Paulo Fernandes Miras: “A obra do Guerra, apesar de ter sido um eterno emigrante, tem características comuns com a poesia dos que ficaram na Galiza”



paulo-fernandes-miras-1024x612Após o recente lançamento em Através Editora da antologia da poesia em galego de Ernesto Guerra da Cal, falamos com o investigador ordense Paulo Fernandes Mirás, autor da coletânea, que já foi o responsável da antologia poética de Ricardo Carvalho Calero (2019) e da biografia de Ricardo Carvalho Calero (2020) publicada na editora Ir Indo. É professor de língua e literatura galegas e Académico Correspondente da AGLP.

Como é que surgiu a ideia de publicar esta nova antologia?
Estava a trabalhar na poesia completa de Carvalho Calero para o meu Doutoramento e comecei a achar poemas do Guerra da Cal por acaso. Embora o relacionamento entre as figuras fosse muito ténue no pessoal, comecei a ver similitudes na sua produção lírica. Aliás, também fui consciente de que eram os únicos que, com a sua idade, escreviam no que hoje entendemos como a norma AGAL e o padrão português. Foi deste modo que comecei a pesquisar e a adquirir os livros poéticos do professor Guerra.

momento durante a apresentação do livro em Ferrol.

Paulo Fernandes Mirás recita durante a apresentação do livro em Ferrol.

Foi difícil achar os livros todos? Demorou muito tempo?
Bom, não saberia dizer quando é que demorei exatamente, mas estive arredor de dois anos juntando todo o material. Não tinha pressa e também não eram fáceis de achar. Segundo apareciam diante dos meus olhos, tentava consegui-los por um preço aceitável. Obviamente, tive de falar com diversos alfarrabistas, pois os últimos livros foram publicamos a começos da década de 90 e não se editaram de novo. Acho que não foi um trabalho difícil, mas de muita paciência.

A antologia contém quase 120 poemas. Quais foram os critérios para escolher os poemas?
Após ler e digitalizar a poesia completa, arredor de uns 300 poemas, decidi fazer uma escolha que nos permitisse apreciar a unidade e a diversidade da obra de Guerra da Cal, mantendo sempre os seus poemas biográficos para conhecer melhor o a sua vida através da criação literária. Quis colocar poemas com diversas temáticas: mitologia grega, cristã, o amor e o desamor, erotismo, ironia, existencialismo, o sentido da vida, a velhice, etc. e que permitissem ver, em ordem cronológica, a evolução do autor. Embora os anos passem, percebemos a essência do poeta em todo momento e como, com o passar dos anos, se vai aprofundando num existencialismo metafísico, vital, percebendo a finitude do ser humano e os reptos pelos que este tem de passar ao longo da sua vida.

Após ler e digitalizar a poesia completa, arredor de uns 300 poemas, decidi fazer uma escolha que nos permitisse apreciar a unidade e a diversidade da obra de Guerra da Cal, mantendo sempre os seus poemas biográficos para conhecer melhor o a sua vida através da criação literária.

0038_antologia_da_poesia_guerradacal-488x710Onde é que situarias a obra poética do professor Guerra a respeito de outros autores e autoras da sua época? Podemos destacar algo especial na sua poesia?
A obra do Guerra, apesar de ter sido um eterno emigrante, tem características comuns com a poesia dos que ficaram na Galiza. Ele, como docente, igual que Carvalho Calero, era conhecedor da nossa literatura e das influências que esta tinha sofrido com o passar dos anos. A lírica medieval deixou pegada na sua obra, sobretudo na iniciática. O erotismo, embora não muito comum na época, também era praticado por Carvalho. Reitero o nome de Carvalho não somente por ser o meu objeto principal de estudo, mas porque ambos têm praticamente a mesma idade e nasceram em Ferrol. Ambos fizeram vida na província de Lugo e os dois participaram na guerra civil.

Para além disto, a poesia dos dois ferrolanos tem uma tendência do natural ao intimista. Pode que a de Guerra seja mais reflexiva e é, sem dúvida, mais sintética, em geral. É uma poesia que visualmente resulta atrativa e que tenta condensar muito em pouco espaço. Contrariamente, Carvalho tem uma poesia bastante narrativa. Ele próprio afirmava que quando escrevia todos os géneros se misturavam. A narrativa tinha algo de poético e a poesia tinha algo de narrativo.

Em definitiva, a poesia do Guerra da Cal tem elementos comuns com outros companheiros epocais, como Carvalho. Não participou no Seminário de Estudos Galegos para o incluir sob essa etiqueta, tal e como situaríamos agora o Carvalho Calero (seguindo as pautas da sua História da literatura galega contemporánea), mas para mim estaria no mesmo lugar que Carvalho. Outrossim, é necessário ter em conta as influências externas da sua obra poética, pois como emigrante, também teve leituras diferentes ao resto das suas companheiras e companheiros que, de algum modo, também mudaram a sua forma de expressar o seu mundo interior.

Outrossim, é necessário ter em conta as influências externas da sua obra poética, pois como emigrante, também teve leituras diferentes ao resto das suas companheiras e companheiros que, de algum modo, também mudaram a sua forma de expressar o seu mundo interior.

 

Para concluir, tens pensado continuar com mais publicações deste tipo? É dizer, com mais antologias de outras personalidades do reintegracionismo? Muita sorte com o Doutoramento.

É uma boa pergunta. Quis que ambas as antologias, quer a de Carvalho quer a de Guerra, tivessem uma capa semelhante para criar uma continuidade. Acho que poderia ser uma ideia interessante resgatarmos a obra das pessoas que ficaram nas periferias do sistema literário e que isto poderia ser uma linha de trabalho possível dentro da Através. Estou a falar não só de poesia, mas de outros géneros também, é claro. O importante, no fim das contas, é não ficarmos no lugar e continuarmos trabalhando por um futuro necessário. Obrigado pelo interesse e pelos bons desejos.


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  • Arturo Novo

    Eu que não presumo de grande leitor e menos de poesia, estou a gostar, surpreendentemente para mim, da poesia do Guerra da Cal. A mim ler poesia, talvez por estar pouco iniciado, resulta-me difícil. Mas com Guerra da Cal isto não me passa.

    • Paulo Fernandes Mirás

      Um dia temos de combinarmos para falar do poesia do Guerra. 😉