Victorino Pérez Prieto: “Gostaria que o povo galego estivesse mais vencelhado a Portugal que a Espanha”



Victorino Pérez Prieto nasceu fora da Galiza chegando à nossa terra em criança. A sua instalação no galego está ligada ao sacerdócio e as suas missas, o que nem sempre era abençoado, eram na língua da Galiza. A sua passagem para o reintegracionismo gerou muitas alegrias e alguma mágoa.

foto de Christina

Victorino, nasceste em Castela-Leão e em criança foste morar num ambiente rural onde se falava galego, não sendo na escola, onde prevalecia o castelhano. Que lembras da tua infância linguística?

Nasci em Hospital de Orbigo, um povo na Maragateria, entre Astorga e León. Cheguei a Galiza no ano 1961 com sete anos. Pisei por primeira vez terra galega em Curtis, onde apanhamos o autocarro para Présaras, no concelho de Vilasantar. Lembro vivamente aquela viagem no bus da feira. Particularmente os cheiros da gente e mais dos animais e a língua, o galego fechado da zona de Sobrado, incompreensível para aquela criança leonesa.

Na escola escutava o galego dos companheiros e via que o mestre os reprimia por falarem na sua língua, que fui aprendendo da melhor maneira: escutando sem preconceito. Amava a aldeia, gostava daquela vida singela ligada à natureza; as fontes, as branhas…

O teu processo para te tornares galego-falante está vinculado ao bacharelato e, sobretudo, com a tua decisão de te tornares sacerdote.

Aos dez anos fui a Compostela para fazer o Bacharelato no seminário de Belvis. Ali vivi menos essa repressão do galego na escola; fui aprendendo-o mais, escutando os amigos fora das aulas e lendo os primeiros textos na nossa língua. Ao concluir, depois dum entusiasmante COU experimental, onde comecei a tomar gosto ao estudo, fui a Valladolid para estudar Arquitetura, onde o galego estivo totalmente ausente. Pero num verão, após uma profunda conversão religiosa, deixei esses estudos e entrei no Seminário de San Martinho Pinario, para fazer os estudos eclesiásticos de Filosofia e Teologia.

De novo em Compostela, mudou a minha perspetiva. Deixei a minha vida burguesa, e, no compromisso com a causa libertadora de Jesus de Nazaré e do Evangelho, cheguei à realidade da Galiza como um povo com uma língua e uma identidade própria. Compreendi que, se eu queria servir esse povo, tinha que defender a sua língua e a sua identidade e comprometer-me no seu desenvolvimento sociopolítico. Por isso, desde o começo tomei a decisão de falar sempre em galego, sobretudo em publico. Era uma postura fundamentalmente ética; e nela fui mais consequente e radical que mesmo os meus companheiros que falavam galego de nascimento. Esta postura alimentou-se com a leitura de Castelao, Otero Pedrayo e outros velhos galeguistas; e ao mesmo tempo com os meus contactos com o nacionalismo, sobretudo com os estudantes da ERGA.

Assim sendo, nas paróquias, usavas o galego nas missas. Como este facto era recebido pelos fregueses e pelos teus iguais no âmbito sacerdotal?

Esse compromisso com a Galiza, com o povo galego e com a sua língua foi medrando. e levou-me, com outros companheiros, a um compromisso muito forte numa praxe galeguizadora nas paróquias.

Um facto importante nesse compromisso, antes de ir trabalhar em paróquias, foi ao fazer a Licenciatura em Teologia na Universidade Pontifícia de Salamanca; ao concluir, figem a minha Tese sobre a dimensão religiosa dos homens da Geração Nos, e foi escrita em galego, cousa inédita em Salamanca; daria origem ao meu primeiro livro, que tive um importante sucesso: A xeración Nós. Galeguismo e relixión (Galaxia 1988).

Figem a minha Tese sobre a dimensão religiosa dos homens da Geração Nos, e foi escrita em galego, cousa inédita em Salamanca; daria origem ao meu primeiro livro, que tive um importante sucesso: A xeración Nós. Galeguismo e relixión (Galaxia 1988).

Ao voltar de Salamanca, ordenei-me, não em Compostela mas em Mondonhedo, pois tive problemas com o daquela arcebispo compostelano, Mons. Suquia, muito reacionário, e acolheu-me com os braços abertos Dom Miguel-Anjo Araújo. Ao voltar, Don Miguel queria mandar-me de professor ao seminário, mas eu pedi-lhe que me enviasse a umas paróquias humildes de aldeia, para aprender com a gente e servi-la, de acordo com o que eu vinha pensando há tempos. E mandou-me a umas comunidades de “Trás da Corda”, no concelho lucense da Pastoriça, a montanha de Aquilino Iglesia Alvarinho.

