Uma canção de amor que transformou uma brasileira



A dona que eu am’e tenho por Senhor
amostrade-me-a Deus, se vos en prazer for,
se non dade-me-a morte

 

Passados mais de sete séculos, os versos acima, de Bernal de Bonaval, foram os responsáveis por uma carreira acadêmica expressiva e o despertar de um amor pela Galiza, sua gente e sua cultura, defendidos e divulgados com vigor expressivo por uma professora brasileira.

foto-thayane-gaspara-jorgeO Espaço Brasil conversou com a Thayane Gaspar Jorge que, além de professora da disciplina eletiva “Introdução à Cultura Galega e Língua Galega”, na graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, ela é professora de pandeireta e baile galego no grupo Sempre Alba, que também é um blog destinado à difusão da cultura galega, e ainda, participa do grupo Folcarioca – grupo de gaita e percussão galega coordenado pelo gaiteiro brasileiro William Monroy.

Suas atividades também ultrapassam fronteiras, chegando na Argentina, que acolheu um grande números de galegas e galegos, que imigraram, nos séculos XIX e XX. Por lá, Thayane Gaspar Jorge é professora colaboradora nas aulas de cultura galega na Federación Gallega de la República Argentina e integrante do grupo de baile  Estróupele, coordenado por Jimena Anemij, do grupo de canto Cantareirxs, com as professoras María Fernanda e Lorena Lores.

O amor pela Galiza, nascido de uma forma tão peculiar e as tantas atividades, acadêmicas e culturais galegas, despertaram grande curiosidade e interesse no Portal Galego da Língua. Pois, é sabido aqui, do distanciamento e falta de conhecimento dos brasileiros e, em partes, do próprio meio acadêmico, do rico universo cultural e social galego.

Convidamos a todas as leitores e leitores para conhecerem o trabalho e opiniões, nas respostas da professora Thayane Gaspar Jorge:

Você afirmou em outras entrevistas que não tem ascendentes galegos. Como começou seu interesse pela Galiza?

Eu tenho duas versões sobre como começou o meu interesse pela Galiza: uma é mágica e pessoal e a outra é a que eu relato nos eventos acadêmicos, vou me deter nesta última. Na escola, quando eu tinha 14 anos, estudei o Trovadorismo como primeiro tópico de introdução à literatura e me deparei com a cantiga de amor de Bernal de Bonaval “A dona que eu am’e tenho por senhor”.  Prepotente e pensando saber das coisas do mundo como qualquer adolescente, eu julguei aquela cantiga como o texto mais bonito de toda a literatura universal (que eu desconhecia completamente àquela altura). Copiei a cantiga do meu caderno e reli inúmeras vezes até memorizá-la e um dia recitei à minha irmã e disse que eu queria ter escrito aquele texto para ela. Eu desconhecia o contexto, fin’ amors, o código do amor cortês e a simulação por trás daquele sentimento, como vocês podem imaginar, mas ele traduzia meu amor pela minha irmã.

Quando eu tinha 14 anos, estudei o Trovadorismo como primeiro tópico de introdução à literatura e me deparei com a cantiga de amor de Bernal de Bonaval “A dona que eu am’e tenho por senhor”.  Prepotente e pensando saber das coisas do mundo como qualquer adolescente, eu julguei aquela cantiga como o texto mais bonito de toda a literatura universal.

