Nelson Pereira dos Santos, importante cineasta brasileiro



nelson-pereira-dos-santos-foto-1Dentro da série que estou a dedicar às mais importantes personalidades da Lusofonia, onde a nossa língua internacional tem uma presença destacada, e, por sorte, está presente em mais de doze países, sendo oficial em oito, dedico o presente depoimento, que faz o número 153 da série geral que iniciei com Sócrates, a um muito importante cineasta e também académico brasileiro. Estou a falar de Nelson Pereira dos Santos nascido em São Paulo a 22 de outubro de 1928, e falecido no Rio de Janeiro em 21 de abril de 2018. Deste grande cineasta foram projetados na cidade de Ourense no seu dia três dos seus importantes filmes: nas primeiras Jornadas do Cinema em janeiro de 1973, o intitulado Vidas secas; num dos ciclos de cinema sobre o livro e a leitura organizado na década dos noventa pelo Cine Clube Minho da ASPGP, Memórias do cárcere e, em novembro de 1996, no primeiro Festival de Cinema de Ourense (OUFF) o intitulado A terceira margem do rio. Os dous primeiros citados baseados em obras literárias do grande escritor Graciliano Ramos, e o terceiro na obra do mesmo título de Guimarães Rosa. Com este depoimento, a ele dedicado, completo o número quarenta e um da série lusófona.

PEQUENA BIOGRAFIA

Nascido em São Paulo em 1928 é considerado um dos mais importantes e inovadores cineastas do país. Formou-se em Direito e estudou cinema no Institut de Hautes Études Cinématographiques em Paris. No final da década de 1940, passou a frequentar cineclubes e realizar curtas-metragens. Em 1953 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como jornalista a partir de 1957. Fez também assistência de direção, montagem, produção e trabalhou como ator.

Formou-se em Direito e estudou cinema no Institut de Hautes Études Cinématographiques em Paris. No final da década de 1940, passou a frequentar cineclubes e realizar curtas-metragens. Em 1953 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como jornalista a partir de 1957. Fez também assistência de direção, montagem, produção e trabalhou como ator.

Filho de um alfaiate e de uma dona-de-casa de origem italiana, Nelson Pereira dos Santos nasceu no bairro do Brás e foi criado no Bixiga, em São Paulo. No início dos anos 50, formou-se pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco na cidade paulista, embora já estava apaixonado pelo cinema. Escolheu então o Rio de Janeiro para morar e iniciou a trajetória que o tornaria um dos mais importantes precursores do movimento do Cinema Novo. Na sua formação destaca por ser bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Após uma viagem a Paris, fez o curta-metragem Juventude, um documentário em 16 mm. No ano seguinte estreou-se como assistente de direção no filme O Saci, de Rodolfo Nanni. Em 1955, aos 27 anos, lançou a sua longa-metragem Rio, 40 Graus, o primeiro de uma trilogia idealizada sobre a cidade à que passou a morar. Com a estreia em 1955 de este seu primeiro filme, é considerado um marco no movimento de renovação da cinematografia brasileira que receberia a denominação de “Cinema Novo”. Desde este momento, a preocupação social se tornaria um tema constante na obra de Nelson Pereira dos Santos. Rio, Zona Norte (1957), seu segundo filme, foi um fracasso de bilheteria, além de ter sido mal recebido pela crítica. Logo depois, produziu em São Paulo O Grande Momento, com direção de Roberto Santos.nelson-pereira-dos-santos-foto-0
Realizou mais de vinte filmes e também foi professor fundador do curso de cinema da Universidade de Brasília (o primeiro do Brasil). Lecionou ainda na Ucla (Universidade da Califórnia em Los Angeles) e na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Assim mesmo foi membro do Conselho Superior da Escola de Cinema de Havana. Durante 49 anos Nelson esteve casado com a antropóloga Laurita Andrade Sant’Anna dos Santos, que faleceu em junho de 1999. O casal chegou a ter três filhos, Nelson, Ney e Márcia, e cinco netos. Ney Santanna é cineasta, e Marcia Pereira dos Santos produtora. Com a sua outra esposa Ana Maria Magalhães teve um filho chamado Diogo Dahl, que é ator e também produtor cinematográfico. No dia 17 de julho de 2006, à idade de 77 anos, Pereira dos Santos foi no Brasil o primeiro cineasta a se tornar membro da Academia Brasileira de Letras, na cadeira número 7, cujo patrono era Castro Alves, que pertencia anteriormente a Sergio Correia da Costa.

