Trovante, grupo musical vanguardista e popular de Portugal



trovante-foto-por-sapoDentro da mini-série que estou a dedicar a pessoas coletivas lusófonas, e, nomeadamente a grupos musicais da Galiza e de Portugal, é obrigado não nos esquecer de um grupo português que nasceu em Lisboa num contexto muito interessante, dous anos depois de ter-se produzido a importante Revolução dos Cravos, num momento muito efervescente e de grandes reivindicações políticas e sociais e também culturais e musicais. Estou a referir-me ao grupo Trovante, criado por um grupo de amigos amantes da música, que intentaram sintetizar as novas músicas e cantos com as músicas e canções do folclore popular e tradicional, o que conseguiram com grande sucesso, tanto, que mesmo presidentes portugueses como Mário Soares e Jorge Sampaio foram seus seguidores e foram a alguns dos seus concertos. É este o número 59 da série de artigos dedicada à Lusofonia.

UNS POUCOS DADOS SOBRE O GRUPO TROVANTE

De forma sintética apresento uns pequenos dados biográficos do grupo Trovante. No verão de 1976, em Sagres, cinco amigos ligados pela militância política e pelo gosto pela música formam o grupo Trovante. Luís Represas na voz, o seu irmão João Nuno Represas nas percussões, João Gil na guitarra, Manuel Faria nos teclados e Artur Costa no saxofone deram início a uma longa aventura.
O seu primeiro disco, Chão Nosso (1977) é marcado pelo conteúdo militante das letras de Francisco Viana e pela colagem ao tipo de música de raiz etnográfica, que estava na moda na época. O mesmo acontece com Em Nome da Vida (1978), álbum que surge no contexto da luta política contra a bomba de neutrões. Em 1979 gravam o single Toca a Reunir, que conta, episodicamente, com a voz de Né Ladeiras, então em início de carreira. Em Nome da Vida é um trabalho muito mais rico que o LP anterior, e anuncia já a densidade musical que explodiria em Baile no Bosque (1981). Com este disco, já sob a inteira direção do grupo, contando com a presença de Fernando Júdice (que passa nesse ano a fazer parte do grupo, tal como José Martins), e numa nova editora, desligados em grande parte da atividade política, os Trovante vão conseguir um grande sucesso junto do público, das rádios e dos críticos. A frescura do trabalho, que funde diversos géneros musicais numa síntese inovadora e festiva, onde se destacava o tema Balada das Sete Saias, veio equacionar os dados da música da época, em plena euforia do rock português.

No verão de 1976, em Sagres, cinco amigos ligados pela militância política e pelo gosto pela música formam o grupo Trovante. Luís Represas na voz, o seu irmão João Nuno Represas nas percussões, João Gil na guitarra, Manuel Faria nos teclados e Artur Costa no saxofone deram início a uma longa aventura.