Por causa dessa cantiga, decidi que iria fazer Letras quando completasse 18 anos porque ter contato com textos tão sensíveis e tão transformadores como aquele. No lapso de 4 anos aquele texto já não estava tão presente na minha vida e tampouco os planos de ser professora, logo fui cursar Jornalismo. Na metade da faculdade eu percebi que não havia lido nenhum texto que houvesse mudado quem eu era. Não me sentia capaz de abandonar o curso, mas decidi fazer Letras simultaneamente.
E lá vêm as coincidências (ou sincronicidades?) da vida: ingressei no segundo semestre, depois de uma longa greve, sem dispor de muito tempo para me inscrever em tantas matérias no horário regular e acabei por escolher uma turma de uma professora substituta, Luciana Salles (atualmente professora da UFRJ), e o primeiro texto que ela leu em sala foi a tal cantiga de Bernal de Bonaval.
Naquele momento a cantiga voltou a assombrar os meus pensamentos e no final da aula eu fui até a Luciana e perguntei: “O que você sabe sobre a Galiza?”. Ela me disse que havia um programa de galego na universidade e que poderia me levar até as coordenadoras durante o intervalo.
Fomos, bati na porta 11.131 e entrei para me apresentar e contar sobre a minha grande paixão por aquela cantiga de amor e me encontrei com mais um professor que mudou a minha vida: o leitor de galego Denis Vicente com quem trabalhei intensamente nos primeiros anos como voluntária, como bolsista de iniciação científica e bolsista de extensão. Bati naquela porta, em 2014 e, metaforicamente (e antes da pandemia até mesmo literalmente), nunca mais saí de lá.

Como é a atuação do Sempre Alba ?
O Sempre Alba foi uma ideia do meu ex-orientador, Henrique Samyn, para que eu levasse a cabo e elaboração de um projeto de divulgação de pesquisas e de eventos acadêmicos sobre o galego no Brasil, uma vez que certas informações e materiais não são tão acessíveis aos pesquisadores brasileiros.
Essa sugestão acabou ganhando vida no final do meu mestrado, em 2019, quando me vi fora da academia por um tempo e me senti excluída de eventos uma vez que não estava mais ligada à universidade.
O nome, como muitos podem imaginar, carrega um simbolismo que permeia todas as ações que fazemos através do grupo. Num primeiro momento, escolhi Sempre Alba para homenagear a porta pela qual eu entrei no universo galego: a literatura medieval. Como eu estava experenciando o fim de um ciclo, pensei que a alba, o momento de despedida dos amantes na poesia medieval, poderia virar, também, uma espécie de ponto de encontro.
Mas, de repente, a alba se tornou outra: a nossa alba era a Alba da Grória de Castelao, e a luta contra as “noites sin albas” dos versos de Celso Emilio Ferreiro. Hoje a nossa alba significa a nossa vontade e o nosso esforço para que o galego nunca mais viva uma noite de pedra e nem mesmo uma noite na qual não se anteveja um novo amanhecer. De volta à árdua rotina da vida acadêmica o blog foi perdendo força até que um antigo aluno, pesquisador e bolsista do Programa de Estudos Galegos da UERJ, Gabriel Kaizer, incorporou-se ao projeto criando uma gama de novos conteúdos e de engajamento nas redes sociais.
O projeto acabou se expandindo, como se tivesse vida própria, e percebemos uma grande lacuna também na parte cultural, essa parte desvinculada da academia.
Então no aniversário de um ano do Sempre Alba criamos o Grupo Sempre Alba, um grupo de foliada e folclore galego no qual eu ministro aulas de baile e pandeireta galega.
Em março eu era a única integrante do grupo, e agora em novembro já contamos com Rodrigo Otero (gaita), Raquel Torres (cantareira), Carla Rodríguez (conchas, pandeireta e baile), Marisol Michelle (pandeireta e baile), Beatriz Couto (baile) e Sandra Xavier (baile e pandeireta).
Planejamos oferecer obradoiros de baile, pandeireta, canto e gaita para todas as pessoas interessadas na música tradicional galega e continuar nos expandido através de projetos que gerem visibilidade à cultura galega no Rio de Janeiro.

Planejamos oferecer obradoiros de baile, pandeireta, canto e gaita para todas as pessoas interessadas na música tradicional galega e continuar nos expandido através de projetos que gerem visibilidade à cultura galega no Rio de Janeiro.

Em sua opinião, o Reintegracionismo galego está presente nas Universidades ou pelo menos na UERJ?