Realizou mais de vinte filmes e também foi professor fundador do curso de cinema da Universidade de Brasília (o primeiro do Brasil). Lecionou ainda na Ucla (Universidade da Califórnia em Los Angeles) e na Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Assim mesmo foi membro do Conselho Superior da Escola de Cinema de Havana.

A trajetória de Nelson Pereira dos Santos se estendeu por vários estilos ao longo de sua carreira, alternando temáticas urbanas e rurais. A experimentação não naturalista foi adotada pelo diretor, que em alguns momentos afastou-se da marca do neorrealismo presente nos seus dous primeiros filmes. Dirigiu, no início da década de 1960, o filme Mandacaru Vermelho, e em 1962 realizou o filme Boca de Ouro, baseado em peça homônima escrita em 1958 por Nelson Rodrigues. Em 1970 dirigiu Como era gostoso o meu francês, baseado nas aventuras de Hans Staden, prisioneiro dos Tupinambás no litoral vicentino do Brasil colonial, em cartas e relatórios dos cronistas da colonização, e em trabalhos de cientistas sociais e historiadores contemporâneos.
Nas décadas de 1970 e 1980, realizou quatro filmes que figuram como reflexões sobre a cultura popular brasileira. O Amuleto de Ogum, de 1974, enfatiza os ritos da umbanda. Tenda dos Milagres (1975) e Jubiabá (1986), adaptações dos livros homônimas de Jorge Amado, são dramas sociais filmados na Bahia que têm como tema a miscigenação, a religiosidade, a moral e a construção da nacionalidade brasileira. E finalmente, A Estrada da Vida, de 1979, analisa a cultura brasileira pelo universo da música sertaneja.nelson-pereira-dos-santos-foto-rodando
Merecem destaque nesta trajetória suas duas adaptações da obra de Graciliano Ramos, Vidas Secas, de 1963, e Memórias do Cárcere, de 1984. O primeiro aborda a condição social e moral do homem brasileiro pela luta de uma família sem-terra que enfrenta a seca e a opressão socioeconômica para sobreviver. Memórias do Cárcere retrata o famoso escritor injustamente preso pela polícia durante o governo de Getúlio Vargas, sem qualquer processo ou culpa formada. Continua a dirigir filmes durante a década de 1990, tendo realizado A terceira margem de rio (1993) e Cinema de lágrimas (1995). Nelson Pereira dos Santos tornou-se professor de Técnica Cinematográfica na Universidade de Brasília a partir de 1965. E anos mais tarde lecionou na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Foi também jornalista: em 1946 no Diário da Noite de São Paulo, em 1949 em O Tempo da mesma cidade; entre 1956 e 1958 no Diário Carioca do Rio de Janeiro, e de 1958 a 1968 no Jornal do Brasil do Rio.
Em 1986 e 1993 foi membro do júri do Festival de Veneza. E também fez parte em diversas edições dos júris dos festivais do Rio de Janeiro, Locarno (Suíça), Moscovo, Huelva, Paris, Gramado, Brasília, Berlim, Biarritz e Yamagata (Japão). Muitos dos seus filmes foram apresentados, e na maioria dos casos premiados, em numerosíssimos festivais do mundo. E em muitos deles foram realizadas mostras e retrospetivas da sua filmografia, como nos de Nantes, Cannes, Pesaro, Tashkent (Rússia), Havana, Rotterdam, Toronto, Verona, Nova Iorque, Boston, Munique, Califórnia, Tóquio, Lima, Guadalajara (México) e Los Angeles.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS E FILMES

A. Documentários
0. Entrevista com Nelson Pereira dos Santos (Resgate, 2004).
Duração: 59 minutos. Ano 2018.

1. Nelson Pereira dos Santos: Roda Viva 1999.
Duração: 87 minutos. Ano 2018.

2. Nelson Pereira dos Santos: Ocupação.
Duração: 16 minutos. Ano 2013.

3. Nelson Pereira dos Santos (1928-2018): Série Brasileiros e Militantes.
Duração: 24 minutos. Ano 2018.

4. Homenagem a Nelson Pereira dos Santos.
Duração: 28 minutos. Ano 2018.

5. Paraty: Ocupação N. Pereira dos Santos.
Duração: 15 minutos. Ano 2013. Produtora: Itaú Cultural.

6. Depoimento sobre Machado de Assis, por N. Pereira dos Santos.
Duração: 30 minutos. Ano 2016: Lugar: Academia Brasileira de Letras.

