Teresa Moure: “A linguística, como todas as ciências, adotou um perfil burguês, ocidental, branco e patriarcal”



teresaostraciaO livro tem como subtítulo A perspetiva de género nas ideias sobre a linguagem. Deve entender-se que estás a renunciar à etiqueta de linguística feminista?
Em absoluto. Nunca se investiga sem ideologia e eu adoto explicitamente esse ponto de vista. No entanto, pretendo chegar a um público amplo. O livro pode ser lido tanto por feministas que não saibam da Linguística quanto por linguistas homens, que não se sentam excessivamente interpelados pelo feminismo. O meu objetivo, para além de tirar à luz uma exclusão, orienta-se a persuadir este segundo público de que a perspetiva de género é uma das correções necessárias hoje. A linguística, como todas as ciências, adotou um perfil burguês, ocidental, branco e patriarcal. Isso explica, em simultâneo, que os grandes vultos sejam todos europeus ou americanos, que tenham investigado em universidades prestigiosas e publicado em línguas bem instaladas. De alguma maneira, estou tentando conjugar uma linguística que revitalize o subalterno.

Como é que surgiu este livro?
capa-linguistica-escreve-se-com-aNo curso 2019-20, após o aposentamento de um companheiro, passei a ocupar-me na USC da matéria Panorâmica das ideias linguísticas, de corte histórico. Só nesse momento fui consciente de que os manuais de história da Linguística em pleno século XXI não citavam nenhum nome de mulher. Estávamos ausentes. A USC tem-me convidado muitas vezes a dar cursos onde ajudo a introduzir a perspetiva de género na docência universitária nos mais diversos perfis do conhecimento: na medicina, na arquitetura, nas artes ou nas engenharias. É sabido que as instituições estão muito preocupadas com que as mulheres se inscrevam nas disciplinas STEM – acrónimo para ciências duras, tecnologias, engenharias e matemática –; assume-se como desnecessário animar as raparigas a estudar humanidades porque elas sempre o fizeram. Então, como é que não temos famosas linguistas? O acesso das mulheres à universidade é tardio em toda a parte: começa na década de 1880 na Suíça e nos trinta anos seguintes consegue-se na maioria dos países da Europa e em Norte-América. Mas a Linguística nasce depois, em 1917. Portanto, a ausência de mulheres entre os grandes vultos é inexplicável. Na realidade, sempre existiram mulheres dedicadas ao estudo das línguas. Nebrija, o primeiro gramático do espanhol, por exemplo, foi sucedido na sua cátedra pela filha, Francisca. Essa mulher, que ditava aulas na Universidade de Alcalá de Henares, ou a sua contemporânea, Luisa Medrano, em Salamanca, foram protagonistas de uma rara proeza: trabalhavam em instituições que não as teriam admitido como alunas. Nem sequer com esta peculiaridade entram depois nos livros que constroem a história da disciplina. A minha hipótese contempla que as mulheres teriam sido banidas, apagadas ou silenciadas. Eu queria saber as causas e os culpáveis desse ocultamento.

A minha hipótese contempla que as mulheres teriam sido banidas, apagadas ou silenciadas. Eu queria saber as causas e os culpáveis desse ocultamento.

Ao longo de mais de trezentas páginas, revisas criptógrafas, tradutoras, primatologistas, sociolinguistas, antropólogas ou filósofas da linguagem. O que achas que têm todas elas em comum?
Apesar de abordarem temáticas tão diferentes, em diversas épocas e escolas, todas as autoras contempladas dedicam-se às margens da Linguística. Nunca aparecem peritas em Gramática ou em Fonologia; mas cultivadoras desse tipo de assuntos que passam décadas a serem chamados “novos”. Acho que as mulheres, como agentes secundarizados, desenvolvem alguma preferência por temas periféricos que depois são historizados como pouco relevantes. De alguma maneira, elas arrastariam o seu próprio desprestígio aos campos que cultivam. Afinal, os grandes dispositivos de poder decidirão que os contributos delas não podem ser completamente aceites (que a linguagem inclusiva é uma moda ou que a hipótese de relativismo linguístico é precisamente uma hipótese, não uma teoria). Aliás, todas elas partilham o traço de introduzirem novos procedimentos: as primatologistas tratam os animais como seres humanos, rompendo os protocolos habituais nos laboratórios, as antropólogas renovam a agenda misturando nos seus cadernos de campo o público e o privado. Todas estão a praticar um modelo de investigação menos rígido.

Acho que as mulheres, como agentes secundarizados, desenvolvem alguma preferência por temas periféricos que depois são historizados como pouco relevantes. De alguma maneira, elas arrastariam o seu próprio desprestígio aos campos que cultivam.

Dedicas a tua atenção à tradição linguística em geral. Existe uma via galega para esta investigação?
Tenho algumas alunas a explorar essa linha, com o interesse de revalorizarem o papel das mulheres das Irmandades da Fala, por exemplo, e um grupo de estudantes estão a desenvolver, sob a minha direção, um videojogo, Elba is able, sobre criptógrafas num universo pandémico. A avó da protagonista, Elba, deixa à sua morte toda uma série de enigmas para resolver o futuro, que devem desencriptar-se através de provas linguísticas. Como a avó de Elba estava vinculada a tarefas de espionagem, tivera contacto com outras agentes de diversos países e escreve a Elba em galego internacional.

Estudar a história da Linguística com perspetiva de género obriga a revisar os seus protagonistas e também a combater a ideia de génio e a revigorar os coletivos anónimos, que estão envolvidos nas questões mais dinâmicas, com um modo de atuação democrático e plural, um bocadinho mais alheio às estruturas de poder.

No livro insistes em que não pretendes fazer um catálogo alternativo de mulheres, uma espécie de santoral, mas explicar os contributos delas como exemplos de opressão e de ocultação. No entanto, poderias contar-nos se encontraste algum caso de sexismo claro?
O sexismo é continuado. Nos manuais de Linguística nunca aparecem para eles dados biográficos. Não sabemos se Saussure ou Hjelmslev eram ricos ou pobres, se eram homossexuais ou com quem se casaram; para eles basta a sua obra. Esse apego aos textos desaparece quando falamos delas. A bibliografia especializada apaga os seus nomes e os repositórios mais recentes ou os buscadores da Internet teimam em proporcionar dados biográficos, como “foi filha de”, “casou-se com”, sem detalharem as suas investigações. De alguma só se comenta que foi homenageada como “mãe do ano” porque teve 11 filhos e filhas. O caso mais repulsivo é o do linguista Sapir. Ainda que fez parte de um grupo com notável presença feminina, a escola antropológica de Boas, ficou com todo o legado: falamos habitualmente da hipótese de Sapir-Whorf. Acho que esse nome para a relatividade linguística é injusto. Para além disso, Sapir era um misógino que encheu de obstáculos a carreira de várias linguistas ou dificultou a sua promoção. Dito de maneira mais contundente, dedicou insultos furibundos (“prostituta malcheirosa”) à famosa antropóloga Margaret Mead depois de ter um caso amoroso com ela e desacreditou-a por escrito continuamente. Estudar a história da Linguística com perspetiva de género obriga a revisar os seus protagonistas e também a combater a ideia de génio e a revigorar os coletivos anónimos, que estão envolvidos nas questões mais dinâmicas, com um modo de atuação democrático e plural, um bocadinho mais alheio às estruturas de poder.


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