Parecia não pisar o chão, de Carlos Taibo, alcança a 3ª edição



parecia-nao-pisar-o-chaoFoi o livro que inaugurou a coleção Através das Ideias, uma área habitada por ensaios fora da questão linguística ou de âmbito galego. O subtítulo, 13 ensaios sobre as vidas de Fernando Pessoa que tentam desemaranhar a pessoa e o escritor, informa-nos do que as leitoras e leitores vamos encontrar nele.

Carlos Taibo é sobejamente conhecido polos seus ensaios na esfera da geopolítica, Europa do leste, decrescimento, movimento libertário e outras áreas afins a estas. No entanto, ela já tem demonstrado, mais duma vez, a sua versatilidade e amplitude de curiosidade. Na própria Através é responsável por O penálti de Djukic, em volta de histórias do Desportivo da Corunha, e, recentemente, O feitiço das línguas, uma (pseudo) (auto) biografia linguística.

Parecia não pisar o chão nasceu duma forma invulgar, até pessoana:

Há uns anos recebi um convite insólito. Um amigo desejava organizar um ciclo de palestras em que pessoas que se dedicam comummente a assuntos mais ou menos especializados se comprometessem a falar de matérias que não eram as suas. Aceitei de imediato o convite e respondi, além disso, que já sabia do que gostaria de falar: da vida de Fernando Pessoa. Embora, depois, o ciclo não se tivesse realizado —por razões provavelmente óbvias—, conservei um caderno com os apontamentos preliminares, que permitiriam assumir a tarefa de falar, em público, sobre a vida do poeta.

O seu conteúdo, como não podia ser de outra forma, se conhecemos um bocado as formas de agir do autor, Carlos Taibo, não tem o foco na crítica literária, na interpretação psicológica ou na análise política. Carlos Taibo, no seu encarar a figura de Fernando António Nogueira Pessoa, fala… do caráter do escritor, do seu afazer quotidiano, do trabalho, da fama que alcançou, da posteridade que aguardava, dos amores, das viagens, das fotografias, das línguas em que era fluente, da morte ou da sua relação com o país, a Galiza, no que este livro está pensado. Se, como imediatamente veremos, para a maioria dos especialistas a vida de Pessoa é um
simples acidente —a luz que nasce da obra e da necessidade paralela de a resgatar fizeram com que o ser humano que estava por trás ficasse num discreto segundo plano—, por que não auto atribuir-nos o direito de inverter o esquema e considerar, por sua vez, que o acidente foi a obra, e fazê-lo, além disso, desde a fragmentação que está no núcleo do que Pessoa nos legou? Por que não subverter, noutras palavras, o que assegura uma conhecida afirmação do poeta —”A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta”2— e sublinhar o que está implícito, isto é, que a vida também está aí? Peço desculpas a Pessoa, em qualquer caso, por esta imprudente intromissão num mundo que, com certeza, quis sempre preservar para si.
Depende de nós intrometer-nos…


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