Por Pablo Gamalho Otero
Aconselho botar uma olhada ao dossier da Conselharia de Educação no que se publicam os resultados da consulta sobre a utilização das línguas no ensino não universitário da Galiza. Mesmo se hai muitos defeitos de forma na formulação das questões e independentemente do índice de abstenção, os resultados da consulta são mui surpreendentes: perde o bilinguismo harmónico e ganha a imersão.
Antes de matizar a minha opinião sobre estes resultados, devo dizer que concordo com praticamente tudo o que se tem dito sobre ela. Em particular, coincido com a maioria das críticas ao respeito das perguntas sobre as matérias troncais, que só representam o 50% do total, deixando fora o outro 50% maioritariamente em castelão. No entanto, hai uma pergunta interessante no inquérito que permite inferir bastante informação sobre as intenções dos pais. Refiro-me à terceira questão de primária e secundária: ‘en que lingua(s) preferiría que o seu fillo/a realizase as probas orais ou escritas?’. O formulário oferece três possibilidades: em galego, em castelão, ou indistintamente. Curiosamente, os pais não responderom à galega escolhendo a opção ‘indistintamente’. A maioria, 65-66%, escolherom só galego ou só castelão, frente ao 32-33% dos galegos harmónicos.
Estes resultados coincidem coas respostas dadas a outras perguntas, em particular com a famosa questão das troncais. Entre as 5 opções do formulário, os enquisados escolhem maioritariamente os dous extremos: só galego ou só castelão. Em particular, escolherom estas duas opções extremas o 50’1% em primária e o 53% em secundária. Se também incluímos entre os que defendem a imersão numa língua aqueles que querem o ensino maioritariamente em galego ou em castelão, os resultados são muito mais claros: 75% tanto em primária como em secundária. Os defensores harmónicos do fifty-fifty ficam em clara minoria.
Portanto, frente aos que falam dum conflito lingüístico inexistente, os pais que responderom a esta consulta, quase dous centos mil, posicionam-se claramente como defensores da imersão ou de modelos próximos à imersão: um 50% quer imersão em espanhol enquanto que um 25% quer imersão em galego. O conflito existe. Hai duas visões da língua opostas e enfrentadas. O bilinguismo harmónico fica claramente derrotado.
É obvio que esta consulta vai servir à Xunta para tirar as conclusões que lhe interessam, nomeadamente que os galegos não querem todas as matérias troncais em galego e que é preciso derrogar o decreto do ensino em vigor. Isso já se sabia antes de conhecer os resultados. Dada a situação de extrema precariedade da nossa língua, não é difícil pronosticar que 4 ou 8 anos (os que vai estar Feijóo no governo como mínimo), com uma percentagem do galego à baixa no ensino, podem ser suficientes para reduzir a mínimos trágicos o conhecimento e uso dessa língua por parte dos mais novos. Em vez de negociar migalhas percentuais, os defensores da imersão em galego deveríamos optar, desde o meu ponto de vista, por defender um modelo de tipo Vasco: B (bilíngue) C (só castelão), G (só galego).
Partiríamos com um 20% de pais que escolheria o modelo G. Se este se tornasse no futuro numa referência de ensino de qualidade e de prestígio, conseguiríamos trocar os preconceitos milenários sobre a nossa língua. Hai que buscar estratégias novas que mudem as inercias. Mais vale um ensino 100% galego de qualidade para um 20% dos estudantes que um ensino 20% em galego para o 100%, onde a língua ficaria diluída até esvaecer-se. Como acontece no País Vasco, onde já a maioria escolhe só euskera, cada vez mais gente se subiria aqui ao trêm. Um trêm com um destino claro e preciso. O barco no que estamos agora vai a pique, com certeza absoluta.