Baile no Bosque vem demonstrar, ainda, que o grupo tinha aproveitado com grande utilidade os anos de experiência adquirida com os maiores nomes da música portuguesa: Zeca Afonso, Vitorino, Fausto, Sérgio Godinho. Em 1983 é editado o sempre difícil álbum a seguir ao primeiro grande êxito. Cais das Colinas não tem, é certo, o mesmo sucesso do anterior, mas ainda assim causará impacto. trovante-capa-disco-baile-no-bosqueNele, salienta-se Saudade, um tema de João Gil, que começa a ter um crescente papel de compositor. Do grupo passa a fazer parte o baterista José Salgueiro, substituindo João Nuno Represas. Luís Represas, Gil, Faria, Costa, Júdice, Salgueiro e Martins serão a formação definitiva dos Trovante.
No ano seguinte sai, com grande sucesso, Trovante 84, do qual se destacam temas que ficam na história do grupo, como Xácara das Bruxas Dançando, Travessa do Poço dos Negros e o popularíssimo Molinera. Nesse ano o Coliseu de Lisboa é testemunha de dous memoráveis espetáculos, com lotações esgotadas, depois seguiria o Rivoli do Porto. Sepes, de 1986, é considerado o mais difícil e introspetivo trabalho do grupo. Ainda assim, dele sairá Fizeram os Dias Assim, mais um dos seus muitos hinos cantáveis. Em 1986, foram escolhidos para encerrar a festa do Avante, tendo tocado para mais de 100.000 pessoas, espetáculo que, para além da música, oferecia uma “espetacular performance de lasers”, uma novidade, à época.
Foram dos primeiros grupos musicais a reservar o Coliseu de Lisboa durante três dias seguidos (todos esgotados). A um dos concertos no Coliseu dos Recreios foi o então presidente da República, Mário Soares. No 10º aniversário do grupo voltaram a encher os Coliseus de Lisboa e do Porto, em cinco triunfais noites de maio. Em 1987 editam Terra Firme, de sonoridade marcadamente mais pop e urbana. Dele notabilizaram-se 125 Azul, Perdidamente (com letra de Florbela Espanca) e “Bye-Bye Blackout”. É muito bem acolhido pela crítica e obtém um disco de ouro. Culminando uma digressão nacional de grande sucesso, dão o grande concerto do Campo Pequeno, para uma plateia de oito mil pessoas, que é registado em vídeo e dá origem ao duplo-álbum Trovante ao Vivo no Campo Pequeno (1988) e atinge o disco de platina. Um Destes Dias…(1990) o último trabalho de originais, consolida a linha de ferro Firme. Destacam-se as canções Timor, Objetos Perdidos e Baltazarblimunda.
No ano seguinte confirma-se a cisão do grupo. João Gil e Artur Costa vão criar os Moby Dick, enquanto os restantes elementos (exceto José Martins, que já tinha deixado o grupo em 1988) tentam a continuidade. Mas rapidamente percebem que o projeto deixou de fazer sentido. Em 1999 os Trovante voltam a se juntar para um único e memorável espetáculo, no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, a convite do Presidente da República Jorge Sampaio. Deste concerto resulta Uma Noite Só, o último registo e ao mesmo tempo uma síntese de uma década e meia de carreira. trovante-foto-antiga-0
O dia 12 de maio de 1999, nas comemorações dos 25 anos da Revolução de Abril de 1974, o Presidente da República, que na altura era Sampaio, convidou os Trovante para se reunirem para um espetáculo, realizado no Parque das Nações, que foi gravado num disco duplo, num DVD e numa emissão televisiva.
Pela segunda vez desde a separação, atuaram juntos o dia 12 de outubro de 2006, no Campo Pequeno, em Lisboa, a convite do Montepio Geral. Este espetáculo foi registado em DVD mas não foi lançado comercialmente. O dia 22 de maio de 2010, na segunda jornada da edição desse ano do Rock In Rio Lisboa destinado à comemoração dos 25 anos deste festival, o grupo atuou no Palco Mundo. Ainda antes do concerto, João Gil não descartou a possibilidade de se voltarem a reunir no futuro. A 3 de setembro de 2011 juntaram-se de novo, na 35ª Festa do Avante, para a comemoração dos 35 anos da sua fundação, e atuaram no Palco 25 de Abril.
Em 2011, na comemoração do 10º aniversário, o Multiusos de Guimarães recebeu os Trovante para um concerto que também assinalou os 35 anos do grupo português. Reunindo os oito músicos que ao longo dos anos passaram pelos Trovante, no concerto do Multiusos de Guimarães foram recordadas canções que fazem parte da memória musical portuguesa. “Perdidamente”, “Saudade”, “125 Azul”, “Fizeram Os Dias Assim”, “Travessa do Poço dos Negros”, “Xácara das Bruxas Dançando”, “Balada das Sete Saias” e “Timor” foram alguns dos êxitos que fizeram vibrar os mais de três mil espetadores que marcaram presença no concerto realizado no dia 12 de novembro.
Nas cerca de duas horas de espetáculo, Luís Represas, João Gil, Manuel Faria, João Nuno Represas, Artur Costa, Fernando Júdice, José Salgueiro e José Martins percorreram vários sucessos dos oito álbuns de originais que lançaram desde 1976 e que figuram entre os discos mais vendidos de sempre da música portuguesa. Depois dos Madredeus, Carlos do Carmo, André Sardet, Jorge Palma, GNR+GNR, Rui Veloso e de vários seminários e congressos assinalarem o aniversário do Multiusos, foi esta vez do grupo Trovante atuar em Guimarães para comemorar simultaneamente o 10º aniversário do Multiusos e o 35º do grupo. Este concerto comemorativo foi produzido pela AudioVeloso.
Nota: Uma muito ampla entrevista realizada a João Gil, um dos fundadores, realmente interessante, por fornecer numerosos dados e informações sobre o Trovante, pode ser consultada aqui.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

0.-Trovante: 15 anos de música.
Duração: 95 minutos. Ano 2018.

