José Carlos Silva – Muitas pessoas ficarão admiradas com a frase acima, não só pela dificuldade no entendimento, mas também com a afirmação categórica de que os que falam dessa maneira, chamados de caipiras no Brasil, são representantes de uma das expressões culturais mais antigas e ricas deste país.
A cultura caipira é um conjunto de manifestações das populações do Centro Sul brasileiro e não fica limitada à música, ela reúne também a culinária, literatura, dança e até a forma de falar e encarar o mundo. Diz a sabedoria popular que “não é possível virar caipira, pois vive-se como caipira desde que nasce”.
Nesta reportagem, em virtude da extensão do assunto e a limitação do espaço, será abordada apenas a porta-voz desta cultura: a viola caipira; que foi trazida pelos portugueses nos primeiros tempos da colonização, utilizada na catequese pelos jesuítas, como José de Anchieta em 1533, foi e ainda é tocada em festas religiosas e populares, como a Folia de Reis; revelou inúmeros talentos artísticos, levando o caipira aos palcos e discos.
Depois de um longo caminho, este instrumento chegou às universidades de renome internacional, como a Universidade de São Paulo, que criou o primeiro curso de graduação em viola caipira coordenado pelo pesquisador-violeiro Ivan Vilela, sendo seguida por outras entidades, como a Faculdade Cantareira (SP) e foi objeto de estudo da dissertação de mestrado de João Paulo Amaral.

A viola caipira
Pesquisadores e violeiros concordam quanto à origem portuguesa da viola brasileira que se espalhou rapidamente pelo país, recebendo diferentes denominações como: viola caipira, viola de dez cordas, viola sertaneja, viola cabocla, viola nordestina, viola de feira, viola de mão, viola de arame, entre outras, criando ou incorporando ritmos, muitos deles de tradição indígena, como cururu, catira, cateretê, toada, cana-verde, folia, moda-de-viola etc. Os violeiros também criaram diferentes afinações e formas de tocar o instrumento.
Somente em 1929 a música caipira, também chamada de sertaneja ou de raiz, chega aos discos, o antigo LP (Long Play), pelas mãos do compositor e escritor Cornélio Pires, que financiou a primeira tiragem destes discos, mesmo desacreditado pela indústria fonográfica.
A iniciativa teve êxito e, em pouco tempo, as duplas caipiras apresentavam-se em circos, programas de rádios, escolas e onde fossem chamados.
Para ilustrar o apelo popular da música caipira pode-se tomar como exemplo a dupla Cascatinha e Inhana, que transformou seu quinto disco, um vinil de 78 rpm, em um dos maiores fenômenos de venda em todos os tempos em nosso país. Trazia duas versões, as guarânias paraguaias Índia e Meu Primeiro Amor, com uma vendagem superior a 2.500.000 cópias, mesmo tendo sido também gravadas por outros intérpretes. Foi a primeira vez que um disco de música caipira atingiu tal vendagem. Um disco que jamais saiu de catálogo. O detalhe curioso é que na década de 1950, quando foi gravado, o Brasil não possuía essa quantidade de aparelhos fonográficos.
No final dos anos 60, a música caipira entrou em declínio com o abandono das gravadoras, mesmo à margem da grande imprensa, duplas e cantores caipiras continuavam gravando e fazendo espetáculos. A grande retomada aconteceu por volta da década de 1980/90 com o surgimento de novos nomes como Ivan Vilela (SP), Pereira da Viola (MG), Paulo Freire (SP), Levi Ramiro (SP), Almir Sater (MT) entre outros, que se utilizavam da tradição musical caipira para incorporar novos elementos e técnicas de uso do instrumento.
Seguindo os passos desse novo grupo de desbravadores veio uma nova geração de violeiros, onde adolescentes ao invés de tocar a guitarra, escolhem a viola caipira como instrumento e saem em busca de estudo e referências. Como expoentes dessa nova geração estão Vinicius Alves, Thiago Rossi, Grupo Matuto Moderno, Trio Carapiá, grupo Conversa Ribeira e o emocionante trabalho desenvolvido pela Orquestra Filamônica de Violas, que reúne integrantes de diferentes idades, profissões, escolaridades e mostra que a diversidade é possível através da música.

Para acompanhar esse novo momento da música caipira as instituições de ensino, conservatórios e universidades passaram a oferecer cursos e uma revista temática surgiu no mercado, além dos métodos de ensino que já existiam.
O violeiro João Paulo Amaral, mestrado pela Universidade de Campinas – Unicamp, professor da Faculdade Cantareira, da Universidade Livre de Música e integrante dos grupos Conversa Ribeira e Trio Carapiá, percebeu a lacuna existente no ensino de viola caipira, onde faltava não só um método de viola, mas partituras e literatura que desse suporte às metodologias adotadas. Assim criou arranjos para músicas tradicionais, seja para violo solo, duo ou trio e editou o livro de partituras, com CD encartado, “Viola Caipira – Arranjos Instrumentais de músicas tradicionais – lançado em dezembro de 2008, com apoio da Cooperativa de Música de São Paulo.
Precisamente, na tentativa de divulgar entre o público galego (e não só) a viola Caipira, publicaremos proximamente aqui no PGL uma entrevista com o violeiro João Paulo Amaral.
OBS: A frase do título desta reportagem escrito como o caipira fala, significa: “Nós vamos contar para vocês como é que a velha viola chegou às faculdades e os violeiros estão virando doutores”.