O Reintegracionismo ainda é um assunto de pouca expressão e presença nas universidades e ouso a dizer, também, que a própria Galiza ainda aparece timidamente nas nossas aulas sobre Trovadorismo e nas de Filologia Românica assim como nas matérias sobre a origem e história da Língua Portuguesa.
O que eu posso confessar é que nós, brasileiros, quando tomamos consciência deste movimento social e linguístico, sentimo-nos impelidos a participar do diálogo ainda que com uma postura bastante diferente da postura dos galegos e galegas.
Nossas feridas históricas da colonização portuguesa não sararam (será que um dia irão?) completamente para que nos sintamos confortáveis a participar de um movimento de “reintegração” com um país que subjugou o nosso por tanto tempo.
Ainda levamos na nossa língua a marca colonizadora e todos os preconceitos de sermos uma ex-colônia falando “mal, de forma corrompida, desajeitadamente” a “língua do império”.

Ainda levamos na nossa língua a marca colonizadora e todos os preconceitos de sermos uma ex-colônia falando “mal, de forma corrompida, desajeitadamente” a “língua do império”.

A relação histórica e origem comum entre Galiza e Portugal é indiscutível, mas, não pode ser equiparada à relação do Brasil com Portugal (nem a de antes e nem a de hoje). E há como respeitarmos esse nosso distanciamento e concomitantemente apoiarmos todo e qualquer movimento que devolva ao galego seu prestígio, sua dignidade, sua presença, sua normalidade e seu futuro.
Como não apoiar e estudar o reintegracionismo, se nós brasileiros também lutamos e desejamos o futuro da língua galega e das suas reparações históricas? Se também nos compreendemos dentro do espaço lusófono do qual inegavelmente o galego faz parte (seja por entendido como a mesma língua que português ou como uma língua irmã)?

Como não apoiar e estudar o reintegracionismo se nós brasileiros também lutamos e desejamos o futuro da língua galega e das suas reparações históricas?

Por isso, a importância dos leitores e dos centros de galego espalhados pelo Brasil: fazer com que esse tipo de debate chegue até o outro lado do Atlântico porque também deveríamos ser incluídos nessa pauta, como curiosos e aliados.

O reintegracionismo devolve ao galego a sua identidade como parte inseparável do tronco comum galaico-português?

Sou pesquisadora de galego há seis anos e sempre me esquivei das perguntas sobre língua apesar de que dentro de todo o conhecimento que adquiri sobre a Galiza ao longo da minha trajetória, esse sempre foi o ponto mais sensível e o mais urgente.
Mas, nunca me senti capaz ou à altura para analisar essa questão. Ao mesmo tempo eu me questiono como falar da Galiza (ainda que nos espaços sobre literatura e cultura) sem falarmos de língua?
Agustín Fernández Paz já nos alertava que qualquer aproximação à literatura galega deveria levar em conta o contexto linguístico (e social) na qual essa expressão cultural se desenvolveu.
A língua é um ponto nevrálgico da construção da nossa identidade e ainda que eu tenha uma paixão enorme pela Galiza e pelo galego, essa pergunta não cabe a mim. As galegas e os galegos precisam se sentir – pela primeira vez na sua história de repressão, submissão e apagamento – a autonomia para decidirem o seu futuro (e garantir a existência de um), sem respaldos, por direito legítimo, por existirem e resistirem.

As galegas e os galegos precisam se sentir – pela primeira vez na sua história de repressão, submissão e apagamento – a autonomia para decidirem o seu futuro (e garantir a existência de um), sem respaldos, por direito legítimo, por existirem e resistirem.

Há uma metáfora, que eu usarei de forma um pouco descontextualizada e subjetiva, que ouvi numa das brilhantes palestras do professor Xoán Lagares (professor do Núcleo de Estudos Galegos da UFF coordenado por Fernando Ozório): “o galego perdeu dois trens na sua história” no que diz respeito à institucionalização e gramaticalização da sua língua. Essa metáfora poética e ajeitada é por onde eu enxergo esse tronco que foi partido: um trem que também partiu. E eu não sei se vale a pena correr atrás dele. Não está na hora da Galiza ser maquinista do seu próprio trem?

Como você analisa os ataques que o galego e demais línguas da Espanha estão sofrendo atualmente?