1.-Saudade, por Trovante.
Duração: 5 minutos. Ano 2012.

2.-Perdidamente, por Trovante: Ao vivo no Campo Pequeno, 1988.
Duração: 5 minutos. Ano 2012.

3.-Balada das sete saias, outra margem e prima da chula, por Trovante.
Duração: 10 minutos. Ano 2019.

4.-Sinais, do disco Terra Firme de Trovante.
Duração: 5 minutos. Ano 2012.

5.-Xácara das bruxas dançando, por Trovante.
Duração: 5 minutos. Ano 2011.

6.-Lisboa, por Trovante.
Duração: 3 minutos. Ano 2011.

7.-Trovante no Coliseu de Lisboa em 1991.
Duração: 5 minutos. Ano 2011.

8.-Perdidamente de Florbela Espanca, por Trovante.
Duração: 5 minutos. Ano 2009.

9.-Ser poeta de Florbela Espanca, por Trovante.
Duração: 5 minutos. Ano 2009.

10.-“Bye-bye blackout” do disco Terra Firme, por Trovante.
Duração: 4 minutos. Ano 2012.

11.-Noite de Verão, por Trovante.
Duração: 4 minutos. Ano 2012.

DISCOGRAFIA BÁSICA DO GRUPO

A listagem de discos que chegou a editar o grupo é a seguinte:
a.-Discos (álbuns)
– Chão Nosso (1977).
– Em Nome da Vida (1979).trovante-capa-disco-saudade
– Baile no Bosque (1981).
– Cais das Colinas (1983).
– 84 (1984).
– Sepes (1986).
– Terra Firme (1987).
– Ao Vivo no Campo Pequeno (1988).
– Um Destes Dias (1990).

b.-CDs
– Saudades do Futuro: O melhor dos Trovante (1991).
– Uma Noite só (1999).
– Aula Magna 1983 (2003).

c.-Discos simples
– Nuvem Negra (1978).trovante-capa-disco-uma-noite-so
– Toca A Reunir / Não Há Três Sem Dois (1979).
– Balada das Sete Saias / Companha (1981).
– Saudade / Oração (1983).
– Baila no Meu Coração / Namoro (ao vivo) (1983)
– Bye Bye Blackout / Perdidamente (1988).
– Timor (1999).

d.-Compilações (antologias)
– Saudade – Coleção Caravela (1997).
– 125 Azul – Coleção Caravelas (2004).
– Perdidamente – Coleção Caravelas (2004).

LETRA DA “BALADA DAS SETE SAIAS”

Sete ondas se noivaram
Ao luar de sete praiastrovante-foto-por-discogs
Sete punhais se afiaram
Menina das sete saias.
Sete estrelas se apagaram
Sete-que-pena chorai-as
Sete segredos contaram
Menina das sete saias.
Sete bocas se calaram
Com sete beijos beijá-las
Sete mortes evitaram
Menina das sete saias.
Sete bruxas se encontraram
No monte das sete olaias
Sete vassouras motaram
Menina das sete saias.
Sete faunos contrataram
Sete cornos e zagaias
Aos sete encomendaram
Menina das sete saias.
Sete princesas toparam
Com mais sete lindas aias
Por sete e…

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Visionamos os documentários referidos antes, e depois desenvolvemos um cinemafórum, para analisar o fundo (mensagem) destes, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada ao grupo Trovante de Portugal. Nela, além de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros, discos, CDs e monografias.
Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino uma audição musical das mais famosas peças do grupo, em que participem alunos e docentes. A escolha das peças musicais e de cantares da audição podemos fazê-la dos seguintes discos: Baile no Bosque (1981), Saudades do Futuro (o melhor dos Trovante, 1991), Saudade (1997) e Perdidamente (2004).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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