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O absurdo do racismo e antissemitismo no filme “O velho e a criança”

José Paz Rodrigues (*) – Prosseguindo com os filmes apropriados para comemorar a jornada escolar da paz e a não-violência, escolhi desta vez um lindo filme em que, além de mostrar o grande labor educativo que muitas vezes desenvolvem com os seus netos os avós, com grande delicadeza se apresenta o absurdo e sem sentido que é o racismo e o antissemitismo no relacionamento entre os seres humanos.

Reconhecido por Truffaut como um dos melhores filmes sobre a ocupação nazi da França, «O velho e a criança» marca uma fulminante estreia para o jovem cineasta Claude Berri, a sua primeira longa-metragem e, possivelmente, o seu melhor filme. Baseando-se nas suas próprias experiências da guerra, Berri habilmente narra um conto emocionante sobre a amizade entre um velho e um menino, passada na França, durante os dias mais sombrios da Segunda Guerra Mundial. É uma obra muito simples, mas muito eficaz, verdadeiramente comovente, e sem qualquer sentimentalismo exagerado como o que viria a estragar alguns dos seus filmes posteriores.

 

Apesar de ter sido rodado mais de vinte anos depois do fim da guerra, foi o primeiro filme francês a abordar a questão embaraçosa do antissemitismo de frente, e fá-lo com uma extraordinária sensibilidade e compaixão, para não falar do enorme sentido do humor. Ao nos mostrar o absurdo do preconceito e da intolerância a partir da perspetiva de uma criança, ele permanece como um dos filmes mais poderosos e envolventes sobre o racismo. O trabalho como ator do lendário Michel Simon, no papel do velho idoso, é portentoso, e o relacionamento na tela entre ele e o seu adorável coprotagonista, Alain Cohen, como o rapaz, são pura magia. O filme é em grande parte autobiográfico, inspirado em experiências reais do diretor galo de origem judaica.

 

Ficha Técnica do filme:

Título original: Le viel homme et l´enfant (O velho e a criança / El viejo y el niño).

Diretor: Claude Berri (França, 1967, 85 min., Preto e Branco).

Roteiro: Gérard Brach, Michel Rivelin e C. Berri. Produtora: Valor A. Renn.

Música: Georges Delerue. Fotografia: Jean Penzer.

Atores: Michel Simon (o velho Pépé), Alain Cohen (O rapaz judeu Claude), Charles Denner, Luce Fabiole, Roger Carel, Paul Préboist, Jacqueline Rouillard, Aline Bertrand, Zorica Lozic, Sylvine Delannoy.

Prémios: Melhor ator para Michel Simon no Festival de Cinema de Berlim em 1967.

Argumento: Estamos no ano 1943, com a França sob ocupação nazi no regime de Vichy. Um casal judeu que mora em Paris decide enviar o seu filho Claude, para viver no interior do país, onde espera que ele fique fora de perigo. O rapaz é colocado sob a tutela dos pais católicos, Pépé e Memé, de uma amiga da família. O velho simpatiza imediatamente com a criança de 9 anos de idade e ensina-lhe o seu ideal antissemita, não percebendo que é um judeu. A família do menino vivia sob constante perigo de ser identificada: são judeus, algo que Claude não compreende muito bem. Na fazenda rural onde agora se encontra, o rapaz começa a desbrochar para a vida, e o velho Pépé, graças à sua companhia, volta a sentir-se vivo. A relação dos dous é transbordante de afeição, e de lições profundas sobre o absurdo do racismo.

 

 

Subtil parábola contra o racismo:

O filme mostra o relacionamento entre as pessoas com tanta sutileza que deixa no ar inúmeros pontos de reflexão. O principal, porém, é mesmo a falta de importância que tem o conceito de raça. Os seres humanos, expressa com as imagens o diretor, são um só e podem entender-se apesar das diferenças religiosas (o rapaz, para não mostrar que é judeu aprende a rezar o «Pai Nosso»), culturais (para agradar ao velho, vegetariano, recusa comer o pato temperado com mostarda), de idade, sexo ou cor (o velho, ao ver seu povo festejar a libertação polos chamados «aliados», diz: «Ontem foram os alemães, hoje são os negros americanos que estão na França»). Acontece que Pépé é daqueles antissemitas que odeiam os judeus por razões atávicas. Ele explica ao rapaz que a raiz de todos os problemas da França tem como origem esses seres conhecidos por seus narizes curvos como ganchos, por cheirarem mal e por seus pés chatos. «Reconheço um judeu de longe», diz Pépé ao rapaz fascinado pola sua conversa. O certo é que este velho simpático admira o marechal Pétain na mesma proporção que odeia os «bolchevistas».

A história que contra o racismo o diretor conta, sem espalhafatos nem pesados discursos de didatismo excessivo, é sensacional. A trama é manejada com profundidade humana, e o modo de desmontar os preconceitos revela-se sumamente inteligente, através do bom fundo do velho e do encanto que desprende o rapaz judeu. As conversas entre ambos são excelentes sobre os judeus, onde o velho tem claríssimo que o seu «neto» de nenhuma maneira poderia ser judeu, e que os traços que a criança tem (cabelo encaracolado, orelhas grandes, nariz ganchudo, pés planos…), embora lembrem os do estereótipo semita, não significam que seja judeu; um modo, ao igual que a elementar lembrança de que Jesus era judeu, de incidir no ridículo do sentimento antissemita. O filme, além disso, está atravessado de momentos amáveis e divertidos (a comida do coelho, a festa no campo, a infantil declaração de amor…), o que não impede mostrar também apontamentos dramáticos: a despedida inicial dos pais do rapaz, as mensagens que se escutam na rádio, o cartaz que ameaça com fuzilar franceses civis ou tratar temas como a crueldade infantil, mais cruel por ser ela cega.