Nessas paroquias, a minha praxe litúrgica e pastoral desde o começo foi monolingue em galego, fora e dentro da igreja. Este facto, que poderia ser conflituoso pois tinha muitos fregueses conservadores, não foi tal porque ia acompanhado dum serviço totalmente gratuito à gente e um compromisso social e cultural: fazíamos atividades de formação e mesmo fizemos vários anos umas Xornadas de Formación Popular em Lagoa, onde vivia; até chegamos a fazer uma cooperativa que ainda existe hoje, O Caxigo.

A relação com a gente era muito boa, mas nem tanto a relação com os curas vizinhos. O problema era não só o galego na liturgia mas o facto de serem gratuitas as missas e os funerais, e eles não serem chamados, como era o habitual. Algumas entrevistas no jornal El Progreso e na Radio Popular naquela altura refletem isto.

Na hora de criar textos em galego, o português servia como referente? Em geral, que relação havia com a sociedade portuguesa e com o português nos movimentos cristãos mais galeguistas?

Nos começos não, os textos para a liturgia que fazíamos e as revistas em que publicávamos –o semanário Irimia, da qual fui doze anos diretor, e a revista bimensal Encrucillada– fazíamo-lo no galego normativo, como as colaborações que tinha noutras publicações como o semanário A Nosa Terra e outros, e diários como El Progreso.

Os textos para a liturgia começaram a fazer-se em galego-português com Martinho Montero Santalha, companheiro na diocese de Mondonhedo-Ferrol; foi uma opção que não muitos compreenderam, sobretudo pela dificuldade para ler que supunha para as pessoas. A relação dos cristãos galeguistas com o reitegracionismo era, em geral, escassa e tirante; alguns amigos temos debatido arduamente sobre isto em Encrucillada defendendo publicar textos em reintegrado e mesmo em português. No meu livro Galegos e cristiáns (Vigo 1995) falei de Martinho e do que chamei carinhosamente “O outro galeguismo cristián”: Isaac Alonso Estraviz (que já publicara nessa ortografia o livro dos Salmos e outros textos), Joam Trilho, Antom Gil Hernandez, Maria do Carmo Henriquez Salido, Joam José Santamaria, etc. Com eles começamos a relação com o português, ainda que eu já tivera relação com a Igreja portuguesa em encontros anos atrás.

Os textos para a liturgia começaram a fazer-se em galego-português com Martinho Montero Santalha, companheiro na diocese de Mondonhedo-Ferrol; foi uma opção que não muitos compreenderam, sobretudo pela dificuldade para ler que supunha para as pessoas.

Quando e por quê razão decides deixar de usar a ortografia do castelhano? Como foi recebido nas tuas redes sociais?

Ainda que desde há muitos anos defendesse os argumentos do galego reintegracionista ou galego internacional, como gosto mais de o chamar ultimamente, decidi começar a escrever assim há pouco tempo. A minha primeira publicação nele foi “O galego com nh e lh”, em Nós Diario (9, Setembro, 2020), que pode encontrar-se on line nesse Diario e no PGL. A decisão foi mais simples pelo facto de o fazer neste diário, que permite publicar nas diversas normas do galego. Como dizia nesse artigo, decidi-me a fazer a mudança da ortografia em castelhano para a ortografia em português por razões práticas, os meus contactos de há anos com colegas de Portugal e Brasil, e sobretudo razões socioculturais: a sobrevivência do galego dentro e fora da Galiza. O isolacionismo é a morte lenta do galego a mãos do castelhano, enquanto a união com o mundo lusófono é vida multiplicada para o galego, o futuro da nossa língua.

O isolacionismo é a morte lenta do galego a mãos do castelhano, enquanto a união com o mundo lusófono é vida multiplicada para o galego, o futuro da nossa língua.

A acolhida da minha decisão nas redes sociais foi incrível. Na sua maior parte foi muito favorável, com abundantes parabéns, mas também houve algumas duras criticas por parte de velhos amigos que não compreenderem a mudança. Houve comentários de gente relevante e de nomes desconhecidos como para fazer-me avermelhar: “Parabéns pola mudança, boa para ti, para a sociedade e para a língua”. “Hoje é um dia importante para a República das Letras”. “Umha decisom pública, madura e reflexiva que prova a tua liberdade de consciência”. “Daqui de Portugal, muitos parabéns! Bem-vindo ao universo galaico lusófono!”. Ora, também comentários e correios críticos como: “Admiro a túa capacidade para pensar e respecto que tomes unha decisión que eu considero errada verbo do vello idioma deste desnortado país que xa non sabe quen é”. “Decidiches abandonar o humilde arameo do pobo por un hebreo litúrxico de hipotético maior prestixio”. E algum muito duro: “Eu estaba entre as túas lectoras de ha anos e desde o xornal en papel Nós, lía sempre o que publicabas alí mentres almorzaba; mais desde que decidiches utilizar a ortografía ‘tranpitán’, boicoteando a norma que debe ir ratificada polo Goberno, doume de baixa como lectura túa”.

foto de Christina

Na tua opinião, por onde julgas que deveria transitar o reintegracionismo para avançar socialmente? Quais seriam as áreas mais importantes?

