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Simone Caputo Gomes: «O que pode unir Brasil, Cabo Verde e Galiza, penso, é o conceito de “lusofonia”»

José Carlos da Silva – A África ocupa cada vez mais uma posição estratégica na Lusofonia, em especial Cabo Verde, que recentemente teve o escritor Arménio Vieira como ganhador do Prêmio Camões e cresce a importância das mulheres nas letras.

No campo político, o governo brasileiro, através de convênios aproxima-se de Cabo Verde para maior cooperação cultural e econômica.

Para falar sobre estes e outros assuntos de Cabo Verde, o PGLíngua conversou com a Professora Doutora Simone Caputo Gomes, da Universidade de São Paulo, há 30 anos dedicando-se à cultura de Cabo Verde, tendo recebido a maior condecoração caboverdiana, a Medalha da Ordem do Vulcão de Primeira Classe.

O PGLíngua agradece a gentileza e a riqueza de informações desta entrevista.

PGL – Qual foi a motivação principal para estudar Cabo Verde?

Simone Caputo Gomes – Um livro chamado A invenção do amor, de Daniel Filipe, que descobri ser caboverdiano de nascença. A poderosa comunicação que o autor estabelecia com o leitor, os sentimentos de indignação com a ditadura portuguesa e a proposta de espalhar um “vírus contagiante” (palavras do poeta), o AMOR, puxou-me como uma corrente de rio para Cabo Verde e sua literatura; concomitantemente, comecei a estudar sua língua, sua cultura e a admirar a beleza de sua terra e de seu povo.

Em 1993, para lançamento do livro (originalmente uma dissertação de Mestrado, defendida em 1979 no Brasil) intitulado Cabo Verde na poética de Daniel Filipe, fui ao arquipélago, convidada pelo Presidente do Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco na época, Tomé Varela.

Generosamente, fui recebida pelos caboverdianos e, guiada principalmente pelos olhos do hoje grande amigo Tomé e do Embaixador do Brasil em Cabo Verde naquele momento, Dr. Nuno Álvaro (e esposa), pude conhecer várias ilhas e referendar um amor por Cabo Verde que começou nas páginas do livro e se mantém pelo contato com o vento na pele e o cheiro da terra, com as paisagens agrestes, os mares verde-turmalina às vezes esmeralda, as gentes alegres e calorosas, cheias de morabeza.

PGL – Como os alunos de Literaturas Africanas da USP reagem quando descobrem a riqueza cultural africana?

Simone Caputo Gomes – Com encantamento, com muita curiosidade e entusiasmo. Nossas turmas na Universidade de São Paulo, de Graduação, Pós-Graduação e Extensão são cheias, assim como qualquer evento que envolva as Literaturas africanas na universidade e divulgado por ela. Temos atualizado, aos sábados, em curso específico, muitos professores que pretendem conhecer mais as culturas e literaturas africanas de língua oficial portuguesa.

PGL – Em que estágio está o ensino de cultura africana, em especial de Cabo Verde, nos ensinos médio e fundamental?

Simone Caputo Gomes – Penso que temos muito que caminhar. A lei de obrigatoriedade do estudo das histórias e culturas africanas ainda não está sendo maciçamente implantada. Caminha devagar esse processo e muitas vezes não é orientado por especialistas no assunto. Assim, temos várias profissionais tentando trabalhar com estas culturas, histórias e literaturas, mas na maioria das vezes sem o aparato teórico-crítico adequado e poucas experiência.

Um movimento mais contundente com relação a essa implantação deve ser, segundo posso concluir de meu trajeto de professora do ensino fundamental a orientadora dos Pós-Doutoramentos universitários, encabeçado pelas universidades, que não estão se envolvendo o quanto deveriam, por considerarem que esta tarefa cabe aos docentes de ensino médio. Só que a pesquisa neste campo é ainda reduto universitário e a transferência desse conhecimento é, portanto, tarefa nossa, de início, sendo o bastão sucessivamente passado na maratona que é, inclusive, vencer preconceitos, aos professores dos níveis subseqüentes.

