Sophia de Mello, poeta e autora de literatura para crianças



sophia-de-mello-foto-3Dentro da nossa série de artigos de “As Aulas no Cinema” estamos a dedicar vários depoimentos àquelas mulheres que no mundo lusófono destacaram em alguns campos da cultura, da ciência e do ensino. Por isso, dentro da que estou a dedicar às mais importantes personalidades da Lusofonia, onde a nossa língua internacional tem uma presença destacada, e, por sorte, está presente em mais de doze países, sendo oficial em oito, dedico o presente depoimento, que faz o número 143 da série geral que iniciei com Sócrates, a uma magnífica poetisa de Portugal, conhecida como Sophia de Mello Breyner Andresen, nascida no Porto em 1919. Com este depoimento, a ela dedicado, completo o número trinta e um da série lusófona.

PEQUENA BIOGRAFIA

A brasileira Dilva Frazão publicou no seu dia uma biografia da escritora, que a seguir tenho por bem reproduzir:
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas contemporâneas. Foi a primeira mulher a receber o Prêmio Camões, o maior prêmio literário da língua portuguesa. Sophia de Mello nasceu na cidade do Porto, Portugal, no dia 6 de novembro de 1919. De família aristocrática era filha de João Herique Andresen e Maria Amélia de Mello Breyner e neta do proprietário da Quinta do Campo Alegre, hoje Jardim Botânico do Porto. Sua mãe era neta do Conde Henrique de Burnay e filha do Conde de Mafra. Estudou Filosofia Clássica na Universidade de Lisboa, entre 1936 e 1939, sem concluir o curso. Participou de movimentos universitários. Em 1940 publicou seus primeiros versos nos “Cadernos de Poesia”.

Sophia de Mello Breyner participou ativamente da oposição ao Estado Novo. Foi candidata pela oposição Democrática nas eleições legislativas de 1968. Foi sócia fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Após a Revolução de abril de 1974 foi candidata à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista em 1975.

A partir de 1944 dedicou-se à literatura, e nesse mesmo ano escreve diversas poesias, entre elas, “O Jardim e a Casa”, “Casa Branca”, “O Jardim Perdido” e “Jardim e a Noite”, obras que recordam sua infância e juventude. Em 1946 casou-se com o jornalista, advogado e político Francisco Souza Tavares e muda-se para Lisboa. O casal teve cinco filhos, que a motivaram a escrever contos infantis, entre eles, “A Menina do Mar” (1961) e “A Fada Oriana” (1964). Nesse mesmo ano recebeu o Prêmio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores pela obra “Livro Sexto” (1962).
sophia-de-mello-foto-com-os-filhosSophia de Mello Breyner participou ativamente da oposição ao Estado Novo. Foi candidata pela oposição Democrática nas eleições legislativas de 1968. Foi sócia fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Após a Revolução de abril de 1974 foi candidata à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista em 1975.
Sophia foi contemporânea dos poetas Eugênio de Andrade e Jorge de Sena, entre outros. Sua obra soa muitas vezes como uma voz de liberdade. Denota também uma sólida cultura clássica, onde se observa sua paixão pela cultura grega. Alguns temas são constantes em suas obras, como a “natureza”, “a cidade”, “o tempo” e “o mar”. Sua importante obra para crianças tornou-se um clássico da literatura infantil em Portugal, marcando várias gerações.
Autora de diversos livros de poesia escreveu também contos, artigos, ensaios e peças teatrais. Traduziu para o português as obras de Eurípedes, Shakespeare, Dante e Claudel. Para o francês traduziu Camões, Mário Sá-Carneiro, Cesário Verde e Fernando Pessoa, entre outros. Recebeu diversos prêmios e honrarias, entre eles, o título Honoris Causa, em 1998, pela Universidade de Aveiro, o Prêmio Camões (1999), o Prêmio Rosália de Castro (2000), o Prêmio de Poesia Max Jacob (2001) e o Prêmio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana em 2003.
Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu em Lisboa, no dia 2 de julho de 2004. Desde 2005 seus poemas foram colocados em exposição permanente no Oceanário de Lisboa.