7. Cerimônia de posse como acadêmico da Academia Brasileira de Letras.
Duração: 127 minutos. Ano 2006.

8. N. Pereira dos Santos: O mentor do Cinema Novo.
Duração: 24 minutos. Ano 2019. Produtora TV Brasil. Pode-se ver aqui.

9. A literatura na obra de N. Pereira dos Santos: Entrevista.
Duração: 7 minutos. Ano 2014.

B. Filmes:
1. Rio, 40 graus (1955).
Duração: 92 minutos. Ano 2019.

2. Jubiabá (1987).
Duração: 107 minutos. Ano 2016. Baseado na obra de Jorge Amado.

3. Mandacaru vermelho (1961).
Duração: 85 minutos. Ano 2019.

4. Vidas secas (fragmento). Ano 1963.
Duração: 4 minutos. Ano 2016. Baseado na obra de Graciliano Ramos.

A SUA FILMOGRAFIA BÁSICA

a. Longa-metragens
-Rio, 40 graus (1955).
-Rio, zona Norte (1957).
-Mandacaru vermelho (1961).
-Boca de ouro (1962).
-Vidas secas (1963).
-O justiceiro (1966).
-Fome de amor (1967- 68).
-Azyllo muito louco (1969).
-Como era gostoso o meu francês (1970).
-Quem é Beta? (1972).
-Amuleto de Ogum (1974).
-Tenda dos milagres (1975–76).
-Estrada da vida (1981).
-Memórias do cárcere (1984).
-Jubiabá (1987).nelson-pereira-dos-santos-capa-dvd-memorias-do-carcere
-A terceira margem do rio (1994).
-Cinema de lágrimas (1995).
-Meu compadre Zé Ketti (2001).
-Raízes do Brasil (Uma cinebiografia de Sergio Buarque de Hollanda) (2003).
-Brasília 18 % (2006).
-A música segundo Tom Jobim (2011).
-A luz do Tom (2013).

b. Para TV
-Mundo mágico (1983).
-Na passarela do samba (1984).
-Capiba (1984).
-Eu sou o samba (1985).
-Bahia de todos os santos (1985).
-Casa Grande: Senzala (2001–02).
-Português, a língua do Brasil (2007).

c. Curta-metragens:
-Juventude (1949).
-Soldados do fogo (1958).
-Balé do Brasil (1962).
-Um môço de 74 anos (1963).
-Rio de Machado de Assis (1964).
-Cruzada ABC (1966).
-Abastecimento, nova política (1968).
-Projeto Aripuanha (1974).
-Missa do Galo (1982).

Nota: É muito interessante consultar a página que lhe dedicou a Academia Brasileira de Letras, em que se recolhe a sua ampla filmografia, a participação em festivais cinematográficos do mundo e mesmo as condecorações e prémios que conseguiu ao longo da sua vida. Pode ser consultado tudo isto aqui.

COMENTÁRIOS SOBRE ALGUNS DOS SEUS FILMES

É interessante analisar, através de alguns comentários realizados por cinéfilos e amantes brasileiros do cinema, os conteúdos e a temática dos filmes mais importantes da filmografia de Pereira dos Santos. Aliás, muito valorizada a nível mundial, pois muitas das suas fitas foram projetadas em numerosos festivais cinematográficos celebrados por todo o planeta, e quase todas premiadas no seu momento.

nelson-pereira-dos-santos-foto-51. Como era gostoso o meu francês:

O filme Como era Gostoso o Meu Francês, realizado em 1970, pertence à fase do Cinema Novo Brasileiro. Num certo período da história colonial brasileira, ocorreu a formação da França Antártica num território do país, e esta foi uma possessão francesa nas terras da colônia portuguesa, com isso Portugal começou a combater essa invasão às suas terras coloniais brasileiras. Os portugueses prendem um aventureiro francês e jogam-no ao mar, mas ele não morre afogado, ele consegue chegar até à praia, porém, outra vez, não teve boa sorte, é feito escravo pelos portugueses e os tupinambãs (indígenas aliados de Portugal na luita contra os franceses). Então ocorre um ataque dos tamoios (tribo rival aos tupinambãs e aliada aos franceses) contra àquela guarnição, e todos são mortos, exceto o francês, que é tomado pelos tamoios como português, já que estava lutando junto com os portugueses; não adianta de nada ele falar que é francês, portanto, aliado dos tamoios, pois estes pensam e acreditam veemente que ele seja português, por causa de sua ajuda a aqueles e torna-se escravo dos tamoios. O filme mostra muito bem os costumes indígenas. Vale a pena ler textos do Romantismo brasileiro, que também mostram bem a cultura dos índios, como por exemplo: I-Juca-Pirama de Gonçalves Dias e O Guarani, Ubirajara e Iracema de José de Alencar, que com certeza serviram de base para o diretor realizar este filme. Inclusive no filme amostram-se treitos de alguns escritores da época colonial como o Padre Anchieta, Padre Manuel da Nóbrega, Hans Standen, Pero de Magalhães Gândavo e Gabriel Soares de Sousa, entre outros. O filme foi premiado com os prêmios ao melhor roteiro, melhor diálogo e melhor cenógrafo no Festival de Brasília de1971, entre outras premiações.