É exemplar a forma como no filme se trata um tema tão delicado e queimado como é o antissemitismo. Às vezes parece que nos esquecemos de que não todos os que apoiaram a persecução judia eram autênticos malfeitores de olhar duro e sem coração. Por muito duro que seja reconhecê-lo, o antissemitismo é algo que existiu sempre desde tempos imemoriais e que às vezes aflora inclusive em pessoas tão entranháveis como a do velho protagonista. O diretor, acertadamente, apresenta a história com uma absoluta imparcialidade, sem recriar-se em elementos melodramáticos ou situações forçadas. Pépé é uma personagem que mesmo cai bem ao espetador até o ponto de que os seus contínuos discursos antissemitas por vezes resultam-nos, apesar do seu conteúdo, simpáticos. Não podemos evitar simpatizar com ele, que cuida o seu cão como se fosse seu filho, que brinca com a criança com tanta ternura e que, surpresivamente, é vegetariano porque acredita que é anti-humano devorar os seres vivos. O que não deixa de contrastar com o seu desprezo e ódio que parece sentir não só pelos judeus, como também pelos mações e comunistas.

A história está levada de uma maneira que não cai no moralismo, e prova de que é assim é que o velho nunca chegará a saber que o rapaz a que tanto adora é judeu. Seria o desenlace mais previsível, mas os responsáveis do roteiro não querem isto e que o velho aprenda a lição da tolerância. O que querem é que simplesmente contemplemos o seu relacionamento com a criança, que sejamos testemunhas do vínculo íntimo que se estabelece entre ambos, sabendo nós a verdade. O dilema moral está colocado não para o velho, mas sim para os que olham o filme, os espetadores. Por isso, a interpretação de Simon no papel do velho é magistral, pois consegue que o vejamos como uma pessoa real de carne e osso. Assim o filme funciona muito bem. Mesmo o que faz o papel de rapaz atua com grande naturalidade, apesar da sua idade, fazendo, o que não é nada fácil, ao ser este o seu primeiro trabalho de ator, que como criança nos seja crível. Faz da sua personagem algo muito interessante também, pois ao não conhecer os seus pensamentos e ser totalmente inocente, chega a um ponto em que não sabemos se acredita nos discursos do velho sobre os judeus ou se simplesmente lhe segue a corrente. Sobre este tema é muito curiosa aquela cena em que diz que teve um pesadelo porque sonhou que era judeu.

A realização do diretor galo, ajudada por uma formosa fotografia e uma música deliciosa, resulta de uma pureza e uma delicadeza especiais. As cenas das brincadeiras e jogos no campo são de grande beleza e autenticidade. Uns pequenos momentos, que parecem interessar muito ao realizador, sabendo retratar a harmonia em que vivem as personagens, uma harmonia sob a qual se esconde algo terrível, embora não pareça, e inclusive embora nem sequer se nos mostre diretamente. O resultado é uma pequena verdadeira joia a reivindicar. Em que o velho, como um bom avô, odeia os semitas, mas, como todos os ódios raciais, só se fundamenta em falatórios e ideias pré-concebidas que bem pouco sustento oferecem a qualquer hierarquização racial ou cultural que se tente. O certo é que o essencial para viver é querer e que nos queiram, pois o amor é o melhor remédio para neutralizar os preconceitos.

Mas o tema de fundo desta obra-mestra cinematográfica não deixa de ser grave, apesar do amável de muitas das anedotas que enriquecem a narração. Mostra a sem razão do racismo, um sentimento inoculado na sociedade de maneira artificial, por ser alheio à verdadeira natureza dos indivíduos que a compõem. A questão é que o velho protagonista é um convencido antissemita, enquanto labrego ignorante que foi vítima da propaganda nazi. Os traços judeus do rapaz a que cuida, não o impedem de se afeiçoar a ele, o que evidencia que as aparentes causas da xenofobia são falsas. Não cabe dúvida de que o facto de que desconheça a origem étnica do rapaz ajuda, mas tampouco há de fazer nada por averiguá-lo.

 

 

Temas para debater e refletir:

– Depois de ver o filme, organizar um cinema-fórum para debater com esta técnica de dinâmica de grupos, entre todos, as diferentes cenas e a psicologia das personagens.

– Procurar na Internet documentação sobre as sucessivas persecuções históricas do povo judeu, até a da segunda guerra. Identificar as ideias racistas que estão por detrás do terrível holocausto, quem as sustentaram e os catastróficos efeitos das mesmas. Elaborar depois um mural e/ou monografia com desenhos e redações dos alunos.

– Depois de organizar um «Turbilhão de ideias», na aula com os alunos, elaborar como resultado um informe com as propostas que foram feitas para conseguir criar entre os rapazes e jovens atitudes positivas para eliminar na sociedade o racismo, que quase sempre está latente.

– Se tivermos alunos nas aulas de vários países, culturas, etnias e religiões, procurar organizar atividades artísticas e lúdicas que ajudem a criar uma integração real na aula e fora da aula, na procura de uma irmandade entre todos, sem o menor sectarismo.

 

(*) Académico da AGLP, didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.

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