SÍNTESE DA TEMÁTICA DA SUA OBRA

A sua obra literária reflete, entre outros, os seguintes pontos temáticos:
a. A procura da justiça, da harmonia, do equilíbrio e da exigência ética e moral.
b. Toma em consciência do tempo em que vivemos.
c. A importância do tema da casa e do fogar.
d. O grande valor que tem o amor.
e. A vida em oposição à morte.
f. A memória da infância, e os primeiros anos da vida.
g. Os valores da antiguidade clássica, e especialmente o naturalismo helénico.
h. O idealismo e o individualismo ao nível psicológico.
i. O poeta como pastor do absoluto.
j. O humanismo cristão.
k. A crença em valores messiânicos e sebastianistas.
l. A separação.

A SUA OBRA LITERÁRIA

a. Obra poéticasophia-de-mello-capa-obra-poetica
-Poesia (1944, 3ª edição em 1975).
-O Dia do Mar (1947, 3ª edição em 1974).
-Coral (1950, 2ª edição em 1968).
-No Tempo Dividido (1954).
-Mar Novo (1958).
-Livro Sexto (1962, 7ª edição em 1991).
-O Cristo Cigano (1961).
-Geografia (1967).
-Grades (1970).
-11 Poemas (1971).
-Dual (1972, 3ª edição em 1986).
-Antologia (1975).
-O Nome das Coisas (1977).
-Navegações (1983).
-Ilhas (1989).
-Musa (1994).
-Signo (1994).
-O Búzio de Cós (1997).
-Mar (2001).
-Primeiro Livro de Poesia (infanto-juvenil) (1999).
-Orpheu e Eurydice (2001).

b. Contos
-Contos Exemplares (1962, 24ª edição em 1991).
-Histórias da Terra e do Mar (1984, 3ª edição em 1989).

c. Contos Infantis
-A Menina do Mar (1958).sophia-de-mello-capa-livro-contos-exemplares
-A Fada Oriana (1958).
-A Noite de Natal (1959).
-O Cavaleiro da Dinamarca (1964).
-O Rapaz de Bronze (1966).
-A Floresta (1968).
-O Tesouro (1970).
-A Árvore (1985).
d. Teatro:
-O Bojador (2000).
-O Colar (2001).
-O Azeiteiro (2000).
-Filho de Alma e sangue (1998).
-Não chores minha Querida (1993).

e. Ensaio
-A poesia de Cecília Meyrelles (1956).
-Cecília Meyrelles (1958).
-Poesia e Realidade (Colóquio, Artes e Letras, 1960).
-Hölderlin ou o lugar do poeta (1967).
-Torga, os homens e a terra (1976).
-Luiz de Camões. Ensombramentos e Descobrimentos (1980).
-A escrita (poesia) (1982-84).

f. Traduções para o português
-A Anunciação de Maria (de Paul Claudel) (1960).
-O Purgatório (de Dante) (1962).
-Muito Barulho por Nada (de W. Shakespeare) (1964).
-Medeia (de Eurípides) (1964).
-Hamlet (de W. Shakespeare) (1965).
-A Vida Quotidiana no tempo de Homero (de Émile Mireaux) (1979).
-Ser Feliz (de Leif Kristianson) (1980).
-Um amigo (de Leif Kristianson) (1981).

Para o francês: Quatre Poètes Portugais (Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro, Fernando
Pessoa) (1970).

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

1. Sophia de Mello: O nome das coisas.
Duração: 59 minutos. Ano 2013

2. Sophia de Mello. Homenagem 2019.
Duração: 17 minutos. Ano 2019.

3. Homenagem de Lisboa a Sophia de Mello.
Duração: 4 minutos. Ano 2009.

4. Entrevista a Sophia de Mello na Emissora Nacional em 1974.
Duração: 10 minutos. Ano 1974 (vídeo de 2011).

5. A Poesia de Sophia de Mello (por João César Monteiro).
Duração: 10 minutos. Ano 1969 (vídeo de 2014).

6. Sete poemas de Sophia de Mello.
Duração: 8 minutos. Ano 2014.

7. Trabalho escolar sobre Sophia de Mello, para a aula de Literatura.
Duração: 4 minutos. Ano 2012.

ANTOLOGIA DAS SUAS FRASES E PENSAMENTOS

A seguir coloco algumas das suas mais famosas frases e pensamentos poéticos:

a. Liberdade
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

b. Num país sem nome
Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

c. Pudesse Eu
Pudesse eu não ter laços
nem limites
Ó vida de mil faces
transbordantes
Para poder responder
aos teus convites
Suspensos na surpresa
dos instantes!

