Por José Ramom Pichel Campos
Há coincidências ou causalidades que se conseguem só num tempo. Esse conto das desgraças concentradas em breves espaços do tempo. Quando uma vem, há que esperar a que venham outras, e assim até que param, e que se lhe vai fazer, o jogo é assim da vida, este jogo absurdamente interessante e cheio de aletoriedades e possibilidades. Aletoriedades como as que existem na programação de muitas linguagens -as funções randomize- que servem para gerar números pseudoaletórios entre um número e outro. Por exemplo, se fazemos um randomize até o número 10, é possível que se gere o “1” logo o “5” logo o “3” logo o “9”, etc. O que sim se sabe é que quando se acabem de obter todos os números aleatoriamente e finalize o ciclo, afinal essa mesma seqüencia se repetirá até o infinito.
As mortes-desgraças bebem do casual, do aleatório. Por exemplo este mês morre o grande Mario Benedetti, essa grande pessoa para além de poeta, deixando-nos tristonhos mas alegres e até exilados da sua palavra. Poeta absolutamente irônico de país pequeno com aquilo de “Afinal a morte não deixa de ser um sintoma de que alguma vez estivemos vivos”, ou “quando pensávamos que tínhamos as respostas, então foi quando de súpeto mudarom as perguntas”.
E mais mortes-desgraça quando morre também neste mês com distância oceânica e olhada atlântica o grande acordeonista da Terra de Montes Ramón Pichel, filho de Adelino Pichel o gaiteiro de Sorribas, bairro de Forcarei. As aletoriedades escrevem-se também em cinco linhas dum pentagrama, nos já míticos diplomáticos do acordeão que ele fundara, música popular para o genial intérprete.
Ou quando morre neste mês de maio de 2009, meu tio e padrinho de meu irmão Manolo Ferro, homem representante de todos esses trabalhadores anônimos e autônomos que trabalham com a sua mulher -minha madrinha- duramente, detrás dos mostradores nesses ultramarinos do rural, que desaparecem na Galiza, autênticos gabinetes psicológicos, escutador de tantas conversas, cortador de tantas sandes para meninhos, e observador do mundo nesses vraos de talho deitado, ao pé duma entrada.
O que os unia aos três, para além de começar todos pola mesma letra Mario, Moncho e Manolo, era a imensa vitalidade que cada um interpretava ao seu jeito, um passando à história das letras mundiais, outro deixando música para tocar e afeição polo acordeão, e outro deixando um sorriso irônico e muitos castinheiros plantados. Só falta o quarto M, da morte, e um música, música e mais música para caneá-la.
(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.
