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O saci resgata nossa identidade, nossas raízes, o xis da questão tupi

José Carlos da Silva – O Brasil, com toda sua extensão e miscigenação possui uma mitologia muito rica e tão diversificada quanto sua música, literatura e outras manifestações culturais. Mas, as opiniões são unânimes quando se fala do SACI PERERÊ e da brasilidade que ele representa.

Ele é um menino de uma perna só, que fuma cachimbo, apesar disto não ser mais politicamente correto; e o que mais gosta é de fazer estripulias, como dar nós nas crinas dos cavalos, enganar as pessoas na mata, enfim, é um «muleque muito arteiro», como costuma dizer o caipira.

Existem algumas pessoas que dizem que criam sacis, muitas que já se depararam com ele e outras tantas que nem podem ouvir falar dele que fogem de medo.

O Portal Galego da Língua conversou sobre esse mito da cultura brasileira com dois importantes jornalistas, Jô Amado e Mouzar Benedito, que além de uma trajetória profissional de luta contra a ditadura militar e o imperialismo em todas as suas formas; fazem parte da Associação dos Observadores de Saci – SOSACI, criada em julho de 2003 e sediada na pequena e bonita São Luiz do Paraitinga, em São Paulo.

Anualmente a SOSACI promove a festa «O grito do Saci», no dia 31 de outubro, como forma de resistência ao “raloim”, com atrações para todas as idades, como concertos musicais, oficinas de brinquedos, concurso de causos, passeio do saci entre outros.

E estão fazendo um movimento para que o Saci seja escolhido como mascote da Copa do Mundo de 2014.

 

Entrevista:

PGL –  Mouzar e Jô Amado,  nos falem uma pequena biografia, com profissão e a função desempenhada hoje  na SOSACI

Mouzar – Sou jornalista e geógrafo, e passei por dezenas de profissões, como engraxate, técnico em contabilidade, professor, balconista de boteco, caixeiro, calculista, pesquisador de cultura popular, técnico de ensino a distância etc. Fui jurado do Festival de Cachaça de Sabará (MG) e sou sócio-fundador da Sosaci – Sociedade dos Observadores de Saci, com sede em São Luiz do Paraitinga. Participo do “Conselho de Anciãos” da Sosaci. Este conselho é informal.

Jô Amado – A partir de certa idade, biografias devem ser evitadas… Mas, enfim, tenho 67 anos, estudei Matemática e Sociologia e, como aparentemente não me virava bem em nenhuma das duas, virei jornalista. Trabalho hoje para o Observatório da Imprensa. Na SOSACI, estou secretário.

PGL – Qual a origem do Saci? Indígena, Africano ou foi incorporado da cultura europeia na colonização?

Mouzar – O Saci surgiu entre os povos guaranis, era um curumim (menino índio) com duas pernas que ajudava, por exemplo, as pessoas perdidas na floresta. Demonizado pelos jesuítas, mais tarde ele foi assumido pelos negros e perdeu uma perna (teria sido escravizado e preso na senzala com grilhões em uma perna – uma noite cortou a perna e fugiu, preferiu ser perneta livre a “normal” com duas pernas) e mais tarde ganhou o gorrinho vermelho dos brancos. Esse gorrinho mágico existe em vários mitos europeus, faz parte da vestimenta de algumas regiões agrícolas de Portugal, e foi usado pelos republicanos da Revolução Francesa. Então, o Saci é uma síntese do brasileiro, formado pelos três grandes povos que nos formaram: indígenas, africanos e europeus. Só não tem o oriental, que chegou em massa ao Brasil no século XX, quando a figura do Saci estava completa.

Jô Amado – Como se sabe, em qualquer mitologia existem, sempre, versões. A origem do mito é Guarani (tanto assim que ele existe até hoje no Paraguai e na província de Misiones, argentina, com o nome de Yasí Yateré, de origem guarani, nome pelo qual é também conhecido no Mato Grosso do Sul), mas a partir daí passam a existir as versões. O mito original guarani era um curumim, com duas pernas e um rabo, arteiro e brincalhão como o tradicional Saci Pererê. Com a migração dos Guarani, o mito do Saci se fundiu com a cultura popular africana e, em conseqüência disso, elevirou um negrinho e ganhou um pito. Uma das versões afirma que ele perdeu uma perna lutando capoeira. A fusão com a cultura popular européia vem com a incorporação do pileo, um gorrinho vermelho que os romanos davam aos escravos libertos e que está também na cabeça de Marianne, na Revolução Francesa.