d. Terror de te amar
Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

e. A força dos meus sonhos
Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

f. 25 de Abril
Esta é a madrugada que eu esperava
o dia inicial inteiro e limpo
onde emergimos da noite e do silêncio
e livres habitamos a substância do tempo.

g. Cantata da Paz
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar.
Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror.
A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças.
Da África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados.
Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado.

h. Lusitânia
Os que avançam de frente para o mar
e nele enterram como uma aguda faca
a proa negra dos seus barcos
vivem de pouco pão e de luar.

i. Soneto à maneira de Camões
Esperança e desespero de alimento
Me servem neste dia em que te espero
E já não sei se quero ou se não quero
Tão longe de razões é meu tormento.
Mas como usar amor de entendimento?
Daquilo que te peço desespero
Ainda que mo dês – pois o que eu quero
Ninguém o dá senão por um momento.
Mas como és belo, amor, de não durares,
De ser tão breve e fundo o teu engano,
E de eu te possuir sem tu te dares.
Amor perfeito dado a um ser humano:
Também morre o florir de mil pomares
E se quebram as ondas no oceano.

j. Fernando Pessoa
Teu canto justo que desdenha as sombras
Limpo de vida viúvo de pessoa
Teu corajoso ousar não ser ninguém
Tua navegação com bússola e sem astros
No mar indefinido
Teu exacto conhecimento impossessivo.
Criaram teu poema arquitectura
E és semelhante a um deus de quatro rostos
E és semelhante a um de deus de muitos nomes
Cariátide de ausência isento de destinos
Invocando a presença já perdida
E dizendo sobre a fuga dos caminhos
Que foste como as ervas não colhidas.

DE UMA ENTREVISTA SOBRE SEUS CONTOS PARA CRIANÇAS (Fragmento)

Pergunta: Quando escreve contos, ou quando escreve contos infantis, é também por ciclos de obsessões, ou por uma espécie de cálculo, ou premeditação para determinado tipo de textos?
sophia-de-mello-capa-livro-0Resposta: “É um bocado difícil de responder porque os meus contos para crianças surgiram (eu aliás já contei isto) quando os meus filhos tiveram sarampo e tinham que estar quietos. Eu tinha que lhes contar histórias e comecei a ficar muito irritada com as histórias que lia. Primeiro com a linguagem sentimental, com a linguagem «ta-te-bi-ta-te», etc. Então comecei a contar histórias a partir de factos e lugares da minha infância (sobretudo lugares). Por isso a primeira que apareceu se chama A menina do mar. Era uma história que a minha mãe me tinha contado quando eu era pequena mas que era uma história incompleta – ela tinha-me dito só que havia uma menina muito pequenina que vivia nas rochas e como a coisa que eu mais adorava na vida era tomar banho de mar, essa menina tornou-se para mim o símbolo da felicidade máxima, porque vivia no mar, com as algas, com os peixes… Então eu comecei a contar a história a partir disso. Depois os meus filhos ajudavam; primeiro porque não me deixavam parar e segundo porque perguntavam: «E o peixe o que é que fazia? E o caranguejo?» Essa história foi contada oralmente, numa tarde. Depois, quando a escrevi, tentei escrever como a tinha contado, sem cair em nenhuma espécie de literatura nem de «peso». E então escrevia muito depressa, em voz alta. No fim, quando fui reler, cada frase começava «E depois…», «E depois…». Tive que passar tudo a limpo. Tentei contar exactamente como tinha contado às crianças. Depois as outras histórias, algumas foram meias contadas, meias escritas; lembro-me quando eles iam para o colégio e quando voltavam me perguntavam se já tinha escrito mais alguma coisa”.
(Entrevistador: Eduardo Prado Coelho).

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Sophia de Mello, uma excelente escritora de Portugal. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.
Seria interessante realizar no nosso estabelecimento de ensino um Livro-fórum, com a participação de escolares e docentes. Podemos escolher dentre os muitos livros que chegou a publicar qualquer dos três seguintes: O Nome das Coisas (livro de poemas publicado pela Moraes Editores de Lisboa em 1977), os Contos Exemplares (publicado pela mesma editora em 1962) ou o conto para crianças A Floresta, editado em 1968 pela Livraria Figueirinhas (há uma edição da Porto editora em 2019).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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