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“Na Galiza saber do nosso passado é um trabalho enorme”

Carlos Velasco e Henrique Egea falam do livro "Todas mortas e (quase) esquecidas"



todas-mortas-e-quase-esquecidasNa história das nações, existe um acumular de figuras. O caso da Galiza não é excecional. Algumas ganharam destaque nos manuais escolares, nas estátuas e nas placas, bem como nos nomes das ruas. Mesmo assim, uma nação sem estado tem sempre uma grande dificuldade para divulgar as pessoas que protagonizam a sua história. Não é por acaso que no título deste livro, Todas mortas e (quase) esquecidas, a palavra quase surge, entre parênteses, para evidenciar que os saberes não são comuns, nem em quantidade nem em qualidade. Dous dos quatro autores do livro, Carlos Velasco e Henrique Egea, respondem as nossas perguntas.

O título diz tudo, pensará alguém, não diz nada, julgarão outros. O que nos quer dizer na verdade?

HG: Os títulos são brevíssimas condensações duma obra muito maior. É normal não serem muito eloquentes. Antes devem ser sugestivas e isso, acho, sim que o consegue. Além disso a questão do “esquecimento” é importante. Os mais velhos esquecemos que as novas gerações mal sabem quem foram certas personagens. Autoras, políticas, agentes económicos, artistas… que significaram muito para nós, mesmo porque quase não estavam nos telejornais, eram as nossas leituras, sei lá… ficam esquecidas mesmo desconhecidas. Em cada mudança geracional há uma perda de memória que nas sociedades colonizadas, como a nossa, pode significar o esquecimento total de aquelas que foram as nossas personagens, nossas por estarem na nossa vida ou por representarem o passado (idealizado ou não).

CV: A meu ver, está-nos a falar de um seleção de personagens relativamente pouco ou mal conhecidas polo público galego e que apresentam dimensões controversas por terem sido, quer mitificados, quer subvalorizados. O livro tenciona pôr a nu, até onde for possível, as luzes e sombras delas contribuindo desse jeito a construir uma imagem mais equilibrada que revele, na sua justa medida, o relevo que tiveram na edificação da nossa história.

Carlos Velasco: A meu ver, está-nos a falar de um seleção de personagens relativamente pouco ou mal conhecidas polo público galego e que apresentam dimensões controversas por terem sido, quer mitificados, quer subvalorizados.

Mesmo nas sociedades mais homogéneas é difícil todas as pessoas partilharem conhecimentos e desconhecimentos. Na Galiza em que medida sucede isto?

apresentacom-do-livro

Carlos Velasco e Henrique Egea com Xosé Luis Palllín durante a apresentação do livro.

HE: Pois acho que na Galiza a ausência sistematizada de memória coletiva em forma de materiais de secundária (uma história, um património da Galiza) mas também na infância com contos e tradições próprias (contos de mouras, animações sobre temas do nosso acerbo…) provoca um desconhecimento total para grandes setores da sociedade que não é galeguista, porque na Galiza saber do nosso passado é um trabalho enorme que pouca gente pode, quer ou sabe realizar.

CV: Pois suponho que numa medida semelhante ao de outras sociedades, se bem que conotada ao mesmo tempo pola negação de nós próprios a que a construção historiográfica da “nação espanhola” nos tem condenado.

O que ganha a sociedade galega recuperando a memória, reconhecendo?

carlos-velascoHE: Ao fio do que dixem antes, a memória do nosso, do Galego, do de todas as galegas e galegos (não apenas dos nacionalistas) colabora a criar uma sociedade consciente de si própria e das suas particularidades. Conhecermos o nosso passado singular, diferenciado da Espanha e dos estados que fora antes, com uma importância mundial propositadamente ignorada, não é suficiente para manter certa consciência de nós próprios mas é imprescindível.

CV: Ganha conhecer-se a si própria e valorizar-se. Nenhum povo que desconheça a sua história, que não saiba quem realmente é, será capaz de construir um projeto de futuro. Aqui, na Galiza, comprovamos este asserto na vida de cada dia.

