José Carlos da Silva – No Brasil é muito comum a expressão “Cafundó do Judas”, para designar um lugar muito longe. No entanto, pouca gente se da conta do seu significado ou mesmo da existência desse lugar.
Do Portal Galego da Língua conversámos com o Professor Doutor Sílvio Vieira de Andrade Filho, autor do livro Um Estudo Sociolingüístico das Comunidades Negras do Cafundó, do Antigo Caxambu e de seus Arredores. Nesta entrevista esclarecedora o autor desmistifica o Cafundó, explica a cupópia e fala sobre a importância da preservação da língua.
PGL – Quando criança, ouvia de minha avó a expressão “É lá nos cafundó!”, para designar um lugar muito distante. Seu livro Um Estudo Sociolingüístico das Comunidades Negras do Cafundó, do Antigo Caxambu e de seus Arredores é exatamente sobre esse lugar? Onde ele está situado?
SVA – “Cafundó” significa lugar retirado, distante e de dificil acesso. Designa também qualquer local capaz de dar forte proteção a seus moradores. A explicação está de acordo com a localização da comunidade. Todos nós conhecemos este enunciado: “Aquele homem mora no cafundó do Judas”. É um item que está incorporado ao vocabulário da língua portuguesa. De um sentido genérico, o item passou para um sentido particular: cafundó > Cafundó. O mesmo ocorreu com o nome da cidade portuguesa: porto > Porto. Cafundó pode ser também sobrenome com a mesma explicação anterior. É bem provável que na formação de Cafundó entre o morfema “ca-” que, nas línguas banto, indica carência, falha, diminuição, etc. Em português temos “caolho” e os itens lexicais de origem africana “camundongo” (rato pequeno) e “caçula” (filho mais novo e por isto mesmo o menor de uma família). Raimundo Pereira (1906), profundo conhecedor do Cafundó, afirmava ser a denominação Cafundó mais antiga que ele próprio. Por outro lado, é bom lembrar que, em muitos documentos do começo do século XX, os cafundoenses usam as denominações “Bairro do Sarapuí”, “Barra do Sarapuí” e “Barra” quando se referem ao local de sua moradia. Provavelmente, o mesmo morfema está também em “Caxambu”. Além de designar a comunidade negra de Salto de Pirapora, SP, a palavra “cafundó” pode ser usada como símbolo das comunidades negras. Exemplo: Existem muitos cafundós no Brasil.
PGL – A imprensa brasileira “descobriu” o Cafundó em 1978 com grande alarde. A população da região de Sorocaba já conhecia esse local?
SVA – O bairro “Cafundó” do município paulista de Salto de Pirapora surgiu com a Abolição (1888). Como qualquer bairro rural, este sempre foi conhecido de toda população do município de Salto de Pirapora. O mesmo podemos dizer da “cupópia”. Muitos moradores do Cafundó vieram morar em Sorocaba o que tornou o bairro também conhecido de alguns em Sorocaba. Em 1972, houve um processo de cafundoenses na comarca de Sorocaba que serviu também para que muitos sorocabanos tomassem conhecimento da comunidade. Portanto, ninguém descobriu nada. Em 18.03.1978, surgiu a primeira reportagem sobre o Cafundó somente no jornal sorocabano Cruzeiro do Sul, de autoria de Júlio Gonçalves e do Prof. Luís Carriel de Oliveira, então secretário de Educação e Cultura de Salto de Pirapora. Este último já visitava o Cafundó e tirava fotos do local desde 1977. Com esta reportagem, o Cafundó teve aumentada a sua popularidade pela primeira vez, ultrapassando em escala maior os limites do município de Salto de Pirapora. Com ira, Carriel afirma que sua presença no início de 1977 e a reportagem de 1978 foram omitidas em alguns relatos. Ele afirma também que certas informações podem enganar a todos menos a população de Salto de Pirapora.
PGL – Quais são as características do Cafundó? Ela é um reduto do período escravocrata que permaneceu isolado? Quantas pessoas moram atualmente nesse local?
SVA – O Cafundó nasceu na Abolição (1888) e sua população nunca ficou no isolamento. Atualmente moram no local cerca de 95 habitantes.
PGL – Como é a organização social no Cafundó?
SVA – É uma organização comum a todos os bairros rurais brasileiros. A única coisa que difere o Cafundó dos demais bairros rurais brasileiros é a existência de uma fala africana denominada “cupópia”.
PGL – O que é a cupópia?
SVA – “Cupópia” é uma fala africana formada por 150 palavras e que usa a estrutura da língua portuguesa. A fala originou-se de várias línguas africanas trazidas para o Brasil através dos escravos.
PGL – O dicionário cupópia-português foi desenvolvido pelo senhor?
