José Paz Rodrigues (*) – Desde há anos, cada 14 de fevereiro, se celebra o Dia Mundial dos Namorados, e no calendário católico é S. Valentim. Desde as aulas e as escolas podemos dar-lhe um verdadeiro senso, se trabalharmos o tema com habilidade e sensibilidade. Porque o certo é que não pode haver vida se não há amor.
E este tema é tão importante que em todas as culturas, já desde a pré-história, era um assunto central, tão vital, que nas culturas orientais, e mais tarde na greco-latina, existiam as deusas e deuses do amor, que todo o mundo adorava. Mesmo a nossa festa popular dos «Maios», a mais formosa e de senso mais profundo de todas as do ciclo anual, tal como muito bem dizia Ben-Cho-Shei, é a «festa do amor» por excelência. Nascida já em finais do paleolítico, teve muita importância no neolítico e mais tarde em todas as culturas antigas.
A deusa do amor existia na cultura egípcia, e chamava-se «Astarté». Em Assíria era a deusa «Istar» e em Babilónia «Milita». Na Grécia denominava-se «Afrodita» e em Roma «Venus». Na Índia, com um riquíssimo ciclo de festas tradicionais durante todo o ano, o deus do amor é «Krishno», e a sua namorada tem por nome «Radha». Na maior parte dos casos se representam em imagens e esculturas os dous juntos. Como tem que ser, pois ambos, por igual, são necessários para que exista primeiro amor e a seguir a vida. E assim não teríamos que fechar definitivamente o mundo.
O maior e mais lindo templo hinduísta dedicado ao amor e, portanto, ao deus «Krishno», está em Mathura, uma bonita localidade que se encontra a uns trinta quilómetros aproximadamente do maior e mais formoso monumento que existe no mundo dedicado ao amor, que é o Taj-Mahal, na cidade de Agra. Em Mathura o melhor negócio que existe são os salões e hotéis para as bodas, pois todos os indianos que podem, com poder adquisitivo, vão casar ali, um lugar tão sagrado para o amor.
Naturalmente, ao ensinar este tema a crianças e jovens, há que adaptar-se à sua idade evolutiva. E escapar do que em parte encerra a festividade (igual que outras como a do dia do pai ou da mãe), que é o seu interesse comercial dos típicos regalos. Embora não seja tão mau que os namorados, casados ou ainda noivos, se ofereçam mutuamente algum objeto para lembrança, e também demonstração do amor entre ambos. Igualmente nas aulas é conveniente refletir entre todos do absurdo que foi, e em alguns casos ainda o é, o puritanismo apresentado sobre este tema polas religiões mais reacionárias, e na época britânica da rainha Vitória.
Por outro lado, toda uma imensa hipocrisia, que há que desvendar aos estudantes. Existem muitos filmes que tocam este tema dentro da filmografia mundial. No entanto, para mim, este que escolhi é modelar e de uma sensibilidade extraordinária. Sendo o protagonista, ademais, um mestre na China rural, na época de Mao. O qual, quando chega à aldeia para se fazer cargo da escola, se encontra com uma linda moça que quase ao instante se apaixona por ele e mais tarde o amor termina por ser recíproco.
Ficha técnica do filme:
Título original: Wo De Fu Qin Mu Qin (O caminho para casa / El camino a casa).
Diretor: Zhang Yimou (China, 1999, 89 min., a cores e a preto e branco).
Roteiro: Shi Bao, baseado no seu próprio romance.
Música: Bao San. Fotografia: Yong Hou.
Produtora: Guangxi Film. Distribuidora: Columbia Pictures.
Atores: Zhang Ziyi, Li Bin, Hao Zheng, Sun Hong-Lei, Zhao Yulian, Chang Guifa, Sung Wencheng, Liu Qi, Ji Bo, Zhang Zhongxi.
Prémios: Urso de Prata no Festival de Berlim de 2000 e prémio do júri no mesmo festival. Prémio do público internacional no Festival de Sundance de 2001.
Argumento: Yuscheng, homem de negócios numa cidade do norte da China, regressa à sua casa paterna, na aldeia de Sanhetun, junto às montanhas para o funeral de seu pai, o mestre do povo. A sua mãe Di, insiste para que se cumpra a tradição local de carregar o caixão desde uma cidade próxima, onde o seu marido faleceu, até à pequena aldeia, para que ele não se esqueça do caminho até o local onde deu aulas durante 40 anos.
Enquanto Di tenta persuadir o filho, embarcamos numa viagem pelas suas memórias, até 1958, quando Luo Changyu, com 20 anos, chega à aldeia para assumir o posto de mestre da pequena escola primária e conhece a moça Zhao Di, dous anos mais nova, a sua futura esposa. Na formosa história da sua família, contada através de «flashbacks», ademais de redescobrir suas raízes, relembra-se a paixão amorosa de seus pais, o primeiro casal a se casar por amor num lugar onde os casamentos arranjados eram a tradição.
