Por José Ramom Pichel Campos
Tentamos atingir, esticando os braços até não poder mais, o cérebro fazendo o seu papel de dirigente de comitern, e essa voz do ego que parece que tudo o controla. Um a um, dia a dia, mês a mês, ano trás ano pensamos que dominamos a técnica do repto, um trás doutro, saltando barreiras, entupindo a tranquilidade, acelerando cada passo, pensando que agora as cousas não podem mudar mas no futuro tudo será diferente.
Por isso, desde a infância trabalhando para o futuro, mas na infância só existia o presente, por isso temos tanta nostalgia dela. Nada estava incorporado ao que sucederá, só o instante actual, gostáramos ou não dele, mas o carpe diem como palavra de ordem. Após disso, os projetos que nos proclama essa cadeia transportadora vital, estudos, mais estudos, barreiras, mais barreiras, superá-las e agora já, mas nunca já, só um pouquinho, e agora a por aquela outra cousa, sem tempo para parar, e por que parar? sem tempo para ser conscientes do agora, esse agora, não o outro, só o agora, esse mesmo. Temos tanta presa em conseguir não sei o que, tanta velocidade pola perfeição, tantas linhas para o curriculum, que esquecemos o importante. O nosso ser, como um estar preparado para um lugar no que só nós, cada um, cada uma, estamos.
Que não nos equivoquem os cronómetros, os segundos não existem, nem os minutos, a vida é uma cousa mais interessante. Ou quais os melhores momentos da vida: aqueles nos que só fomos conscientes do presente.
Os momentos melhores, a leitura daquele livro, a companhia daquele(s) ser(es), o mar em temporal, a montanha, a conversa escutada e menos interpelada. No entanto como fugimos de todo o que nos coloca com já.
Confundidos nesse futuro que outros prometem quando não nós mesmos. A armadilha que nos mantém sempre alertas é aquela que nos diz que o futuro esse gigante. E como sempre interpretamos o futuro, ou o presente com a lupa do passado alimentamos egos, egocentrismos e todo aquilo que os e(n)gorda.
Por isso quando desde blogs, desde redes sociais, desde vídeos no youtube, todos estes políticos e políticas nos prometem em eleições um futuro, esse culpado, no que podamos maravilhar-nos, espelhinho espelhinho quem é o mais bonitinho, então é quando penso que a tecnologia, neste caso malvada, curva o espaço-tempo e nos devolve a um lugar do que nunca mais poderemos sair: a incapacidade colectiva de viver o agora, o presente. A questão é que eles acreditam realmente no presente, preparando sem vergonha, o seu futuro.
(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.