Que personagens redescobriram ao criar este livro?

henrique-egeaHE: Em certa medida, todas. Procurar mostrar de forma diferente personagens do passado, mais ou menos remoto, é um exercício de análise e de síntese que descobre aspetos concretos pouco tratados, ignorados, não analisados e que, por vezes, nos assaltam das névoas do passado. Mas, para mim, tirar à luz uma mulher como Adosinda, “rainha consorte” no seu próprio reino, presente em toda a vida política do seu tempo durante 40 anos aproximadamente, foi a maior descoberta porque estava encoberta, silenciada.

CV: Praticamente todas. Em maior medida, é claro, aquelas que caem mais longe da minha especialização profissional como contemporaneísta. Mas, mesmo nas personagens que eu diretamente abordei achei agora dimensões que mal conhecia ou ignorava em absoluto. Nesse aspeto, a confeção do livro foi, como quase sempre, uma interessante aprendizagem.

Caso haja uma reedição, que personagens gostavam de acrescentar?

HE: Eu gostava dum segundo volume, mais do que reedição. Teve, já neste, a tentação de criar uma vida “ficcional” dum guerreiro castrejo mas não dei azos à ficção. Para mim, que me centrei na Antiguidade e na Idade Média (com alguma incursão na Moderna), acho em falta personagens do século XX e XXI: Ramón Piñeiro, Fraga Iribarne, Franqueira… personagens que fizeram o que hoje é a Galiza mais do que gostaríamos mas, tal vez, não estão muito esquecidos, ainda.

CV: Não é uma pergunta que possa responder agora às pressas. Preciso meditar. Na realidade há bastantes personagens masculinas e femininas merecedoras de serem acrescentadas. Contudo, não quero ser injusto mencionando umas em detrimento de outras. Já irão saindo.

O que vai encontrar a pessoa que se debruçar sobre Todas mortas e (quase) esquecidas?

HE: Vai dar um passeio polas vidas de personagens de tempos passados que servem como “imagem” da sociedade que deu em nós. Em muitos casos são apenas esboços de vidas complexas, cheias de vicissitudes, paixões, lutas e procuras. Alguns por falta de informação, outros por falta de espaço. Em todas as “biografias” alenta uma sociedade cheia de facetas, complexa, vital, mais autocentrada do que caberia esperar “num recanto onde nada nunca aconteceu de interesse” como pretendem fazer que acreditemos para que baixemos a crista. A galega foi sempre uma sociedade dinâmica e cheia de personagens capazes… infelizmente muitos optaram por trabalhar para o projeto que nos coloniza. Também dessas escolhas podemos aprender e retificar.

Henrique Egea: Vai dar um passeio polas vidas de personagens de tempos passados que servem como “imagem” da sociedade que deu em nós. Em muitos casos são apenas esboços de vidas complexas, cheias de vicissitudes, paixões, lutas e procuras.

 

CV: Encontrará, como antes disse, dimensões relativamente ocultas (ou alvo de interpretações confusas) em muitas das personagens aqui tratadas. Também poderá descobrir, ou no seu caso confirmar, que o povo galego contou sempre com filhos e filhas (tanto nas elites quanto na gente do comum) capazes de imaginar e construir competentemente presente e futuro, contrariamente ao sentimento de impotência que tão amiúdo se nos pretende inocular.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

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  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    O livro como toda obra de divulgação é breve no tratamento das personagens e os artigos são muito desiguais.

    Chamou-me muito a atenção que muitos dos artigos estão dentro do esquema da história da historiografia espanhola, sei que é cousa não simples para quem procede da universidade espanhola sair de isso.
    E mais uma vez não há nenhuma referência a guerra terrorista padecida pola Galiza a maos de Castela entre 1476 e 1490, não se puder achar nenhuma personagem para esse período, é de assombro, já que é o momento fulcral da nossa história e o único com o que se pode explicar o presente

  • ernestovazquezsouza

    “Saber do nosso passado” não é um trabalho enorme. É um hobby como outro qualquer. A erudição per se não tem qualquer problema que não amanhe o tempo e os quartos

    A problemática está na ausência de “programa” histórico, de objetivo(político, social, académico), da narrativa da nação, construída académica, institucionalmente, financiada e popularizada pelos mass média e pelo sistema educativo. Sem essa estrutura que é a que garante o capital e o estado, essa pesquisa ou cai na onda do negócio digulgativo tipo “MUI-INTERESSANTE” ou é como botar tempos, esforços e quartos ao mar…

    Outra questão seria como socializar esse conhecimento histórico? mas e para que queremos socializá-lo, torná-lo comum e referente?