 

Mouzar por Satoru Takaeso

 

PGL – Na ata da fundação da SOSACI está escrito “Criada em São Luiz do Paraitinga, a SOSACI é uma ONC (Organização Não Capitalista) que reúne os interessados em valorizar e difundir a tradição oral, a cultura popular e infantil, os mitos e as lendas brasileiras.”
É uma Sociedade cultural revolucionária? Expliquem esta ONC para os leitores.

Mouzar – É uma entidade cultural contrária ao imperialismo cultural, à invasão cultural que traz embutida uma ideia de dominação. Respeita todas as culturas e todos os povos, mas é contra a dominação de uma cultura por outra.

Jô Amado – Não. O trocadilho é outro. Nos últimos 20 ou 25 anos, cresceu muito, no capitalismo brasileiro, a opção por serviços terceirizados – o que, em última instância, é bastante questionável na medida em que desobriga o Estado de atender aos direitos constitucionais do cidadão. Na esteira dessa terceirização, surgiu uma miríade de Organizações Não-Governamentais (ONGs) que, como se sabe, em sua grande maioria são entidades picaretas que se aproveitam dos projetos de terceirização do Estado para abocanhar generosas verbas, desviadas para fins pouco confessáveis. Ao nos definirmos como ONC, pretendíamos deixar claro que não é nosso objetivo tirar proveito ou lucro de um trabalho essencialmente cultural. Infelizmente, no entanto, boa parte de nossos associados entende que, como ONC, não precisamos de bufunfa, o que é um equívoco: para realizar os eventos que compõem nossa programação, temos que pagar aos participantes o transporte, alojamento, alimentação etc.

PGL – A televisão brasileira está repleta de enlatados previamente digeridos como: séries violentas, seriados importados, realities shows e tantos outros. Ainda há espaço para a brasilidade? Onde entra o SACI?

Mouzar – A televisão é capitalista… portanto vive de interesses que nem sempre correspondem aos do povo, à brasilidade etc. O Saci mina um pouco a sua programação consegue aparecer um pouquinho, sempre lúdico e crítico, mas é um processo longo.

Jô Amado – Inicialmente, a SOSACI procurou se afirmar como uma sociedade que pretendia “valorizar e difundir a tradição oral, a cultura popular e infantil, os mitos e as lendas brasileiras”, como você mesmo citou. E nesse início, a SOSACI rebentou a boca do balão: no primeiro 31 de outubro (2003), compareceram à festa, em São Luiz do Paraitinga, quatro redes de televisão (Cultura, Record, SBT e Vanguarda, então afiliada da Globo), três jornais nacionais (Estadão, Globo e Folha), várias rádios e jornais da região do Vale do Paraíba, a Reuters e a Associated Press. Depois de um ano, fizemos uma avaliação e concluímos que se quiséssemos manter o espaço para a cultura popular teríamos que redirecionar nossas metas imediatas – de contrário, ao invés de termos a mídia a nosso reboque, ficaríamos a reboque da mídia. Decidimos, por exemplo, que um maior ênfase deveria ser dado à questão da educação – um de nossos objetivos é inserir o estudo da mitologia brasileira na rede pública de ensino. Começamos a estudar mais profundamente a origem do caipira – principal difusor do mito do Saci Perêrê –, primeiro brasileiro, e promovemos um seminário da Cultura Caipira (este ano será o terceiro).

PGL – O Saci, a Iara, o Boto, o Curupira, a Cuca, o Boitatá e nos demais entes do folclore brasileiro resistirão à abóbora do raloim?

Mouzar – Acho que eles não só sobreviverão como crescerão. A aceitação de todos eles é crescente.