PGL – O Programa de Ações Afirmativas para a População negra nas universidades estaduais e federais é agregador ou segregador? É necessário investimentos milionários para “despertar” o interesse acadêmico?

Simone Caputo Gomes – É agregador em sua finalidade prática, mas num Brasil mestiço como é o nosso, tal programa não deveria, teoricamente, ser necessário. Cada cidadão, independentemente de ser amarelo, vermelho ou azul, deveria ter as mesmas oportunidades de educar-se na universidade, obtidas por mérito.

Mas sabemos que o mérito, em nosso país, ainda é facilitado àqueles que, na maioria das vezes, possuem melhores condições econômicas. O cidadão com poucos recursos financeiros acaba por ficar reduzido às “cotas para afro-descendentes”. De toda forma, essas iniciativas têm, na prática, reduzido um pouco as desigualdades de oportunidades. Mas ainda não constituem a solução ideal numa sociedade democrática.

 

Simone Caputo Gomes e a poeta Ministra da Educação Vera Duarte

 

PGL – O que acha da decisão do Ministério da Educação de liberar R$ 2milhões para serem investidos no Programa de Ações Afirmativas para a População Negra nas Instituições Federais e Estaduais de Educação Superior (Uniafro)?

Simone Caputo Gomes – Concordo, baseada no argumento anterior, com a iniciativa, no sentido de diminuir as desigualdades de oportunidades.

O conhecimento profundo da África, derrubando estereótipos e dando visibilidade à  riqueza plural que a compõe, tem sido um dos objetivos do atual governo brasileiro. A costela africana que constitui a identidade brasileira e a contribuição do Brasil para a consolidação das nações e das culturas africanas, em especial as de língua portuguesa, é um fenômeno recíproco que os cidadãos brasileiros, desde o ensino fundamental ao superior, precisam conhecer e valorizar no dia-a-dia. Nossa música, nossos hábitos, nossa língua têm inúmeras afinidades que a história conta e a educação formal deve qualificar.

A implantação de núcleos de estudos afro-brasileiros nas universidades está se tornando um hábito salutar. Neste sentido, a Universidade de S. Paulo (USP), onde trabalho, tem sido uma pioneira, com o nosso CELP (Centro de Estudos de Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa) e o famoso Centro de Estudos Africanos.

PGL – Está a par se a Lei 10 639, de 9 de janeiro de 2003, está sendoaplicada no Brasil?

Simone Caputo Gomes – A Lei 10 639, de 9 de Janeiro de 2003, revista pela Lei Ordinária nº 11 645 ,de 10 de março de 2008, na verdade altera e complementa a Lei 9.394, de 20 de Dezembro de 1996, que Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional, lei máxima da educação no Brasil. As duas leis que alteram a LDB o fazem no sentido de incluir os segmentos indígena e afro-descendente da população brasileira, relegados por muito tempo a papel secundário a partir da própria legislação educacional.

Para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade do estudo da história e cultura das populações afro-brasileira, africanas e indígena o governo Lula estabeleceu essa legislação e o Conselho Federal de Educação emitiu o Parecer CNE/CP Nº 3/2004, em 10.3.2004, e a Resolução nº 1,de 17 de junho de 2004, que regulamentam as alterações da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, traçando as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico -Raciais e para o Ensino de História e Culturas Afro-Brasileira e Africana.

Este conjunto jurídico busca cumprir o estabelecido na Constituição Federal nos seus Artigos 5º, I, Art. 210, Art. 206, I, § 1º do Art. 242, Art. 215 e Art. 216, bem como nos Art. 26, 26A e 79B da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que asseguram o direito à igualdade de condições de vida e de cidadania, assim como garantem igual direito às histórias e culturas que compõem a nação brasileira, além do direito de acesso às diferentes fontes da cultura nacional a todos os brasileiros.

