal, Saara, Cabo Verde, Guiné Equatorial, Guiné Bissau, Angola, Moçambique, Goa, Timor, Macau, Chile, Brasil… o conceito é-nos bem familiar. Duas línguas internacionais como ferramenta para abrir laços económicos. Uma ideia que levamos cismando na Galiza desde há muito tempo. Uma oportunidade que pensávamos que era só nossa. Mas agora, pensava, esse conceito está sendo articulado também em Madrid. E não só isso. Também vêm de ali com um termo que o expressa e o encerra num recipiente linguístico pronto para ser digerido: chama-se a “A estratégia Latoc”.
Por Latoc, entendem o latim ocidental, é dizer uma família linguística que abrange três variantes: o astur-leonês, o castelhano e o galaico-português. Três variantes que partilham quase o 90% do léxico. Três variantes onde se encontram duas línguas internacionais. Uma oportunidade de fazer negócio nos cinco continentes.
Não sei se o conceito que está por trás do termo “Estratégia Latoc” subsume o conceito que costumamos expressar com a nossa bem conhecida “Estratégia Reintegracionista”. Tal vez activa um domínio conceptual que vem a complementar e enriquecer a rede de ideias que chamamos Reintegracionismo. Seja o que for, vou precisar dalgum método Zen que me ajude a desembaraçar-me de todos estes termos, novos e velhos, que me asfixiam, para tentar apreender a nova dimensão do galego dentro do universo Latoc.
Nota: a aplicação informática chama-se Bazar (http://garumfundatio.org/bazar).