Penso que o reintegracionismo deve tentar chegar a todos os âmbitos sociais a respeito das outras opções linguísticas do galego, mas ao mesmo tempo, com decisão. No entanto, nomeadamente, deve poder chegar à escola e à universidade. A primeira, porque é dramaticamente o lugar onde as crianças, moços e moças são desgaleguizados e espanholizados, apesar de terem aulas de galego; penso que isto ocorre porque não encontram uma motivação para aprender a nossa língua, já que a consideram inútil, quando tem realmente uma projeção internacional quase semelhante ao do espanhol, e está presente em quatro continentes. A segunda, sobretudo nas faculdades de Filologia que devem trabalhar por assentar e cuidar a língua do país mas estando presente também com normalidade nas demais.

Mas também com publicações e escritos em reintegrado nos meios que aparecem nas diversas opções do galego escrito; penso no que estamos a fazer alguns em Nós Diario, com as facilidades que este meio oferece, mas também aproveitando a facilidade para aceder aos livros em português e, sobretudo, aos meios de comunicação em português, especialmente as televisões portuguesas que lhes podem abrir magnificas janelas ao mundo.

Por que motivo decidiste tornar-te sócio da Agal? O que esperas do trabalho da associação?

Tive a ocasião de fazer-me sócio da AGAL mesmo antes do primeiro grande evento desta associação a que fui convidado: a celebração dos seus 40 anos de existência. E não duvidei em partilhar a aposta de tantos grandes mestres e amigos, nomeadamente os que foram nomeados nessa ocasião como membros de honra: os velhos amigos Isaac Alonso Estraviz, Martinho Montero Santalha e José Luis Rodriguez. Estavam ali também outros amigos de ontem e de hoje como: Antonio Gil, Joaquim Campo Freire, Xavier Alcalá, Curra Figueroa, Elias Torres, Bernardo Penabade e Carme Cocinha, Eduardo Maragoto…

Participei também por primeira vez numa das suas assembleias, e vi a vitalidade da Associação em diversos âmbitos culturais e sociais. Aguardo sinceramente que esse grande trabalho dê os seus frutos para normalizar o galego na sociedade galega; um labor que considero mais importante que a sua normativização; pois sendo importante falar e escrever bem o galego, considero mais importante simplesmente o facto de falá-lo, de não deixá-lo morrer.

Em 2021 somamos 40 anos de oficialidade do galego. Como valorarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?

A oficialidade do galego foi um passo muito importante mas depois de uma geração com o galego oficializado, vemos que a nossa língua, em lugar de avançar, retrocedeu. Precisamente porque a aposta da oficialidade não foi tal, foi puramente litúrgica e de aparência. Foram dezenas de anos perdidos polos governos reacionários e antigalegos do PP, e uma sociedade muito pouco consciente do que está em jogo com a nossa língua. “Se perdemos a língua não seremos ninguém”, escreveu magnificamente o amigo e grande poeta Manuel Maria.

A oficialidade do galego foi um passo muito importante mas depois de uma geração com o galego oficializado, vemos que a nossa língua, em lugar de avançar, retrocedeu. Precisamente porque a aposta da oficialidade não foi tal, foi puramente litúrgica e de aparência.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050 na comunidade cristão galega e, em geral, na nossa sociedade?

Gostaria que a comunidade cristã galega chegasse a esse ano –que eu dificilmente verei– como uma Igreja realmente “galega”, desde a sua base até a sua cúspide hierárquica. Uma Igreja que viva, evangelize, ore e celebre em galego, na língua do povo singelo ao que diz querer servir de maneira libertadora como o fez o seu fundador, Jesus de Nazaré. Justamente… o contrario do que é na realidade atual.

E algo semelhante desejo para a sociedade galega em geral: um povo que ame e fale a sua língua, que defenda a sua identidade, e que lute pela sua independência e desenvolvimento social e político, mais vencelhado a Portugal que a Espanha.

Conhecendo Victorino Pérez Prieto

Um sítio web: O Portal Galego da Língua.

Um invento: A pluma (e posteriormente o computador…).

Uma música: A de Milladoiro.

Um livro: A Bíblia.

Um facto histórico: A revista “Nos”; con Risco, Otero e Castelao.

Um prato na mesa: Lubrigante grelhado e depois lacão assado.

Um desporto: Não pratico nenhum, salvo caminhar, nem gosto de os ver.

Um filme: “Jésus de Montréal”, de Dennys Arcand (1989).

Uma maravilha: A arte românica; em particular a igreja de Santa Maria de Mezonzo.

Além de galego/a: Sou uma pessoa universal; todos os homens e mulheres, com as suas identidades diferentes, são os meus irmãos.

Valentim Fagim

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