PGL – No sertão nordestino, o cangaceiro Lampião desafia Dom Quixote de La Mancha para uma disputa. Este inusitado encontro, jamais imaginado por Cervantes mas muito comum na literatura de cordel, está no livro O Duelo de Lampião e Dom Quixote, do escritor e jornalista Francisco Cunha.
O Portal Galego da Língua conversou com o autor sobre a o cordel em prosa, como está sendo classificado seu livro, influências do Movimento Armorial de Ariano Suassuna, Acordo Ortográfico entre outros.
O Duelo de Lampião e Dom Quixote é uma obra que merece ser conhecida, principalmente se o leitor estiver ouvindo o Luis Gonzaga, o Rei do Baião.
Por isso o PGL promove um concurso cultural para que os leitores conheçam e se deliciem com o livro. Veja o regulamento e participe.
PGL – O que o inspirou a escrever O Duelo de Lampião e Dom Quixote?
FC – Acho que a ideia de ficcionar um dos personagens mais famosos do Nordeste se sobrepôs ao aspecto documental da história recente do cangaço. E pela inserção de Lampião no imaginário nordestino, encontrei em Dom Quixote um paralelo gracioso capaz de emprestar a conotação dos romances de cordel.
Depois, o gosto pela cultura popular aliado à experiência a serviço do Banco do Nordeste, durante cerca de dois anos na região do Alto Sertão Alagoano, precisamente em Mata Grande, considerado um dos redutos de Lampião e onde mataram os pais dele. Uma região que envolve as cidades de Paulo Afonso (BA), Delmiro Gouveia (AL), Piranhas (AL), Canindé do S. Francisco (SE), além dos sertões de Cabrobó (PE) e Raso da Catarina (BA), e onde ainda é possível ouvir relatos de fontes vivas. Depois, a vontade de resgatar fatos marcantes dos nossos sertões, a partir de uma visão mais direta, ainda que pintada com certa aura de fantasia, própria da gente interiorana.
E assim como os historiadores de fora costumam dar à sua versão um caráter supostamente oficial, muitas vezes com carga ideológica minimizando ou desviando a interpretação dos fatos, tomei os ideais do Movimento Armorial como forma de construir uma ficção a partir de uma base popular capaz de dialogar com o pensamento clássico da literatura e seus personagens famosos.
PGL – Sua obra confronta dois mitos, um regional Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, e outro universal Dom Quixote de La Mancha. Em sua opinião, o cangaceiro Lampião também apresenta traços universais ou é uma forma de subverter a “ordem literária estabelecida”?
FC – Talvez haja, embora não seja proposital, uma nota de subversão literária se considerarmos a importância de Dom Quixote na literatura universal, com todo o requinte de erudição, própria do gênio de Cervantes, merecedor do devido respeito. E isso construído há mais de quatrocentos anos. Mas não podemos esquecer que os nossos cordéis nordestinos de origem ibérica também nascem do mesmo gênero literário, dito “picaresco”, que inspirou Cervantes, a partir das histórias populares e fantásticas de cavalaria medieval. Lampião é um personagem recente da nossa história e literatura, com perfil exótico nas atitudes, na indumentária, no espírito aventureiro. E assim como Dom Quixote, guarda sim traços universais. Basta ver que tornou-se, precocemente, um mito regional e talvez nacional. Qual o nordestino que não tem ou gostaria de ter um pouco da ousadia de Lampião? A coragem, a astúcia, o sangue festeiro e o sentimento estético da tragédia estavam a serviço da honra, num determinado contesto de sobrevivência. E quanto à violência, o que diriam dos requintes de violência cometida pelos heróis gregos?
Portanto, se parecer absurdo colocar, lado a lado, Lampião e Dom Quixote, o livro certamente atinge seu verdadeiro propósito, qual seja o de construir um bom disparate, à maneira do desafio cordelesco.
PGL – Seu livro foi classificado como “cordel em prosa”, está correta esta conceituação? (Explique como é um cordel em prosa)
FC – Longe de uma conceituação, trata-se de uma analogia. Tradicionalmente o cordel contém uma narrativa fantasiosa que traz algo irônico e satírico. A metrificação e sobretudo a rima por meio dos versos tornaram-se códigos de memorização e entretenimento dos poetas populares, em especial.