Jô Amado – Acredito que, pelo menos em grande parte, isso depende de nosso sucesso em envolver entidades vinculadas à divulgação e difusão da cultura popular e da mitologia brasileira. A força do raloim é, essencialmente, econômica: depois do natal, o raloim é a festa que alcança maior arrecadação comercial nos Estados Unidos. O grave, no entanto, é as escolas de ensino fundamental (privadas e públicas) aderirem ao raloim sem conhecimento, inclusive do mito celta, que nada tinha a ver com lucratividade comercial.

 

Jô Amado e Maya Johnson


PGL – Em 2006, um grupo de franceses declarou que “O Halloween está praticamente enterrado”. Quando diremos o mesmo aqui no Brasil ?

Mouzar – Aqui temos muita gente mais submissa, com a cabeça já feita pelos gringos, gente que inveja os gringos, por isso vai demorar.

Jô Amado – Olha, otimismo é sempre bom. Não sei se o raloim está “praticamente enterrado” na França. Eles quiseram, por exemplo, fazer um movimento contra a entrada do McDonald’s na França e atualmente, bem perto da Rádio Televisão Francesa, na praça Trocadéro, em Paris, tem uma “Brasserie Mc’Donald’s”… Brasserie, imegine!

PGL – A SOSACI tem algum projeto voltado às escolas, principalmente das grandes cidades, cada vez mais distantes das manifestações rurais e do folclore?

Jô Amado – Vou deixar essa pergunta para o Mouzar porque como ele vive em São Paulo tem mais conhecimento da coisa do que eu. Sei que, anos atrás, tentou-se fazer um projeto com os Centro de Educação Unificada – CEUs que se chamava “Saci no CEU”…

Mouzar – Nós não temos nenhuma estrutura para interferir de modo decisivo na realidade, nos governos, nas escolas, mas divulgamos as nossas ideias, fazemos muitas palestras, passamos o documentário “Somos todos Sacys” e participamos de muitas discussões.

PGL – Quais são os eventos da SOSACI e onde acontecem?

Mouzar – Eventos fixos são o “Dia do Saci e seus amigos”, em 31 de outubro, e uma assembleia anual, em julho, em São Luiz do Paraitinga. Fora isso, lançamos livros, já participamos de várias festas em cidades do interior e de outros estados (acabo de chegar de uma festa do Saci em Angra dos Reis) e teve um ano em que organizamos atividades o ano todo com a Biblioteca Monteiro Lobato, em São Paulo.

Jô Amado – Há diversos e em lugares distintos. Em São Luiz do Paraitinga, além da Festa do Saci e Seus Amigos, este ano em sua sétima edição, temos o já citado Seminário da Cultura Caipira e várias outras “aparições” pontuais do Saci, em geral envolvendo música e contação de histórias. Em Jaú, no estado de São Paulo, teve este ano o I Fórum Estadual do Saci. E em Vitória (ES) e Fortaleza (CE), cidades em que o Dia do Saci também já é oficial, sempre há eventos comemorativos.

 

 

PGL – Como está o andamento do projeto de lei que institui o Dia do Saci (31 de outubro em contraposição ao “Dia das Bruxas” estadunidense)

Mouzar – O projeto já tinha passado pela Comissão de Constituição e Justiça, mas foi engavetado. O deputado Aldo Rebelo, um dos autores da proposta, quando foi presidente da Câmara ficou receoso de ser hostilizado pela imprensa e não tocou o projeto pra frente.

Jô Amado – Mas o projeto continua tramitando. Neste meio tempo, entretanto, o Sérgio Mamberti, do Ministério da Cultura e da Funarte, mostrou particular interesse com a questão da valorização da mitologia e está se empenhando para fazer o tombamento do Saci como parte do patrimônio imaterial brasileiro.

 

O PGL agradece a generosidade e bom humor dos dois jornalistas.

 

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Nota do editor – Algumas “traduções” importantes:

– arteiro = na fala do caipira significa travesso, ardiloso

– causo = história contada pelo caipira, herança do falar português colonial.

– bufunfa = dinheiro

– raloim = modo caipira (e correto) de falar halloween no Brasil.

 

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