A Resolução do CNE (Conselho Nacional de Educação) diz respeito à capacitação de professores pelas instituições de ensino superior, ao tratamento temático e disciplinas relativas à Educação das Relações Étnico-Raciais e ao Ensino de História e Culturas Afro-Brasileira e Africanas, em todos os níveis e modalidades da Educação Brasileira.

O cumprimento das referidas Diretrizes Curriculares, por parte das instituições de ensino, tem por meta promover a educação de cidadãos atuantes e conscientes no seio da sociedade multicultural e pluriétnica brasileira, buscando relações étnico-sociais positivas, rumo à construção de nação democrática.

É preciso que a sociedade civil se sensibilize e cobre da universidade e das escolas a efetiva aplicação do conjunto jurídico referido.

 

Discursando após a condecoração

 

PGL – Como é possível uma maior integração entre Brasil, Cabo Verde e Galiza (intercâmbios culturais, acadêmicos, empresariais etc)? Como os dois primeiros podem fazer as interações?

Simone Caputo Gomes – O campo que conheço mais é o cultural e acadêmico e, neles, o que pode unir Brasil, Cabo Verde e Galiza, penso, é o conceito de “lusofonia”, já empregado, por exemplo, por Xosé Loís García, nas importantes antologias que tem preparado.

A integração Cabo Verde-Brasil, segunda parte da pergunta, l é antiga e está a caminhar mais aceleradamente com a preocupação do governo brasileiro em parcerias econômicas e culturais efetivas com o país africano, acelerando os intercâmbios e trocas, inclusive no que diz respeito à recente implantação da universidade pública em Cabo Verde. A CPLP também pode contribuir mais para projetos conjuntos desses países, facilitando a circulação do livro, de cidadãos, flexibilizando a questão dos vistos para transitar pelos países etc.

PGL – Explique-nos sua visão da história cultural crioula

Simone Caputo Gomes – A minha visão é a dos historiadores e estudiosos da cultura caboverdiana: a mestiçagem gerada, no início da povoação da ilha de Santiago, pela posição de Cabo Verde como entreposto de mercadorias (inclusive escravos), o que facultava o trânsito de pessoas pelo arquipélago, e a importância dos portos caboverdianos (como o Porto Grande, de São Vicente nas rotas de navegação para abastecimento de navios a carvão, por exemplo) criou um mundo mulato, como diz Gabriel Mariano, de ascensão vertical do mestiço na sociedade, à diferença das outras sociedades coloniais de língua portuguesa espalhadas na África.

Assim, a burguesia mulata forjou a cultura que hoje conhecemos, expressa na música, na literatura, nas tradições sincréticas.

PGL – Qual é a situação atual do idioma crioulo e de suas variantes? Já existe uma norma ou padrão geral da língua?

Simone Caputo Gomes – Já existe hoje o que se chama “língua caboverdiana”, descrita a partir do crioulo de Santiago (crioulo de base portuguesa), considerado padrão por possuir maior número de falantes e pelo prestígio de ser a língua falada na capital do país, Praia.

PGL – Qual a sua opinião sobre o Acordo Ortográfico para os países lusófonos? Cabo Verde terá facilidades em adotá-lo?

Simone Caputo Gomes – Cabo Verde já referendou o acordo e o prazo para adoção da nova ortografia me parece exeqüível. Acho que o acordo facilitará a comunicação para as gerações mais novas. Os escritores atuais e aqueles que dominam a ortografia da língua portuguesa como se apresenta(va) na anterioridade ao acordo terão tempo para se adaptar.

PGL – Como a senhora encara os estudos sobre as literaturas africanas de língua portuguesa e, em especial, a caboverdiana desenvolvidos no Brasil?