2. Vidas secas:

nelson-pereira-dos-santos-capa-dvd-vidas-secasVidas secas, filme realizado em 1963, é uma obra-prima do Cinema Novo Brasileiro como um todo e quiçá do mundo inteiro, um excelente filme de Pereira dos Santos, o líder da estética do Cinema Novo. Neste filme dá uma aula de direção, com uma fotografia memorável, de Luís Carlos Barreto, (que foi indicado ao Nelson, por ninguém menos que Glauber Rocha, outro líder do Cinema Novo), que, essa fotografia, mostra muito bem e de forma realística, a secura do sertão nordestino, ainda tem o detalhe maior que contribuiu para essa veracidade, foi o fato de as filmagens do filme serem em locações reais, no sertão da cidade alagoana de Minador do Negrão. O roteiro baseado num clássico da literatura brasileira, escrito pelo alagoano Graciliano Ramos, daí o fato de filmarem o filme em Alagoas, uma justa homenagem à terra natal de Graciliano, ficou, o roteiro, perfeito, adaptação formidável de um livro para o cinema. Várias cenas contemplativas, em puro silêncio, somente o barulho do vento, mostra Fabiano, Sinhá Vitória, seus dois filhos e a cadela Baleia migrando pelo sertão, fugindo da seca, tem uma cena antológica que é um plano de 10 minutos sem ninguém proferir uma palavra, sem trilha sonora (o filme todo não tem trilha sonora alguma, o que dá uma secura maior ao filme), só com o barulho do vento, para quê conversar, não é mesmo, se tudo é miséria e tristeza, o silêncio vale mais do que mil palavras. A desumanização das personagens humanas (Fabiano, Sinhá Vitória e os dois meninos), que mais parecem bichos, enquanto a cadela Baleia é humanizada, pois se mostra mais esperta, vivaz e inteligente que os seus donos, inclusive, é ela que alimenta a família, caçando bichos no mato, é uma caraterística forte do livro de Graciliano, que Pereira dos Santos soube passar para o filme. Maravilhoso amostra a realidade cruel que milhares de sertanejos vivem até hoje, o filme e o livro são do século XX, já estamos no século XXI, e nada mudou, por falta de interesse dos políticos em ajudar a resolver o problema da seca, ou pelo menos minimizá-lo, é a famosa “indústria eleitoreira da seca”. O filme é triste, mas amostra a realidade do nordeste brasileiro, e serve como crítica contundente, feroz e comovente aos que não fazem nada para ajudar. Uma verdadeira obra-de-arte!

3. Trilogia dedicada ao Rio de Janeiro:

Na trilogia dedicada à cidade de Rio de Janeiro, Pereira dos Santos amostra ser um dos maiores cineastas brasileiros de todos os tempos. Ele pretendia fazer uma trilogia sobre a vida cotidiana, sobre os fatos corriqueiros, da cidade do Rio de Janeiro, porém, acabou apenas filmando as duas primeiras partes, essa em questão, Rio, 40 Graus (de 1955) e, Rio, Zona Norte (de 1957), o terceiro filme da “trilogia carioca” ficou, até hoje, no papel; em Rio, 40 Graus contamos com a participação de um dos maiores atores do cinema brasileiro, Jece Valadão. O filme procura amostrar uma visão da cidade do Rio de Janeiro, por meio de cinco vendedores de amendoim, que partem do mesmo morro, para vender o amendoim em pontos diferentes da cidade, como por exemplo, Copacabana, Maracanã, etc.; amostrando o desenrolar de situações típicas, corriqueiras, do dia-a-dia da vida carioca. Um excelente filme sobre o panorama da Cidade Maravilhosa nos anos 50 do século passado!

4. Adaptações de obras de literatos do Brasil:

nelson-pereira-dos-santos-capa-livro-sobre-ele-em-portugues-1Nelson Pereira dos Santos sempre gostou de adaptar livros de mestres da literatura nacional para o cinema, foi assim com Memórias do Cárcere e Vidas Secas, ambos de Graciliano Ramos, também com Tenda dos Milagres e Jubiabá, ambos de Jorge Amado, transformou o conto O Alienista, de Machado de Assis num filme inesquecível, com um título sugestivo, Azzylo Muito Louco e, mais recentemente, em 1994, adaptou cinco contos de Guimarães Rosa para o cinema, o filme recebe o nome do conto (um dos mais importantes contos da literatura brasileira modernista) que serve de base e espinha dorsal do filme e é o ponto de partida para desenvolver além dele próprio, os outros quatro contos, ele se chama A Terceira Margem do Rio. Sempre é difícil adaptar um livro para o cinema, ainda mais se tratando de um conto tão enigmático como este, ainda mais em se tratando de um escritor, Guimarães Rosa, que tinha um jeito peculiar de usar a linguagem, sempre permeiada por vários neologismos e de difícil interpretação e, para dificultar ainda mais misturar o conto que dá título ao filme a mais quatro contos, é uma tarefa árdua, para não dizer impossível, mas que Nelson Pereira dos Santos soube administrar bem e criar um roteiro bom, que chama a atenção para o fato de um homem, que não tem mais nenhum sentido para continuar a viver, mas em vez de se matar, prefere se isolar do restante do mundo, numa canoa, no meio do rio, criando “a terceira margem do rio” e a partir daí os membros da família dele toma rumos diferentes, incluindo, abandonar o interior do país e ir viver na cidade grande. Destaque para a trilha sonora de Milton Nascimento e, para as atuações de Ilya São Paulo e dos grandes nomes do cinema brasileiro, Jofre Soares, Chico Díaz e Afonso Braza.

5. Jubiabá:

nelson-pereira-dos-santos-foto-00Um filme menor da filmografia de Nelson Pereira dos Santos, Jubiabá, baseia-se no romance homônimo de Jorge Amado, que amostra, tanto o filme de Nelson, quanto o livro de Amado: a vida nos morros e favelas, a vida dos negros e sua religião candomblé, mas sempre com sincretismo religioso, a vida e trabalho do estivadores no cais, em sua maioria, negros ou mulatos, mostrando aqui a discriminação racial enraizada na sociedade brasileira, pois os negros só servem para trabalho braçal, pelo menos é o que amostra o filme, e aí está uma crítica de Nelson e Amado, amostra também a luita pelos direitos dos trabalhadores (movimento sindical), por meio de uma greve que parou a cidade, mostrando, inclusive, os ditos sindicalistas que eram para defender os direitos de seus colegas, mas ficam do lado dos chefes burgueses deles, em troca de benefícios pessoais e individuais, enfim, um filme e livro que reflita a realidade brasileira. Em termos de enredo, temos um órfão negro, que é criado por uma tia, que enlouquece e tem que ser internada no manicômio, então o garoto sai do morro e vai morar sobre os cuidados e proteção de um comendador, na casa deste, porém é expulso daí, pois se envolve amorosamente com a filha do comendador, o que ressalta mais uma vez o racismo, pois ele é negro e a menina, e a família dela, é branca. O garoto vai viver entre os malandros e se torna um e, por sinal, um dos mais conhecidos, cheio de amantes atrás dele, mas o coração continua apaixonado por Lindinalva. O final do filme é comovente!; mesmo não sendo o melhor de Nelson Pereira dos Santos, é melhor que muito filme besteirol dos dias atuais! Com atuações destacadas de Zezé Motta, Betty Faria e Grande Otelo, como o pai-de-santo Jubiabá, conselheiro e protetor do jovem órfão negro, que se tornou o maior malandro da cidade.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários e filmes citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Nelson Pereira dos Santos, um dos mais importantes cineastas do Cinema Novo brasileiro, e também membro da Academia Brasileira de Letras do Rio de Janeiro. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros, monografias e DVDs.
Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Ciclo de Cinema composto de 7 filmes realizados por Pereira dos Santos. Os mais interessantes para escolher e projetar são Vidas secas (1963), Memórias do cárcere (1984), Rio, 40 graus (1955), Jubiabá (1987), Tenda dos milagres (1977), Fome de amor (1968) e A Terceira Margem do rio (1994). Em cada sessão fazemos uma apresentação detalhada do filme e mantemos um colóquio ao final, em que participem tanto estudantes como docentes do nosso centro educativo.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

Latest posts by José Paz Rodrigues (see all)


PUBLICIDADE

  • Jose Carlos Silva

    Nelson Pereira dos Santos foi um atento leitor do quotidiano brasileiro, tanto de sua riqueza como de suas injustas diferenças sociais. Grande cineasta e pensador do Brasil!