O que é que entendo eu por galego/a, por nacionalidade e cidadania?

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Por José Manuel Nunes

Hoje alguém me formulou essa questão. O que é que entendo eu por galego? É simples. Qualquer dicionário em galego crioulo ou em língua espanhola terá como primeiro significado gentilício da Galiza. Ora bem, o nosso país é um nome, Galiza, ou é algo mais? Levar o letreiro galego, galega, alemão, alemã, bretão, bretã, polaco, polaca, etc., é apenas o título que alguém apanha por nascer e nem sequer morar numa geografia ou noutra? É próprio dos povos célticos respostarmos com outra interrogante. Não podia ser doutro jeito. É necessário matizar significados para poder perceber qualquer orientação, pois não? Galego é para mim aquela pessoa que, além de ter nascido na Galiza ou não, identifica-se com a idiossincrasia nativa, sendo, pois, conhecedor, praticante e defensor da mesma.  Alguém que nasceu num determinado lugar mas que, pelo motivo que for, não conhece nenhum elemento cultural da sua terra natal é apenas um bilhete de identidade com um gentilício que não lhe corresponde segundo ele fala, canta, come ou vive. Acho que com isto respondo ao que eu entendo por galego.

Uma pessoa como Mariano Rajoy Brey, candidato à presidência do Estado espanhol pela direita, não se pode considerar galego pelo fato de ter nascido em Compostela. O tempo que morou na Galiza viveu em espanhol, espanhol como língua doméstica, de seus pais, do jornal, da televisão, da rádio, dos rótulos de qualquer loja, do código de circulação, da listagem da compra, do serviço técnico do telefone, da fatura da eletricidade, do manual de instruções do novo reprodutor de vídeo, das revistas sensacionalistas da sala de espera na consulta de odontologia, da bíblia que toda família reacionária guarda na mesa de noite… O contato mais substancial com a língua nativa foi, se calhar, no intercambio de saúdos com algum “rústico” ou aldeão próximo.

– Sim, mas.., pronto, somos galegos mas também espanhóis –  Continuou esse alguém que me pergunta pelo significado de galego, de galega.  Pois é, isso põe o bilhete de identidade, pois não? E ainda bem que não matiza pela graça de deus como era habitual em tempos do fascismo espanhol. Eu entendo que esse estigma é apenas a cidadania. Bom, e o que é que entendo por cidadania? Cidadania é um atributo político, não cultural. Exponho, pois, o seguinte exemplo. Se a França ocupasse novamente o Estado espanhol e desta vez com sucesso, os espanhóis seriam franceses, mas unicamente como cidadãos enquanto não aprendessem a falar corretamente o francês e a absorver os valores culturais do império franco. Não teriam demorado em aparecer aqueles que se identificam com seus seqüestradores, caminho de imitar as elites governantes com a esperança de fazer parte das mesmas.  Neste endereço, aquelas cidades mais povoadas e com maior atividade econômica e industrial seriam as primeiras em afrancesar-se.

E a nacionalidade? Espanha é uma nação? E a Galiza? As culturas, ao meu julgar, são em grande medida subsidiarias do que em origem foram, mas as interferências de políticas de caráter expansionista submetem às mesmas a profundas transformações. Bom, aqui muitas pessoas consideram que esse processo de mutação é algo natural, alheio à vontade do indivíduo.  Eu discrepo. Considero que o efeito borboleta existe. Certamente a sociedade é algo racional e irracional ao mesmo tempo e que seu percurso depende da vontade abstrata da comunidade de indivíduos que a conformam, mas o que uma pessoa faz, dum modo ou doutro, vai influir no agir de terceiros.  A Galiza não seria a mesma sem um Bloco Nacionalista Galego, sem um discurso de Beiras. Não seria também a mesma sem as letras de Castelão ou de Rosalia de Castro, ou de Manuel Maria, não é? E se Castelão tivesse agido calar, guardar-se os seus pensamentos?

Pronto, com todo isto o que quero dizer é que esse processo de alienação cultural dos povos submetidos aos grandes Estados não é algo indiferente do agir de cada individuo. Depende em grande medida do mesmo, da língua que ele usa habitualmente, de cada escolha que faz a cada instante. Cada um de nós é na sua medida responsável da sociedade na que habita, da sua sociedade. Então recuemos ao fio temático. Galiza é uma nação!  Alguém o duvida? Não estou a perguntar se gostam disso ou não, se estão conformes ou não. Estou a perguntar se alguém duvida que a Galiza seja uma identidade idiossincrática suficientemente forte como para ser denominada nação.  Esta é a palavra clave, nação, não Estado. Pois uma é de natureza cultural enquanto a outra é de natureza judicial. Ora bem, não posse faltar aquele que diz isso de “mas não é que as nações nascem no século XX?”. É aqui onde há que explicar a principal função da linguagem, matizar significados. Um indígena americano pode passar toda a sua vida sem perceber que onde ele mora é um continente. As identidades culturais próprias responsáveis da diversidade de povos existiam mesmo antes de serem chamadas de nações.

Poder-se-ia dizer que os povos existiam ainda quando os indivíduos que as integravam não tinham consciência de si próprios como tal. No entanto, acho que isto nunca foi mui habitual. Os Saxões, os Alamanos, os Catos ou os Bávaros, entre outros povos germânicos, reconheciam uma identidade comum ainda quando eram e são de tribos diferentes e, por tanto, bem diferentes idiossincraticamente dos eslavos ou dos latinos. No século XX, pois, é quando se abre o grande debate do que é nação.  Com anterioridade expressei uma diferença substancial quanto à nação e ao Estado. Sendo, então, que o Estado é uma faculdade organizativa que atende a critérios políticos, é perfeitamente compreensível a existência de Estados plurinacionais como é o caso do que é chamado de Reino da Espanha onde a Galiza, Euskadi ou a Catalunya  são povos de seu e não meras variedades diaculturais do espanhol. São, sim, povos de Espanha quanto a que são propriedades do Estado espanhol, mas não são identitariamente espanholas.

A Galiza não faz parte duma nacionalidade espanhola porque além de ser diferente quanto à língua, também a é quanto a substratos e superstratos culturais. A Galiza foi celta, romana e sueva enquanto a Espanha profunda foi ibera, romana e visigoda. Gastronomia, superstições, arquitetura, artes, música e folclore experimentam maior grão de independência do que seriam meras variedades do panispanismo causadas pela distância. É, pois, que digo que ser galego é mais do que nascer ou morar na Galiza, que cidadania é um atributo político, e que a nacionalidade galega é ainda manifesta, aliás, todos os esforços de homogeneização cultural que os poderes espanhóis  promovem desde muito antigo.

Máis de José Manuel Nunes