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Teresa Crisanta Pillado: “Imagino uma recuperação do idioma graças às crianças. Gostaria, mas penso que realmente é possível”

rita-crisanta-pilladoTeresa Crisanta é de Ponte Vedra, uma boa cidade para mudar de cidade, e acha que há línguas melhores do que outras. Não tem assim muito apego pola faculdade de Filologia onde passa 12 horas cada dia e quer enveredar pela tradução semiótica interartística. Acha uma verdade o galego ser internacional e que a chave táctica são as crianças.

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Teresa Crisanta nasceu em Ponte Vedra e a sua língua materna é o castelhano. É uma boa cidade para mudar de língua?

Ponte Vedra é apenas uma boa cidade para mudar de cidade. É um lugar profundamente espanhol e conservador, com praça de touros e apresentações em sociedade. Tenho constantes problemas linguísticos quando vou. Não gostaria de que as minhas crianças fossem educadas lá.

Atualmente estudas e resides em Compostela. Quando surgiu o momento de te tornares galego-falante? Como foi o processo?

Bom, foi um processo intermitente já que a primeira tentativa foi em Ponte Vedra, no liceu. Durante muito tempo achei que não o conseguira daquela porque não tinha a suficiente vontade, mas agora que falo galego todos os dias com qualquer pessoa e em qualquer circunstância vejo que quando vou a Ponte Vedra a qualidade do meu galego baixa consideravelmente. Isso é porque falar um idioma num ambiente tão hostil é complexo. A mudança definitiva foi na universidade. Mudar de língua era o que tinha que fazer e para mim levava sendo evidente muito tempo, mas foi nesse ambiente, no universitário, onde me vi mais segura para fazê-lo.

Teresa começou a estudar filologia espanhola até que descobriu que gostava das línguas em si e escolheu o itinerário em linguística. Por que te fascinam as línguas?

Gosto das línguas porque condicionam o pensamento, porque criam identidades e porque o uso particular de cada língua em cada momento, ou seja, o discurso, é poder. Embora a narrativa geral do politicamente correto, há de facto línguas melhores que outras. As tribos, os grupos de pessoas, criam línguas condicionadas pelo seu ambiente e pela sua história. Há tribos com melhor ambiente e história assim que o lógico então é que haja línguas melhores. O politicamente correto jamais pode invadir o discurso científico.

Recomendarias a pessoas de bacharelado, de letras, que estudem Filologia? Que vão encontrar na faculdade?

É complexo. Mais que recomendar que se faça uma filologia ou não acho que melhor é avisar do que se podem encontrar. Todas as filologias têm os seus problemas, mas espanhol e galego ganham por goleada. Filologia espanhola representa o rançoso. Comentários machistas, racistas e classistas há cada semana. O professorado é do mais medíocre. Pela contrário, galego representa o moderado, evidentemente, no pior dos sentidos. Se eu soubesse isto com anterioridade provavelmente não acabaria nessa faculdade nem na USC.

O teu projeto de futuro ronda a tradução semiótica interartística. Aos que não sabemos, diz-nos em que consiste.

Roman Jakobson num breve capítulo que aparece em Language in Literature comenta a possibilidade de uma tradução semiótica, ou seja, uma tradução entre códigos. Vi então que o que comummente se chama “adaptação cinematográfica” dum livro bem poderia ser uma tradução de códigos, da palavra à imagem. A minha primeira tentativa desde projeto é com A esmorga de Blanco Amor e Parranda de Gonzalo Suárez.

Quando decides, ou descobres, que o galego é internacional?

Provavelmente antes de começar a falar galego. Nas redes sociais tinha amizades reintegracionistas e vi que apenas era outra grafia. Para mim, que o galego é internacional é tão obvio que não considero que seja legítimo que se veja como uma questão de opinião: é uma verdade.

É muito curioso que as pessoas que pretendem justificar a diferença entre o galego e português com argumentos de tipo fonético ou léxico nunca reparam em que o espanhol tem muitas variedades e pronuncias, não só na península como também em América. A situação do português e do espanhol é muito parecida quanto à distribuição e também diferenças léxicas, morfológicas, pragmáticas, etc. Mas ninguém questiona que o espanhol de Madrid, Cádis e Ciudad Juárez seja espanhol.

Estou na faculdade de filologia quase 12 horas diárias, convivo cada dia com muitos idiomas e nacionalidades. Achei-me em muitas situações complexas: pessoas europeias que dizem que estou a ser grosseira por lhes falar galego, que não me entendem, que o galego não é uma língua… Porém, também conheci uma italiana que não conhecia o galego mas decidiu aprendê-lo e muitas pessoas asiáticas que não veem problema em lhes falar no meu idioma. Cada vez é mais evidente que um não entendo é antes um não me dá a gana de entender.

Por onde julgas que deve caminhar o reintegracionismo e, em geral, o movimento normalizador?

Acho que pelo mais abaixo. As crianças de agora vão determinar o futuro do galego. Nunca acreditei nas estruturas top-down mas nas bottom-up. Sempre de abaixo para acima, de menos a mais. Não tenho muita esperança com a situação do galego, mas sei que a educação de base é a mais importante e penso que é a única que nos pode salvar deste Apartheid.

Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associaçom?

Sempre tive uma visão positiva, a AGAL é uma via alternativa que pretende que o barco não se afunda e eu acredito no jeito em que luta porque isto permaneça vivo. Vejo qualquer organismo que trabalha pelo galego em termos positivos, mas achei que esta é a forma mais eficaz. O que me motivou a me associar na AGAL foi poder ajudar de algum jeito. Se como digo as estruturas devem ser desde abaixo, eu devo contribuir às associações, não elas a mim, embora finalmente sempre há feedback.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2030?

Imagino uma recuperação do idioma graças às crianças. Gostaria, mas penso que realmente é possível.

Conhecendo Teresa Crisanta

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Um sítio web: o dicionário Priberam

Um invento: o ñ.

Uma música: One of us cannot be wrong, L. Cohen

Um livro: O estrangeiro, A. Camus

Um facto histórico: a Revolução dos Cravos.

Um prato na mesa: sushi, mas sem inventos ocidentais.

Um desporto: atletismo.

Um filme: Viaggio in Italia

Uma maravilha: o comunismo.

Além de galego/a: feminista.

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