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Tiago Peres: «O reintegracionismo deveria dar um passo na direção de deixar de negar a validez do discurso oficialista»

PGL – Santiago Peres, ourensano, passou por Meendinho, pola Gralha, polo independentismo, tem confiança na geração de 70 (por sinal, a sua) e é um firme partidário da sociabilização do discurso reintegracionista por diferentes vias.

PGL: Tiago Peres nasceu em Ourense. A sua língua inicial foi o castelhano. Quando e como foi a passagem para o galego?

Tiago Peres: A minha passagem para o galego foi processual, comecei a simpatizar polo nacionalismo aos 15/16 anos. Era a década de noventa, num momento em que o BNG estava em crescimento e as pessoas da nossa geração víamo-lo com simpatia. Foi nessa altura quando comecei a falar galego com determinadas pessoas do liceu, as quais também começavam a ter ideias nacionalistas, nomeadamente independentistas. Mas a passagem a ser monolingue em galego não a fizem até os 18. No meu caso foi um bocado difícil, ao vir dum âmbito tanto familiar como do bairro onde a presença do galego era quase episódica.

PGL: Em que medida a tua experiência política, em AMI e NÓS-UP, foi fulcral na tomada de posições reintegracionistas?

TP: Eu diria que antes bem aconteceu ao contrário. Para muitas pessoas da minha geração, a tomada de posições reintegracionistas foi fulcral para a posterior participação em projetos políticos como AMI ou NÓS-UP. Por outra banda, acho que essa é uma das melhores maneiras de chegar ao independentismo. Nesse sentido, estou a lembrar umas palavras de Jenaro Marinhas em que entendia o reintegracionismo como o verdadeiro “nacionalismo integral”. O reintegracionismo apesar de não ser propriamente uma ideologia nacionalista, na minha opinião tem um conteúdo nacionalizador muito forte ao qual o independentismo não deve renunciar.

 

PGL: Uma das experiências mais nutritivas foi a do periódico A Gralha. Como surgiu o projeto e quais os objetivos marcados?

TP: Quando cheguei ao Grupo Meendinho, A Gralha já se editava. A ideia da sua criação fora a mesma que impulsionara os Grupos Reintegracionistas de Base, quer dizer, difundir as teses reintegracionistas entre sectores sociais cada vez mais amplos fugindo do intelectualismo. A Gralha pretendia ser o vozeiro do reintegracionismo, mas com o tempo, e devido à dinâmica política da altura (fundação da AMI, MDL, EI, etc.) o que era uma folha fotocopiada, passou posteriormente a ser uma publicação bimensal que dava cabimento a todo um movimento social que estava a surgir em torno da esquerda independentista.

Para nós esse trânsito foi algo natural e também produto de vários factores: o bom acolhimento do material editado para a venda, o aumento no número de assinantes e o apoio individual de algumas pessoas. Acho que a chave do seu sucesso foi a pluralidade dentro do grupo. Isto possibilitava o surgimento de ideias muito originais. Estou a lembrar o número dedicado ao circo normativo, o retrato do guerrilheiro urbano ou o [autocolante] GZ.

PGL: Fizeste um trabalho importante no local social A Esmorga. Qual a tua visão dos locais sociais que surgiram por todo o país?

TP: O surgimento nos últimos anos dos centros sociais é um dos factos mais interessantes que tenhem acontecido dentro do nacionalismo galego. Ainda é cedo para valorizar mas é obrigado lembrar que a finais da década de sessenta o nacionalismo galego já favorecera a criação de toda uma série de associações culturais com o objetivo de difundir a língua e cultura galegas. Esta experiência de socialização junto com outros factores conseguira criar uma base social em torno desse novo nacionalismo.

Este fora também o objetivo da criação dos centros sociais, quer dizer, a de não começarmos a construir a casa polo telhado. Neste caso nascem dum ideo-sistema político diferente. Após o fracasso da experiência unitária de NÓS-UP, a maior parte dos militantes que saíram focalizaram os seus esforços em impulsionar a criação destes centros sociais por todo o país. Foi assim como nasceu A Esmorga, o Revira, A Revolta, etc.

Respondem à filosofia de em lugar de reivindicar a sociedade que queremos, a melhor opção é começarmos por construí-la na base. O melhor de tudo é olharmos como esta ideia foi recolhida por pessoas de diferentes trajetórias e ideologias dando origem na atualidade a toda uma rede de locais sociais cada vez mais ampla e plural.

 

PGL: Em tua opinião, quais as melhores táticas para levar o reintegracionismo da margem para o centro social?

TP: São muitas as cousas que se podem fazer. Acho que as últimas notícias sobre o reintegracionismo vão polo bom caminho. A criação da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGPLP) foi um sucesso tático muito bom. O trabalho que está a fazer assim como o protocolo assinado entre ela e a empresa Priberam é um dos caminhos a seguir.

Conseguir que se receba a televisão portuguesa na Galiza assim como o ensino de português no sistema educativo ao igual que está a acontecer na Extremadura e proximamente na Andaluzia, seria um sucesso sem precedentes.

Também aprofundar nos argumentos da utilidade da língua e as relações de todo o tipo com a comunidade luso-brasileira (assinatura de protocolos de colaboração, realização de congressos, atividades conjuntas). Uma ideia muito boa fora a realização do Galiza em trânsito, em que se faziam atividades culturais sobre a língua e culturas galegas em locais como o Maus Hábitos do Porto.

Com respeito ao oficialismo, acho que o reintegracionismo deveria dar um passo na direção de deixar de negar a validez do seu discurso.

PGL: Tu conheces a AGAL desde há tempo, como descreverias a sua evolução?

TP: Bom, o meu relacionamento com a AGAL sempre foi desde fora, compartilhando militância com pessoas que também pertenciam à AGAL. Acho que há um antes e um depois da eleição do novo Conselho. Já que é uma nova geração nascida na década de 70 quem está a levar hoje em dia a organização.

Neste sentido, acho que AGAL passou de ser um referente no âmbito filológico e intelectual a focalizar mais os seus esforços nesta última etapa na socialização do reintegracionismo. Um bom exemplo disso foi a criação do Portal Galego da Língua. Mas com isto não estou a desmerecer o trabalho feito com anterioridade. Não há uma organização dentro da Galiza com uma profundidade teórica tão elaborada como a AGAL.

 

PGL: Por que te associaste e que esperas da nossa associação?

TP: Suponho que no meu caso é por uma questão geracional. Tenho amizade com algumas das pessoas que estão a dirigir a organização e confio nelas para levar avante o reintegracionismo. Espero da AGAL algo que com certeza já está a conseguir: ter deixado de lado a batalha entre padrão e norma AGAL e centrar-se em abrir novos espaços para a estratégia luso-brasileira.

 

CONHECENDO TIAGO PERES

  • Um sítio web: Chuza!
  • Um invento: Internet
  • Uma música: The Velvet Underground
  • Um livro: O livro do desassossego, de Pessoa
  • Um facto histórico: A revolução dos cravos
  • Um prato na mesa: Polvo
  • Um desporto: para praticar Básquete
  • Um filme: A Noite do Caçador
  • Uma maravilha: O Pártenon
  • Além de galego: mais nada

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