Uma bela história de amor contada com sutileza e originalidade:
«Estamos perante uma comovedora história de amor, sem ênfase, nem afetação, nem artifícios, nem batotices. Com a grandiosa naturalidade, singeleza, poder de comunicação e intensidade que carateriza o lirismo autêntico, o retrato do amor e a paixão sem disfarces nem máscaras», comentava acertadamente o crítico Carlos Boyero quando a estreia do filme nas telas dos cinemas. Sem dúvida é este um filme esplêndido, singelo e encantador, que cativa os espectadores. O primeiro que nos atinge ao olhá-lo é a sua bela fotografia, que começa a preto e branco, passa para a cor e regressa ao preto e branco para o epílogo, numa inversão do que é mais natural vermos no cinema, quando se quer apresentar «flashbacks» (voltas atrás no tempo).
Na fita, a cor é usada nas cenas dos anos 50 e o preto e branco no tempo atual. Podemos intuir que o preto e branco se ajusta à velhice, ao período de luto, e as cores deslumbrantes à juventude, ao início da felicidade e do amor. Com o jogo das cores que utiliza o diretor chinês pode concluir-se que se adequa ao modo como as diversas emoções se expressam na tela ao longo da pequena história que se vai contando, na China rural de um determinado momento histórico.
O grande cineasta Yimou escolheu uma bela história de amor. Acertadamente, pois todo o mundo um dia já se apaixonou, ou gostaria de se ter apaixonado. Assim o filme conta quase desde o início com a adesão prévia dos espectadores, que vem da idealização do grande amor, aquele que atravessa décadas incólume e só se encerra com a morte de um dos parceiros. Um dos protagonistas da história, Luo Yusheng, que é quem no-la conta, porque seu pai faleceu, chega à sua aldeia de origem. Neste momento, com imagens tristes e paisagem nevada, usa-se o preto e branco. Depois, com o amor entre seu pai, o mestre da aldeia, e sua mãe, as imagens passam a ser alegres, utilizando a cor deslumbrante e de suntuoso visual que é uma das marcas registadas de Yimou e do seu cinema.
Entrelinhas podemos ver uma crítica às mudanças operadas nesse grande e imenso país que é a China. O apego às tradições está em via de desaparecer na época moderna atual. A mãe quer manter no enterro o ritual tradicional, que é que o corpo do morto seja carregado por homens a pé, porque assim o finado não esquecerá o caminho da sua casa. Tentando resolver esse detalhe prático do enterro, Yusheng começará a rememorar a história de seus pais. Lembra também que o pai teve de passar dous anos sem ver a namorada, porque havia problemas políticos para responder, na cidade grande. Era o começo da revolução comunista no país, e o filme insinua que o pai seria um dissidente. Na escola onde ele leciona, há a inevitável foto de Mao na parede. Um salto no tempo, para a escola atual, e a foto desaparece.
Há outras sequências significativas espalhadas pelo filme. A longa cena da mãe, num tear antigo, fiando a mortalha de seu marido, que nos comove. A do artesão arranjando uma tigela partida, com pouco valor, mas inestimável, porque nela a namorada apaixonada servira de comer ao seu amado. A cena dura vários minutos, fazendo-a densa de significado, como se não existissem objetos «em si». Todos os objetos, em formosos planos de detalhe, estão impregnados de presença humana, tão mais comovedora quando se está falando da morte, e portanto da ausência. Mas também quando se fala do amor profundo e quase eterno.
Falando do filme, o crítico cinematográfico Mateo Cardiel, assinalava que este apresentava uma bela história de amor juvenil, uma obra de arte que nos demonstra quanto eloquentes podem chegar a ser os silêncios no cinema. Acrescenta que Yimou utilizou de maneira muito original os «flashbacks». As lembranças carregadas de paixão, amor e felicidade, são apresentadas a cores, com a luz e as cores da paisagem. A combinação da fotografia é perfeita, as cores vivas têm um significado, a iluminação do sol ao longo de todas as estações, e como o amor e o estado anímico influem em todo o anterior. Uma verdadeira maravilha visual que conta ademais com esplêndidos exteriores, nada desligados da história. As interpretações são também muito boas, sem as que tampouco se poderia ter expressado a relação amorosa baseada nos olhares, nos sorrisos e na presença trémula. Porque a timidez é o símbolo da inocência no amor, explorada aqui de forma muito romântica.
Temas para debater e refletir:
– Organizar um debate-papo com os alunos arredor da importância do amor na vida, ontem, hoje e amanhã. Tirando para fora todo o que de hipocrisia e puritanismo há arredor do mesmo.
– Elaborar um mural com desenhos e textos dos alunos sobre este tema. Idem com poemas amorosos próprios e de diferentes poetas. Aprender cantigas populares dedicadas ao amor e cantá-las. Colocar também no mural uma listagem de filmes importantes sobre o tema. Realizar alguma dramatização de uma cena amorosa de alguma obra teatral.
– Analisar a linguagem fílmica utilizada por Yimou no seu filme: uso do tempo e do espaço, recursos fílmicos, movimentos de câmara de rotação e deslocação, planos, música e fotografia. Comparar com outros diretores. Pode organizar-se para isto uma tertúlia entre todos ou um debate dirigido.
(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano



