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Óscar Pazos: “As origens históricas do nosso país nom se podem compreender sem a minaria galaico-romana”

Viguês de 1967, Óscar Pazos é geólogo e combina a sua profissom com a difusom da história da Galiza através de jeiras que nos achegam fisicamente aos alicerces físicos da Terra. Trás mais dumha década dedicada ao estudo da minaria galaico-romana, organiza sistematicamente andainas Geo-Arqueológicas polos nossos montes para compreendermos de perto um fenómeno que explica muitas cousas das nossas origens como povo. “Comecei este estudo por acaso e fiquei abraiado pola magnitude do fenómeno”, confessa-nos Pazos, autor da obra A invención da Gallaecia e a minaria do ouro. Unha tese sobre as orixes da Galiza. Com ele conversamos para deitar luz num fenómeno muito ignorado.

Quais som as tuas primeiras aproximaçons ao fenómeno mineiro galaico-romano?

Som viguês, som geólogo, considero-me familiarizado com a nossa Terra, mas quando comecei o meu percurso tinha poucas noçons do assunto. Fiquei assombrado ao descobrir a cantidade de jazigos e o seu estado de conservaçom. A minaria ficara na memória da gente, na toponímia, nas lendas de tesouros agochados, nesses lugares chamados “Buraco”, “Meda”, mas a transmisom começara a esmorecer…e coincide esta ruptura da transmisom com a irrupçom de toda umha nova série de tecnologias, como o GoogleEarth, entre outras, que fam possível um conhecimento exaustivo do território.

Para nom iniciados da matéria, poderias dar-nos algumhas pinceladas do território que habitamos, daquilo que define a Geologia da terra que pisamos?

Sendo muito sintéticos, estamos numha terra que se origina no Paleozoico, portanto num espaço relativamente antigo: um velho zócalo que tem pouco do Terciário, muito condicionado por um sistema de fracturas. Com umha extensa área que pode ter por volta de 300 milhons de anos, em ocasions mais, e que som as nossas grandes massas graníticas do Occidente. Um território que se fai mais “somero” assim que nos imos deslocando para o Leste.

Que topou o Império romano quando chegou à Gallaecia?

Umha terra riquíssima do ponto de vista mineiro. Temos a imagem prototípica das Médulas para representar a exploraçom romana, mas é menos conhecida a difusom da minaria cara o Oeste. Damos com umha cheia de velhas minas que baixavam do Minho até o Rosal, temos por exemplo jazigos entre Vigo e a Guarda, nos Montes da Grova. Mas também cara o norte, perto de Compostela, em Oroso, em Corcoesto e Sas; no oriente, há jazigos de Foz a Ribas de Sil. A Xunta tem hoje catalogadas entre 500 e 600 minas, e estas nom som todas. Trata-se dum catálogo em construçom, e parte delas nem estám estudadas.

Damos com umha cheia de velhas minas que baixavam do Minho até o Rosal, temos por exemplo jazigos entre Vigo e a Guarda, nos Montes da Grova. Mas também cara o norte, perto de Compostela, em Oroso, em Corcoesto e Sas; no oriente, há jazigos de Foz a Ribas de Sil. A Xunta tem hoje catalogadas entre 500 e 600 minas, e estas nom som todas. Trata-se dum catálogo em construçom, e parte delas nem estám estudadas.

É este um fenómeno singular?

Absolutamente. Nom há nada que se asemelhe em outra parte do Império; as mais delas som de ouro, e através desta minaria, aconteceu a nossa integraçom na estrutura política romana. Tudo começou em tempos de Augusto, mas nom sabemos exactamente quando rematou. O que si sabemos é que se produziu umha “febre do ouro” que quanto menos durou dous séculos. Os mesmos romanos reconhecem nos seus documentos que nom se deu outra minaria tam rica em toda a Antigüidade. Foi fundamental para o Império e, como veremos, também para a populaçom galaica. O peso político da Gallaecia como província deve-se à minaria.

Como influiu o processo mineiro na organizaçom do nosso território?

Penso que de maneira decisiva. Levemos em conta um dado a modo de exemplo: todas as legions romanas, agás a pretoriana, que protegia o emperador, estavam no limes, nom sendo duas: a de Alexandria, que garantia o fornecimento de trigo, e a da Gallaecia, que garantia o fornecimento mineiro. A disposiçom dos acampamentos romanos, ou a famosa Via Nova, de Braga a Astorga, tem a ver com a minaria. Por que esta Via Nova é a que acumula mais miliários em todo o território imperial? Porque passava por zonas muito despovoadas, o que fijo possível a conservaçom. E passava por zonas despovoadas porque estava desenhada em funçom de áreas mineiras. Acampamentos tam conhecidos como Aquis Querquennis foram abandonados quando a minaria com a que se relacionavam esmoreceu. De maneira que entendo que a política provincial romana na nossa Terra era fundamentalmente umha política mineira.

Todas as legions romanas, agás a pretoriana, que protegia o emperador, estavam no limes, nom sendo duas: a de Alexandria, que garantia o fornecimento de trigo, e a da Gallaecia, que garantia o fornecimento mineiro.

Qual foi o papel da populaçom galaica nas exploraçons?

A pesquisa arqueológica tem chegado a um consenso importante: quem trabalhavam na mina nom eram escravos, mas homens livres; obviamente, sem os direitos dos romanos, nom eram cidadaos. Nom está claro como se artelhavam o controlo e a exploraçom, mas si podemos intuir umha certa participaçom activa da populaçom autóctone. Os galaicos aparecem mencionados nas fontes já no século II a.C., quando os derrota Décimo Júnio Bruto “O Galaico”, mas nas guerras do norte de Augusto já nom aparecem citados. Eu acho que isso se deve a que foram estabelecidas já bem relaçons de aliança, bem de submetimento. Por exemplo, no conhecido Edito de Bembivre ou Bronze do Berzo, do 15 a.C. aparece muito clara a política romana: Augusto diz a umha das tribos em desputa que tem direito a ocupar a terra por ter ajudado a Roma no combate contra os astures. Aqui vemos já umha hierarquia de deveres e obrigas em favor dos romanos, e precisamente numha zona mineira.

Que conhecimentos se precisavam para acometer tal empresa?

Antes de aplicar qualquer conhecimento técnico era necessária umha exploraçom exaustiva do terreno, e isso requeria de participaçom de pessoas nativas. Isto ratifica um bocado a ideia anterior: pois se os romanos levárom todo o ouro, que nom era explorado, como em outras partes, por empresas privadas com escravos, mas polo Estado, isto é, polo emperador, porque esta participaçom local? Porque teria que haver certas contrapartidas.

Logo, este é um projeto que precisa muito ofício. Pensemos que nom havia conhecimentos geológicos (a Geologia tem apenas dous séculos de vida), mas havia umha capacidade de identificar minerais; isto relaciona-se com a nossa histórica relaçom com os metais. A Gallaecia fazia parte da rota das Casitérides, de toda umha tradiçom de comércio marítimo.

Aliás, sabemos que a minaria romana extrazia metais com ferro, a pico, mas também utilizando o lume, produzindo dilataçons diferenciadas na pedra que separavam os distintos materiais, por vezes combinando com água para jogar com grandes contrastes térmicos. Neste particular gostaria de especificar que a ideia de “Ruina Montium”, que se fijo lugar comum, nom se apoia em evidência arqueológica. É a interpretaçom muito livre dum texto de Plínio O Velho. Mas nom, nom há dados que nos confirmem que os romanos devastavam montes com galerias subterráneas de água. O que si se deu é um aproveitamento impressionante das obras hidráulicas, os conhecidos “Monte Furado” (existem vários no país). Som obras enormes, que por vezes eram mais custosas que a própria mina. O Monte Furado do Sil, em Quiroga, por exemplo, o que fazia era um segundo lavado de água, para aproveitar aquilo que nom se detectava nas minas dos rios ao norte do Sil, essa era a sua funçom.

A tua tese defende que a minaria condiciona enormemente o papel da Gallaecia no Império, e mesmo a nossa identidade. Podes desenvolver a ideia?

A Gallaecia foi a primeira província em sair-se do Império e, curiosamente, a única de todas elas que mantém a herança romana provincial intacta, o seu nome, e a sua base geográfica. Isso explica muito como é a nossa terra, a sua conservaçom e riqueza toponímica, porque em 2000 anos, provavelmente mesmo em mais tempo, mantém umha grande continuidade, nom há rupturas populacionais que racharam o conhecimento do terreno. Isso significa que ao chegarem os suevos a primeiros do século V existe umha identidade galaico-romana forte. Daí que as elites reagissem contra os suevos, a afirmarem que eles eram galaico-romanos. Eu nom sei se, individualmente, os galegos ou as galegas somos celtas, mas o que tenho claro é que somos a primeira naçom latina.

Isso significa que ao chegarem os suevos a primeiros do século V existe umha identidade galaico-romana forte. Daí que as elites reagissem contra os suevos, a afirmarem que eles eram galaico-romanos. Eu nom sei se, individualmente, os galegos ou as galegas somos celtas, mas o que tenho claro é que somos a primeira naçom latina.

Dedicas-te à difusom de todo este legado. Que visitas recomendas às pessoas amantes da nossa terra?

As opçons som muitas, desde que cada mina tem a sua história, existem algumhas reforçadas com painéis explicativos, outras menos visitáveis. Umha das mais conhecidas, entre as primeiras, é a da Póvoa de Brolhom; entre as que causam maior impressom acha-se a Mina do Medo, em Maceda, com 400 hectares. E logo temos em lugares tam distantes como Quiroga, Tominho, ou mesmo Sigüeiro, acarom de Santiago, que foi semi-destruída por umha urbanizaçom. As pessoas interessadas nas jeiras que organizamos podem aceder ao web aterradouro.wordpress.com para conhecerem polo miúdo as nossas saídas.

[Esta entrevista foi publicada originariamente no galizalivre.com]

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