SVA – Sim. Não apenas o dicionário “cupópia-português” como também o dicionário “português-cupópia”. Os dicionários têm inclusive transcrição fonética e estão no meu livro.
PGL – Sua obra traz uma descrição da “cupópia” nos níveis fonético-fonológico, morfológico, sintático, semântico e textual. Qual a importância deste detalhado estudo?
SVA – Dentre as inúmeras utilidades, esta obra oferece elementos para ampliar os estudos da lingüística africana no Brasil, fornece elementos para a lingüística geral, contribui para a pesquisa do negro brasileiro antes e depois da Abolição, oferece elementos para o estudo do português rural brasileiro, contribui para o estudo dos bairros rurais brasileiros e para o mapeamento das comunidades negras no Brasil, objetivando novos estudos lingüísticos e não lingüísticos, pode ser usada por folcloristas e por alunos da rede escolar, pois possui curiosas narrações.
PGL – A cupópia é ensinada para as novas gerações?
SVA – Quando eu comecei a estudar a “cupóppia”, havia 11 usuários. Atualmente estes ficaram reduzidos a apenas 5.
PGL – O Cafundó sucumbiu à globalização? Este universalismo não trouxe à tona o indivíduo, os pequenos grupos e as chamadas minorias?
SVA – Como qualquer comunidade rural do Brasil em contato com o meio urbano, o Cafundó vem sofrendo uma especie de globalização que está apenas em sua fase inicial.
PGL – Atualmente, o Cafundó é “um povo distante do que chamamos de civilização”, “um grupo de negros em uma aldeia” ou um quilombo?
SVA – Nunca os cafundoenses viveram no isolamento. Podemos dizer que os cafundoenses são iguais a tantos outros habitantes de bairros rurais brasileiros. Historicamente, o Cafundó não pode ser considerado um quilombo no sentido tradicional de grupos de escravos fugitivos que se agruparam para defenderem-se de ataques, etc. Além disto, o Cafundó só surgiu com a Abolição de 1888.
PGL – Na Galiza, atualmente, grande parte da população luta para manter o uso do idioma galego-português nas escolas, empresas e em toda a comunidade. Em sua opinião, como o idioma pode ser protegido e preservado?
SVA – Nós das ciências humanas, como o próprio nome diz, temos obviamente como objetivo maior o estudo do ser humano. Quando uma língua se perde, é o homem que está perdendo algo que pode contribuir para a ampliação do estudo do próprio homem, seja qual for a raça deste homem. Daí ser importante deixar registrada uma língua antes que, um dia, esta venha a desaparecer.
O autor
Sílvio Vieira de Andrade Filho, nasceu em Guareí (SP) é linguista, historiador e autor dos livros Um Estudo Sociolingüístico das Comunidades Negras do Cafundó, do Antigo Caxambu e de seus Arredores (2000), Guareí (2004) e Itapetininga (2006). A segunda edição do livro Um Estudo… é de 2009. O autor obteve o Mestrado na Puccamp e o Doutorado na USP.
Foi bolsista do Instituto de Alta Cultura de Lisboa, onde inteirou-se dos estudos dialetológicos da língua portuguesa na Universidade de Lisboa, Portugal.
Resultado de sua tese de Doutorado na Universidade de São Paulo, a segunda edição do livro-documentário “Um Estudo Sociolingüístico das Comunidades Negras do Cafundó, do Antigo Caxambu e de seus Arredores” (ISBN: 85-904104-2-0), do Dr. Sílvio Vieira de Andrade Filho, contém 456 páginas de 46 linhas cada (120 páginas a mais do que a primeira edição).
O Livro
A obra está dividida em oito partes. A primeira focaliza o Brasil africano: as culturas africanas no Brasil, a população afro-brasileira, as comunidades negras do país, línguas em contato e o contato de línguas africanas com a língua portuguesa.
A segunda parte estuda o surgimento de algumas localidades e a formação de alguns municípios que saíram do antigo e extenso território de Sorocaba (atual Estado de São Paulo, Brasil). Estuda também os desdobramentos territoriais posteriores. Focaliza também sesmarias, proprietários e propriedades rurais com a presença de escravos. Trata também de comunidades negras com suas questões fundiárias, com suas lendas, narrações, etc.
A partir das terceira parte, surgem os estudos lingüísticos da “cupópia”, fala africana existente no Cafundó (bairro rural do município paulista de Salto de Pirapora), mas que nasceu no antigo Caxambu (no município paulista de Sarapuí). A pesquisa de campo possui dois dicionários: “cupópia”-português e português-“cupópia”.
A obra contém uma descrição da “cupópia” nos níveis fonético-fonológico, morfológico, sintático, semântico e textual.
+ Mais informações:
- Contatos com o autor: vieira.sor arroba terra.com.br
- Informações através dos sítios www.cafundo.site.br.com e inforum.insite.com.br/8400
