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Pablo Fernández: “O reintegracionismo não é uma visão nostálgica do que deveria ser o galego autêntico, mas uma estratégia racional de promoção de uma língua em crise”

Pablo Fernández-Vázquez não é galego nem tem laços familiares com a Galiza mas foi uma ligação familiar a que o levou a se interessar polo nosso país e a nossa língua. Uma estadia em Valência também ajudou a fazer as ligações precisas. Investigador de Ciência Política, pesquisa porque a corrupção rende eleitoralmente.

A primeira caraterística que surpreenderá à comunidade leitora do PGL, é que o novo sócio da AGAL não é de nenhum país lusófono mas madrileno e, no entanto, tem uma ligação com a Galiza.

Efetivamente, sou madrileno e não tive sequer a oportunidade de viver na Galiza. Não obstante, sempre tive muita curiosidade pelas línguas espanholas diferentes do castelhano. Em relação com o galego, já desde faz anos lembro conversas com um bom amigo de Ourense sobre as diferenças entre o galego normativo, o lusismo, e o reintegracionismo.

Mais importante desde um ponto de vista pessoal foi conhecer o português trasmontano através dos meus sogros, que são de Chaves. Dada a cercania de Chaves com Galiza é razoável pensar que, sem a presença dominante do castelhano, o galego hoje em dia seria muito parecido ao que é o português de Depois de-Vos-Montes.

Quando visitas a Galiza, como interpretas os “galegos” que encontras?

Comparando entre o galego que se escuta na TVG e o português trasmontano chama-me muito a atenção que o galego oficial se castelhanizasse tanto. Tanto é assim que os meus sogros, quando escutam Rádio Galega, acham que estão a escutar castelhano e não uma variedade da sua própria língua. Por esta razão subscrevo a ideia de que o galego dos meios oficiais, na dinâmica atual, se está a dissolver no castelhano.

Como sabes, existem duas estratégias para a língua galega, a autonómica (oficial) e a internacional (não oficial). Qual a tua visão de ambas na perspectiva de uma pessoa não galega?

O argumento de que a estratégia regionalista está condenada ao fracasso tem muito sentido. Só se investe em aprender uma língua se esta for útil. A dia de hoje, que incentivos tem um castelhano-falante que mora na Galiza em aprender bem o galego? Muito poucos, porque o castelhano serve-lhe para qualquer propósito e o galego apresenta-se como uma língua que não tem valor para além da Comunidade Autónoma.
Ainda pior, entre as pessoas que têm o galego como língua nativa, existem poucos incentivos à cultivar, porque o galego se percebe como uma língua exclusivamente regional e subordinada ao castelhano.

Um caso muito parecido é o do valenciano. Como na Galiza, na Comunidade Valenciana tende a se perceber o valenciano como língua exclusivamente regional e de âmbito sobretudo rural. Por isso o castelhano-falantes das cidades não o cultivam, e inclusive aqueles que a têm como língua materna vão adotando progressivamente léxico castelhano porque entendem que é mais culto e apropriado. Isso o notei claramente, por exemplo, entre pessoas que vivem na zona da Albufera de Valência, uma zona tradicionalmente valenciano-falante.

Por esta razão estou de acordo com que a estratégia internacional é a mais exequível para fazer com que o galego sobreviva como língua independente do castelhano. Só na medida em que se perceba que o galego é uma língua útil, de dimensão e categoria similar ao castelhano, será possível convencer os falantes da língua, nativos ou potenciais, para a cultivar.

Pablo é investigador de ciência política na Universidade Carlos III de Madrid e a sua pesquisa envolve dous temas essencialmente. O primeiro é o impacto que a comunicação política opera sobre a cidadania. Será que esta acredita na classe política quando um partido anuncia uma mudança de posição política?

Exatamente. Minha pesquisa frisa que o objetivo das mensagens dos políticos é muitas vezes obter mais apoio eleitoral e nem sempre refletem a posição real do partido. Então eu coloco a hipótese de que os cidadãos são mais céticos das promessas e mensagens que podem aumentar a popularidade do partido. A evidência empírica aponta nessa direção.

A segunda linha de investigação incide numa das grandes perguntas que nos fazemos como animais políticos: por que a corrupção não castiga, eleitoralmente, a quem a comete?

A resposta que eu dou na minha pesquisa é que, em muitos casos, a corrupção política gera ganhos económicos de curto prazo. Isto é visto de forma especialmente clara em relação à bolha da habitação: construção desenfreada, grandes obras públicas … Os eleitores rejeitam a corrupção, mas são prontos a apoiar políticos corruptos que proporcionam maior bem-estar material.

Como conheceste a AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associação?

A razão pela qual conheci a AGAL é muito prosaica: foi depois de procurar no Google: reintegracionismo galicia. De todos os modos, o que me convenceu para me fazer sócio foi ver um vídeo em Youtube sobre o livro O galego (im)possível. Foi nesse momento que entendi que o reintegracionismo não é uma visão nostálgica do que deveria ser o galego autêntico, mas uma estratégia racional de promoção de uma língua em crise.

Como se vive em Madrid, nos ambientes que conheces, o realidade plurilingue do Reino de Espanha? Pensas que houve um recuo ou um avanço no sentido de uma maior recetividade?

Por desgraça, em Madrid continua a se passar por alto que vários milhões de espanhóis têm uma língua materna que não é o castelhano. É uma pena que seja assim. A normalização linguística também passa por mudar “Madrid”.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2030?

Como um país onde o galego se viva como uma língua útil e com muito futuro.

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Conhecendo Pablo Fernández-Vázquez

Um sítio web: google.com

Um invento: a insulina (livro muito recomendável: The Discovery of Insulin, escrito por Michael Bliss)

Uma música:
“Fico assim sem você” de Adriana Calcanhotto

Um livro: “La fiesta del chivo” de Mario Vargas Llosa

Um facto histórico: A descoberta da prensa móvel

Um prato na mesa: rissóis de camarão

Um desporto: o futebol, sem dúvida

Um filme: “Un lugar en el mundo” de Adolfo Aristarain

Uma maravilha: ver entardecer na beira do mar olhando para poente

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