Sementar futuros



semente-moasO conto é na origem oriental e antigo, mas conservou sempre um ponto poliedricamente subversivo. Tenho encontrado por vária parte, França, Alemanha, Pérsia, Índia até em narrativas populares do Japão. Mas do que mais gosto é versionado, na lição de Mingos a D. Reinaldo no Cómaro de Lixandre, por Lugris Freire, nos seus Contos de Asieumedre.

Um velho paisano muito velho cava sob um sol de meio dia intenso um buraco na terra, passa um senhor feudal, cavaleiro (dacavalo ou a pé), cacique ou advogado das silveiras, com porte citadino ou desprezador de aldeias. Imaginem a gosto os tipos. A cousa é que o elegante, pergunta com curiosidade que tem de fazer o labrego que seja tão urgente para estar assim acorado e suando a regos, que parece que vai morrer. O homem para, e resposta cachaçudo que vai plantar aí uma nogueira e entusiasma-se descrevendo como será a árvore, a sua bela madeira e saborosas nozes. O cavaleiro ri e diz-lhe com ironia que não tenha tanta pressa, que vai hoje muito sol e que nunca verá o fruto de tanto esforço. O velho resposta que já sabe, mas cumpre plantar agora, para os seus netos e os netos deles o lembrarem quando comam as nozes da sua árvore.

Véu-me à mente ao premer um aceitar eletrónico, com todo um tecido complexo de associações históricas, literárias e sociológicas, que abrangem da Solidaridad Gallega até a Biblioteca da RAG, passando pelos discursos de Lugris, as páginas mais subversivas de A Nosa Terra, a Cova Céltica, a Coleção o Moucho, as Irmandades da Fala, as Escolas do ensino Galego…

Espero ganhar como recompensa uma árvore, pelo meu contributo à Campanha da Semente Compostela para ter um edifício e parque, no que a Escola Popular Galega, agrome e medre definitivamente no projeto escolar galego de referência.

Chegaram-me essas evocações intensas porque eu espero ganhar como recompensa uma árvore, pelo meu contributo à Campanha da Semente Compostela para ter um edifício e parque, no que a Escola Popular Galega, agrome e medre definitivamente no projeto escolar galego de referência.

As árvores não têm pressa e o futuro é para sempre , mas para elas precisamos, urgentemente, de Sementes:

https://www.goteo.org/project/projeto-moas

Se é possível, gostaria que a minha árvore fosse uma nogueira.

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza

(Crunha, 1970). Formado como filólogo, publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. É sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; entre 2016 e 2019 foi Diretor do Portal Galego da Língua.
Ernesto V. Souza

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