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Vocabulário galego do futebol: modelo para armar

Carlos Garrido, presidente da Comissom Lingüística da AGAL
Carlos Garrido é presidente da CL-AGAL e professor da faculdade de Filologia e Traduçom de Vigo

A visom reintegracionista, ou internacional, do galego, além de plenamente regeneradora, revela-se como a única deveras enriquecedora e emancipadora para a nossa língua, no sentido de que ela faculta todos os utentes para, de modo autónomo, alargarem de forma segura e eficaz o léxico galego, tornando-o um instrumento extenso, útil, coerente e preciso, livre da asfixiante e empobrecedora tutela do castelhano. Para tal, só é preciso ter presente uns poucos conceitos-chave e pôr-se em contacto —o que cada vez é mais fácil através da internet!— com as variedades geográficas socialmente estabilizadas da nossa língua, o lusitano e o brasileiro.

Assim, enquanto os galegos que (ainda) se orientam pola (muito deficiente) codificaçom lexical elaborada pola Real Academia Galega dependem para a configuraçom e ampliaçom do seu léxico moderno e culto de uns ditames académicos que em muitos casos ainda nom se produzírom (com as conseqüentes lacunas e inseguranças no uso da língua!), ou que, se já se produzírom, se revelam com demasiada freqüência castelhanizantes, caprichosos e aberrantes (para designar o silicone, como pode aceitar-se o castelhanismo *a silicona [sili-cona]?!; para designar um ícone, como pode inventar-se a palavra *a icona [i-cona]?!), as pessoas que optam pola perspetiva reintegracionista da língua ampliam elas próprias, e de maneira ótima, os recursos expressivos do léxico galego a partir dos seguintes conhecimentos básicos:

  • O galego-português tem sofrido na Galiza desde o início dos Séculos Obscuros (séc. XVI) até à atualidade (séc. XXI) umha série de fenómenos de degradaçom lexical (conhecidos sob os nomes de variaçom sem padronizaçom, substituiçom castelhanizante, erosom, estagnaçom e suplência castelhanizante) que tenhem determinado que o léxico da atual fala espontánea se apresente notavelmente descaraterizado e empobrecido.
  • A estratégia mais eficaz (mais natural, mais coerente, mais económica, mais vantajosa do ponto de vista sociolingüístico) para fazermos frente a cada um desses fenómenos de degradaçom lexical sofridos polo galego consiste, em geral, e sem se perder um ápice de galeguidade, numha constante coordenaçom ou convergência com o léxico das variedades lusitana e brasileira da nossa língua, estratégia cujos pormenores analisa e explica O Modelo Lexical Galego, documento codificador da Comissom Lingüística da AGAL (2012).

Vejamos, a seguir, como mostra ilustrativa da aplicaçom desta estratégia de regeneraçom lexical, um caso atraente e agora muito na moda, graças ao Mundial do Brasil: como disponibilizamos em galego o rico vocabulário do futebol, isto é, a terminologia e fraseologia da linguagem ou gíria futebolística. Neste caso, temos de levar em conta, sobretodo, que, como se explica em O Modelo Lexical Galego (pág. 101-139), ao ser o do futebol um ámbito designativo moderno, em que os elementos lexicais surgem com posterioridade ao início na Galiza dos Séculos Obscuros (de facto, nos séculos XX e XXI), deveremos enfrentar-nos à estagnaçom e suplência castelhanizante do léxico galego nessa área, o que quer dizer que, polo que tange à estagnaçom, para designar os conceitos do futebol, nom surgírom novas palavras (p. ex., em castelhano surgiu no séc. XX larguero, mas esta palavra nom é galega nem vale para o galego), nem se incorporárom novos significados às velhas palavras galegas (p. ex., em Portugal, mas nom na Galiza, no século XX, a velha palavra galega trave ‘viga’ ganha o novo significado de ‘barra que pola parte superior une os postes da baliza de futebol’); e, polo que tange à suplência castelhanizante, que as lacunas ou vazios que essa falta de enriquecimento lexical deixa em galego hoje som preenchidos, na fala espontánea descuidada, por palavras castelhanas, como *larguero ou *largueiro, que deturpam a personalidade do galego.

Felizmente, em O Modelo Lexical Galego (pág. 140-145), da Comissom Lingüística da AGAL, também encontramos umha eficaz medida regeneradora contra a incidência sobre o léxico galego, e sobre a  nossa linguagem do futebol, da estagnaçom e suplência castelhanizante, a qual consiste, em linhas gerais:

1.º– em preenchermos os vazios que no nosso léxico deixou a estagnaçom mediante a incorporaçom (com as adaptaçons gráficas que em cada caso forem convenientes) das palavras hoje utilizadas em Portugal e no Brasil (como trave ou caneleira, que designa umha proteçom da perna) e em eliminarmos os eventuais castelhanismos suplentes da fala espontánea (como *largue(i)ro ou *espinillera);

2.º– a estratégia completa-se com a medida de preferirmos para o galego, atendendo a razons de proximidade geográfica e cultural, as variantes lexicais de Portugal naqueles casos (algo abundantes na linguagem do futebol!) em que se registar divergência nas soluçons entre Portugal e o Brasil (assim, p. ex., para a Galiza adotaremos as soluçons lusitanas avançado, guarda-redes e trave, em vez das correspondentes brasileiras atacante, goleiro e travessão).

Já podemos, entom, com a simples e divertida leitura ou escuita de textos portugueses e brasileiros, disponibilizarmos de maneira ótima a nossa linguagem galega do futebol! Vejamos, agora, amigos e amigas, umha pequena amostra deste vocabulário, extenso e útil, que todos podemos ir construindo de forma autónoma:

bola ou esférico, bancada, balneário (cast. vestuario), relva ou relvado (cast. césped)

jogo, partida, encontro ou desafio

baliza (cast. portería), postes, trave, rede, ángulo (cast. escuadra)

guarda-redes (cast. portero), defesa, médio, avançado

árbitro, fiscal/juiz de linha ou bandeirinha, cartom (amarelo/vermelho) ou cartolina

driblar – o drible ou fintar – a finta (cast. regatear – regate)

golo, chuto ou pontapé, grande penalidade (ingl. penalty), fora de jogo

pontapé de baliza, pontapé de canto (cast. saque de esquina), (pontapé de) bicicleta (cast. chilena), pontapé-banana ‘remate com muito efeito lateral’, tabel(inh)a (cast. pared)

camisola, calçom, caneleira (cast. espinillera), bota, pitons (cast. tacos)

a claque (Br. torcida; cast. afición), a equipa, o clube

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