Reflexos do pensamento fascista e retrógrado. Discurso de pessoas com a imaginação pueril que sonham com a existência de uma Espanha uma como Franco um dia delirou sobre. Há séculos, nega-se a fragmentação e diversidade linguística e cultural espanhola pelo medo do país ruir. Contudo, esquecem-se de que esse país tem como pilares as línguas, culturas e episódios das comunidades histórias que estão sendo sufocadas neste momento. Talvez seja uma questão de ego, porque não se teme o mais fraco. Não perderiam tanto fôlego e energia se essas línguas minorizadas não fossem extremamente fortes, aí está o paradoxo. A força do golpe é o reflexo e a equivalência do tamanho e do perigo da ameaça.

Conheça a Professora Thayane Gaspar Jorge

Thayane Gaspar Jorge, 28 anos, Rio de Janeiro – RJ, Brasil.
Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo (Universidade Castelo Branco, 2014), bacharel e licenciada em Letras: Português/Literaturas (Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2016), mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada (Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2019)  com a dissertação “Galícia, nai e señora? Celtismo e masculinização do nacionalismo galego em Na noite estrelecida”. Atualmente é doutoranda em Ciência da Literatura (Universidade Federal do Rio de Janeiro, atual) com a tese intitulada “A velha: o redirecionamento do discurso nacionalista para crianças” orientada por Luciana Villa Bôas e com coorientação de Montse Pena Presas da Universidade Santiago de Compostela.

Atualmente ministra, como professora convidada, as disciplinas eletivas de Introdução à Cultura Galega e Língua Galega na graduação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e organiza e faz a mediação dos eventos mensais no Programa de Estudos Galegos, assim como também administra e cria conteúdo para as redes sociais do programa.
Também é formada nos níveis médio e avançado do curso de verão de língua galega para estrangeiros, Galego Sen Fronteiras (2015 e 2016). Tem publicado textos acadêmicos e literários sobre língua, cultura e literatura galega no Brasil e no exterior, como No medio do camiñotiña unha flor na revista espanhola Madrygal (2019), O sol poente; suicídio, memória e saudades em Carlos Casares no livro Suicídio; entre o morrer e o viver (2018) da Edições IFEN, O último depois da chuva (2018) poema publicado na revista galega Revirada Feminista, Processo de reitegracionismo galego; uma tentativa de (re)contato linguístico com a língua e a cultura portuguesa no livro Línguas e culturas; contatos, conflitos, nomadismos (2018) publicado pela editora Universidade Federal do Rio de Janeiro, A poesia do olhar medieval no livro Galícia do outro lado do Atlântico (2018) pela editora Ponte Atlântica e de “Nordeste de Daniel Asorey; entrevista e resenha” na Revista Matraga (2017).
Ademais é fundadora e administradora do blog Sempre Alba, blog destinado à difusão da cultura galega no Rio de Janeiro, é professora de pandeireta e baile galego no grupo Sempre Alba.

Contatos e informações
Blog Sempre Alba
Facebook – Sempre Alba
Facebook – Programa de Estudos Galegos UERJ
Canal do YouTube do Programa de Estudos Galegos UERJ
Instagram @thayanegaspar

José Carlos da Silva

Desde 2008, José Carlos da Silva é correspondente do PGL no Brasil. Residente em Campinas (São Paulo), é produtor cultural e periodista. Como produtor cultural trabalha pela difusão da cultura caipira, que tem na viola de 10 cordas, sua maior expressão.

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  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Bem interessante a entrevista. Delicia.
    Maravilha que a gaita volte a Brasil via Galiza.
    Quando Cabral desembarcou no Brasil levavam consigo as gaitas de foles, a gaita galega. Como diz Lilia Moritz essa grande historiadora cultural nos seus maravilhosos. A Biblioteca dos Reis e a Barba do Imperador, a gaita era o mais popular dos instrumentos no Brasil, e todo fazenderio se preocupava por ter escravos que a tocarem.
    Diz Moritz a gaita e o entrudo (substituido pelo carnaval) foram banidos do imaginário brasileiro como se esse facto fosse um fator de modernização

  • Ernesto Vazquez Souza

    Bem interessante entrevista.

    Quantas cousas aí, que fotografam a política cultural, a mensagem de fundo, a propaganda, e as campanhas do mundo institucional galego, por décadas, no Brasil…

  • Diego Bernal

    Que orgulho ler esta entrevista. Parabéns Thayane!