A analogia “cordel em prosa” se dá pelo fato de carregar a mesma pulsação narrativa, de forma inversa, sem os recursos tradicionais dos folhetins romanescos. De modo que, na contemporaneidade, a própria poesia moderna caminha mais solta. E se na literatura erudita se tem o “poema em prosa”, o mesmo conceito, se assim podemos chamar, poderia ser aplicado na literatura popular ou mesmo “picaresca”.
PGL – Quais as influências que o senhor recebeu do Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna?
FC – A principal influência é o ‘Romance da Pedra do Reino’ e o ‘Auto da Compadecida’. A obra de Suassuna é um apelo à nossa sensibilidade mais genuína, lá das raízes. A sua linguagem artística, como a de outros escritores como Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Raquel de Queiroz, toca a nossa alma primordial, a partir dos tipos, das imagens, dos sentimentos, enfim, da poética nordestina, sendo a Região, historicamente, o berço da cultura brasileira. Mas essa tese encontra resistência em vários segmentos sociais e intelectuais. Acho que o Movimento Armorial é uma afirmação da nossa cultura a partir de suas origens, daí a minha afinidade com essa linha de pensamento.
Por outro lado, tem a grande influência da xilogravura e dos cordéis nordestina que dão origem a diversas manifestações culturais, por meio das danças, do teatro, da cantoria e dos contadores de histórias, entre outras expressões populares.
Capa do livro O Duelo do Lampião e Dom Quixote
PGL – Como seu livro foi recebido pelo público e pela crítica? (Além do Ceará, o livro alcançou as livrarias de outros estados brasileiros?)
FC – Acho que superou as expectativas, pois gerou minha participação em vários programas televisivos (quatro); matéria em jornais (Ceará e Piauí), além de inserções em outras mídias locais e internet. Mas o que me impressionou mesmo foi a boa recepção por parte do público considerado mais exigente do ponto de vista intelectual, como professores, escritores, poetas, etc. Pena que a distribuição esteja reduzida ao Ceará, ainda por falta de uma articulação estratégica voltada para o mercado editorial. Provavelmente isso será repensado, até para atender a demanda que chega de outros estados, buscando aquisição do livro.
PGL – Em sua opinião como é possível internacionalizar as manifestações culturais brasileiras, tão ricas e diversas, sem cairmos na “folclorização” desta cultura?
FC – Acho que nossa tarefa enquanto militantes literários é construirmos e afirmarmos nossa identidade, não deixando que ninguém venha fazer isso por nós. Temos mesmo é que arregaçar as mangas. Assim como nosso Câmara Cascudo entendia e relutava, o termo folclorizar carrega algo de superficial que subvaloriza, e isso é vulgarização. Entendo que nossa identidade deve ter mesmo raiz popular, mas tem que se afirmar e buscar valores universais, a partir de um aprofundamento de análise livre de preconceitos. Este é o desafio de um país ainda muito jovem e rico como o nosso.
PGL – Como escritor e jornalista, como o senhor recebeu o Acordo Ortográfico?
FC – Toda mudança no início incomoda, mas entendo que seja perfeitamente justificável pelo aperfeiçoamento e uso da nossa Língua. Certamente estamos enfrentando o período de adaptação. Daqui há pouco, entra no sangue como as mudanças que antecederam. E tudo volta ao normal.
PGL – O senhor está trabalhando em um novo livro? Quais são seus planos editoriais?
FC – Sim. Acho que a realização de um livro deixa sempre alguns “galhos” que vão ficando para um outro projeto. O novo trabalho que já iniciei busca reconstruir, em forma de ficção, outros mitos regionais resgatando o contexto de fatos que vão-se perdendo da nossa memória coletiva, e que foram consolidados por versões às vezes unilateral e preconceituosa. A proposta tem como pano de fundo a Guerra de Canudos e os movimentos sociais que a acompanharam. Ainda não tenho previsão de concluir e pretendo escrever com toda a paixão que o tema requer.
Sobre o autor
Francisco das Chagas Cunha Filho, formado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará, e especialização em Comunicação e Mídia Contemporânea. Atualmente, trabalho como jornalista da Área de Comunicação do Banco do Nordeste.
+ Ligações relacionadas:

