Nee Barros: “Se queremos chegar a novos públicos, devemos experimentar com novos formatos”



neeumatiko-youtubeirasNee Barros é ourensano mas logo rumou para Marim e depois para Ponte Vedra onde conseguiu instalar-se no galego. O cicerone para o lado escuro da língua foi Jon Amil, comandante em chefe da Estrela da Morte. Escritor, adoraria que a linguagem nom-binária fosse normalizada. Nom vê umha estratégia para sociabilizar a nossa língua por parte dos organismos oficiais. Gostava que o estatuto do galego fosse inclusivo e tivesse duas normas oficiais.


O Nee nasceu em Ourense, mas já em criança foi morar para Marim. Com quinze anos decides tornar-te galego-falante a tempo completo. Como foi o processo de mudança? Quais foram os obstáculos e as alegrias?

Quando fum estudar o bacharelato de artes a Ponte Vedra, aproveitei para me fazer galegofalante ao completo. Já o tentara em Marim, após me dar conta de que, se eu falava castelhano, era por motivos de imposiçom; mas o ambiente hostil dum colégio religioso tornara-o impossível. Mudar de cidade foi para mim mudar de língua, de gentes, do jeito em que era percebido e começar a viver plenamente. Continuárom os obstáculos, mas sou feliz podendo expressar-me como quero, na língua que sinto como minha apesar de nom ser na que me educarom.

 

Recentemente mudaste a tua forma de conceber a língua. Como chegaste a esse porto? Quais foram as motivaçons?

Muito tivo que ver nisto o Jon Amil, gestor da conta de @emgalego em Twitter. Já havia tempo que me chamava a atençom a norma reintegrada, mas nunca lera muito sobre ela. Ter um lugar em redes sociais onde aprender, que resolvia dúvidas e sempre estava aí quando o precisava ajudou muito na minha formaçom. Após ter lido sobre o tema, entendim que só mudando o jeito de escrever o galego podemos entender-nos com toda a lusofonia. Além disso, penso que por motivos históricos também é mais lógico empregarmos a normativa reintegrada. Em geral, defendo o binormativismo, que ambas as normas estejam aceitadas oficialmente.

 

És escritor e acabas de autopublicar um livro em que já empregas o galego internacional. Que nos podes contar a esse respeito?

Sim, 19 poemas para um VÍRUS-19. Foi um livro que escrevim desafiando as classificaçons, os moldes e queixando-me de todo um pouco. Estou a vendê-lo em 19poemas.gal e na livraria Lila de Lilith, e foi mui bonito o processo de autopublicaçom. Permitiu-me que os textos fossem em reintegrado, linguagem nom-binária e mais fiéis a como foram escritos num começo. Som como vómitos plasmados no papel. De todos os jeitos, tivem que pedir ajuda com a correçom linguística, da qual se encarregou o Jon Amil.

 

Além da escrita, fás música e teatro. Tens algum projeto que nos podas avançar?

Acabo de publicar um livro com a Editorial Galaxia, Identidade. A normalidade do non-común, que escrevera com 14 anos. Trata sobre a realidade trans e é umha obra de teatro acessível para público juvenil. Agora estou tentando movê-la polas escolas, para visibilizar a diversidade. Além disso, continuo com o meu grupo Froalla e escrevendo, espero poder continuar também publicando.

 

Acabo de publicar um livro com a Editorial Galaxia, Identidade. A normalidade do non-común, que escrevera com 14 anos. Trata sobre a realidade trans e é umha obra de teatro acessível para público juvenil. Agora estou tentando movê-la polas escolas, para visibilizar a diversidade.

 

Geres um canal na YouTube sobre literatura na nossa língua. Como valorizas a presença do galego e do reintegracionismo nas redes? É umha das áreas importantes para a progressom social de ambos?

Por sorte, cada vez há mais conteúdos da Galiza em galego nas redes, cousa que considero fundamental para a normalizaçom do nosso idioma. A comunidade de youtubeires é um exemplo claro, ou o galitwitter. Se umha língua está normalizada, deve ter presença em todos os ámbitos; e se queremos chegar a novos públicos, devemos experimentar com novos formatos: as redes som um dos pilares mais importantes. Ainda resta muito por trabalhar no reintegracionismo, devemos criar conteúdos para dá-lo a conhecer, difundir a nossa escolha (já que muitas vezes nas aulas e em multitude de sítios é invisibilizada) e divulgá-la de jeito acessível, sem cairmos num excessivo academicismo.

Ainda resta muito por trabalhar no reintegracionismo, devemos criar conteúdos para dá-lo a conhecer, difundir a nossa escolha (já que muitas vezes nas aulas e em multitude de sítios é invisibilizada) e divulgá-la de jeito acessível, sem cairmos num excessivo academicismo.

Porque decidiste navegar no navio agálico? O que esperas do trabalho da associaçom?

Para participar mais ativamente na defensa da nossa língua, para apoiar a associaçom de referência do reintegracionismo e para colaborar em visibilizar a nossa escolha. Penso que resta muito por luitar, por reivindicar; termos um lugar desde onde fazê-lo unides é mui importante. Espero poder ajudar neste projeto, aprender (sempre resta muito por aprender) e colaborar na divulgaçom.

Em 2021 somamos 40 anos de oficialidade do galego. Como valorarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?

Ainda que o facto de ser umha língua oficial na Galiza ajudou no seu status, sou mui cétique. As cifras de falantes cada vez vam para pior, e nom vemos umha estratégia clara nem efetiva por parte de organismos oficiais. Penso que deveríamos revisar porque algumas iniciativas nom funcionam, ou nom som suficientes. De todos os modos, nom todo é negativo, e como comentei antes, cada vez temos acesso a mais conteúdos da Galiza em galego.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2050?

Gostaria que o galego estivesse normalizado, com as duas normas aceitadas e ês falantes recorrendo a conteúdos doutros países da lusofonia quando nom os encontrem na Galiza (e nom sempre recorrendo ao castelhano). Também adoraria que a linguagem nom-binária, o pronome elu, fosse normalizada; mas todo isto som desejos. Agora temos que trabalhar para que sejam realidade.

Conhecendo Nee Barros:

Um sítio web: https://medium.com/guia-para-linguagem-neutra-pt-br/guia-para-linguagem-neutra-pt-br-f6d88311f92b

Um invento: o género (mas nom gosto dele)

umha música: Que prea! – Malandrómeda

Um livro: Raclette – Santiago Cortegoso

Um facto histórico: Guerra aos Emus

Um prato na mesa: fajitas

Um desporto: de risco? Vicente

Um filme: Dhogs

umha maravilha: as bibliotecas

Além de galegue: queixinhas

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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