Simone Caputo Gomes – O Brasil é referência no campo, mas penso que a pesquisa e a leitura das literaturas angolana e moçambicana foram privilegiadas por bastante tempo. Agora, acho que a literatura caboverdiana começa a ter mais destaque, com o Prémio Camões atribuído a Arménio Vieira e com uma cadeira específica de estudo na Graduação e Pós-Graduação instituída há três anos pela Universidade de São Paulo, com docência desta professora que lhes fala. As literaturas da Guiné Bissau e de São Tomé e Príncipe têm carecido de estudo mais profundo e também merecem destaque.

 

Participação em mesa redonda, no Colóquio do Centenário da geração Claridade, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, na cidade da Praia, Cabo Verde, 2006

 

PGL – Em que estágio está o diálogo na literatura cabo-verdiana com a portuguesa e a brasileira?

Simone Caputo Gomes – Este diálogo sempre foi e continua sendo intenso, mas penso que o diálogo dos africanos (caboverdianos, angolanos, moçambicanos) com a literatura do Brasil, nas últimas décadas, tem sido mais criativo.

PGL – Quais livros indicaria para o leitor iniciar-se na literatura cabo-verdiana?

Simone Caputo Gomes – Para leitura, começar com obras dos escritores da geração da revista Claridade (Baltasar Lopes, Manuel Lopes, Jorge Barbosa, António Aurélio Gonçalves), depois ler a poesia de Ovídio Martins, Armênio Veira, Oswaldo Osório, Corsino Fortes, Vera Duarte, a ficção de Teixeira de Sousa, Germano Almeida, Fátima Bettencourt, entre outros.

PGL – Qual o papel das mulheres nesta literatura e quais são hoje as principais escritoras de Cabo Verde?

Simone Caputo Gomes – A literatura produzida por mulheres é hoje um filão de pesquisa importante em Cabo Verde, despontando as obras de Vera Duarte, Fátima Bettencourt, Dina Salústio, Ondina Ferreira, Orlanda Amarílis, Ivone Aída, entre outras das muitas mulheres que escrevem bem. No meu site acadêmico, de nome “Amar Cabo Verde” (www.simonecaputogomes.com), na seção Arquivos/Textos, há vários artigos a respeito do assunto que podem aprofundar esta resposta.

PGL – Fale um pouco sobre o seu livro “Cabo Verde: literatura em chão de cultura”.

Simone Caputo Gomes – Meu livro é uma reunião de textos selecionados publicados em várias partes do mundo, ou inéditos, que historiam a minha produção de mais de três décadas sobre a cultura e a literatura de Cabo Verde. Sua estrutura condiz com a minha linha de pesquisa e leitura, a comparada transdisciplinar, amparada pelos estudos culturais, que entende o discurso literário como um discurso apoiado sobre ou dialogante com um contexto, no caso, o das ilhas, de sua vivências e tradições.


Conheça a Professora Simone Caputo Gomes

Minha trajetória profissional abrange os diversos níveis do Curso de Letras, com Graduação na Universidade Federal do Rio de Janeiro (1975), Mestrado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1979), Doutorado em Literaturas de Língua Portuguesa, na mesma universidade (1988). Realizei Pós-Doutoramentos nas Universidades de Lisboa (Literaturas de Língua Portuguesa, 1994 e 1995-6) e Coimbra.

Atualmente, sou Professora Doutora da Universidade de São Paulo, de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Antes, fui Pesquisador(a) Visitante Especial A da FAPERJ (1999-2001) no Setor de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Professora aposentada pela Universidade Federal Fluminense, de Literatura Portuguesa e Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, em 1995. Dedico mais de 30 anos de pesquisa à Literatura e Cultura de Cabo Verde, tendo defendido minha dissertação de Mestrado (Uma recuperação de raiz: Cabo Verde na obra de Daniel Filipe) em 1979, na PUC/RJ. A dissertação foi publicada como marco inaugural da Colecção TESE do Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco, em 1993.

Fui agraciada, por decreto do Presidente da República de Cabo Verde datado de 4 de julho de 2007, com a mais alta condecoração caboverdiana para um estrangeiro: a Medalha da Ordem do Vulcão de Primeira Classe.

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