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Mouzar: «Nossos livros escolares e dicionários virarão papel velho»

José Carlos da Silva – Depois da entrevista sobre a SOSACI, publicada no dia 7 de setembro (coincidentemente dia da Independência do Brasil), onde foi conversado sobre mitos brasileiros, imperialismo cultural entre outros assuntos; o PGL fez uma nova entrevista com Mouzar Benedito.

O autor, recentemente lançou o livro “O tropeiro que não era aranha nem caranguejo“, contando a história de um homem da roça (campesino) que sonha com a vida de aventuras dos tropeiros e que inspirou uma série de concertos do Quarteto Pererê.

Nesta entrevista o autor fala sobre tropeiros, sua participação no famoso jornal Pasquim, acordo ortográfico e muitos outros temas, sempre com bom humor e «língua afiada». Acompanhe Mouzar Benedito:

 

PLG – “O tropeiro que não era aranha nem caranguejo” (Ed. Limiar) é seu 17º livro, como surgiu a história de Marcelino, o roceiro iludido com a vida de aventuras?

Mouzar – Meu pai era barbeiro em uma cidade de 2 mil habitantes, no Sul de Minas, na década de 1950, e eu comecei a trabalhar na barbearia como engraxate, em 1954, com 7 anos de idade. A barbearia, no centro da cidade, era ponto de encontro de homens que não tinham muito o que fazer e ficavam contando causos. Entre eles, havia muitos velhos ex-tropeiros, que mantiveram sua profissão na época em que se passa o romance (1927-32) e até depois.

Eu ouvia aquelas histórias todas e ficava pensando na vida de tropeiro… Há uns 30 anos comecei a pensar em fazer um romance sobre isso, mas só ia ruminando a idéia, até que por fim resolvi escrever, compondo o Marcelino com várias histórias que ouvi e inventando uma paixão pela recatada Ofélia, personagem inventada para dar sentido ao romance.

 

PGL – A função de tropeiro iniciou-se no Brasil Colônia e nas primeiras décadas do século XX já estava em desuso e o Caminho de Viamão, partindo do Sul do Brasil era o mais famoso. O que fez o mineiro Marcelino optar por essa profissão tão antiga e aparentemente distante das Minas Gerais?

Mouzar – O tropeirismo tinha acabado no sentido de levar mulas do Rio Grande do Sul para Sorocaba e de lá para Minas Gerais, mas permaneceu firme muito tempo com  a função de levar mercadorias (além de notícias e idéias) de uma região para outra em que não houvesse estradas de rodagem, ferrovias ou navegação. Em Nova Resende mesmo, minha terra, tinha muitos tropeiros no início do século XX.


PGL – Este livro foi escolhido no PAC – Programa de Apoio a Cultura – do governo do Estado de São Paulo. Sem este apoio o senhor conseguiria lançar este livro? Como o senhor analisa o mercado editorial brasileiro, que parece não gostar de enredos baseados na própria cultura nacional e valoriza demasiadamente os livros de auto ajuda ou de autores estrangeiros.

Mouzar – O livro foi escrito em 2002 e estava na gaveta, não tive “saco” pra correr atrás de editoras. As pequenas editoras têm muita dificuldade e as grandes são inacessíveis. Os grandes editores julgam-se importantes demais, é mais fácil marcar uma audiência com o papa do que com um deles. O mercado editorial é muito voltado para um tipo de literatura infantil bem infantilizado e livros esotéricos e de auto-ajuda, além de uma dominação por certas editoras.

Veja nas livrarias: os publicados por pequenas editoras não são expostos nos lugares procurados pelos leitores, aquelas bancas ou mesas em que os compradores pensam que ficam os melhores livros, os indicados por gente que entende. Mas são contratos entre editoras e livrarias. Pagam para expor os livros delas e também para publicar nas revistas mensais das redes de livraria em que indicam os pretensos melhores livros, na verdade qualquer um pode ser indicado nessas revistas, desde que a editora pague o preço cobrado pelos livreiros.

 

Mouzar por Satoru Takaeso

 

PGL – O livro inspirou o lançamento literário e show musical “TROPAS E CANÇÕES”, idealizado pela cantora Marcia Mah e o Quarteto Pererê. Como é a concepção desse espetáculo?

Mouzar – A cantora Márcia Mah e o pessoal do Quarteto Pererê leram o livro e ficaram imaginando os ritmos e estilos musicais que havia nos caminhos das tropas, conversaram muito sobre isso e resolveram montar o show. Não acompanhei as discussões, só vi o espetáculo pronto.

 

PGL – Qual a sua participação na elaboração do concerto?

Mouzar – Como respondi na pergunta anterior, não participei da discussão, só o meu livro é que serviu de inspiração.


PGL – O senhor participou ou colaborou nos principais jornais do Brasil, como o Pasquim, Brasil Mulher, Mulherio, Movimento, Brasil Agora, entre outros. Conte um pouco sua trajetória jornalística e como chegou ao Pasquim.

Mouzar – Eu tinha concluído o curso de Geografia na USP, em 1971, e passado dois anos no interior, numa época em que estava muito visado em São Paulo. Quando a poeira baixou, voltei para a Pauliceia e comecei a estudar chinês e tupi. Mas larguei para tentar fazer alguma coisa que permitisse alguma forma de militância contra a ditadura, numa época em que a luta armada tinha acabado e a imprensa alternativa crescia. Então fui estudar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Lá soube de um pessoal que estava querendo fundar o jornal Versus (não estudavam lá, já eram profissionais) e um amigo, Marcos Wilson, me pôs em contato com a turma liderada pelo Marcos Faerman.

Ajudei a fundar o jornal. Um dia, criei coragem pra escrever uma matéria e mandar pro Pasquim, temendo ser espinafrado na seção de cartas. Mandei pro Jaguar. E saiu uma página inteira com o material enviado por mim. Aí continuei. A imprensa alternativa começou a crescer, ter jornais em tudo quanto era lugar e freqüentemente me pediam colaboração. Eu topava. Qualquer publicação que fosse contra a ditadura tinha meu apoio. Assim, colaborei com vários jornais e ajudei também a fundar o Em Tempo.

 

 

PGL – Em sua opinião quais as conquistas da SOSACI ? (é o atual presidente?)

Mouzar – O atual presidente da Sosaci é o jornalista Robson Moreira. Em 6 anos de existência, acho que a Sosaci foi muito além do que prevíamos. A ideia de comemorar o “Dia do Saci e seus amigos” em 31 de outubro já é uma realidade em muitos lugares. Fora os lugares em que a comemoração foi oficializada -São Luiz do Paraitinga, São Paulo, Vitória, Pouso Alegre, Fortaleza, São José do Rio Preto e outras, incluindo Poços de Caldas e provavelmente Uberaba que oficializam este ano – em muitos lugares já existe essa comemoração informal. Hoje existem muitos livros infantis sobre o Saci e vários deles falam do 31 de outubro como Dia do Saci.

 

PGL – Qual a sua opinião sobre o Acordo Ortográfico?

Mouzar – Acho uma porcaria, um acordo que visa beneficiar editoras que produzem dicionários e livros didáticos, que terão que ser reimpressos aos milhões. Além disso, as bibliotecas escolares jogam fora ou queimam os livros com a ortografia “antiga”, porque segundo os pedagogos eles atrapalham o aprendizado, já que o professor ensina uma coisa e os livros são escritos de forma diferente. Fora o fato do trema, por exemplo, ser extremamente necessário do meu ponto de vista.

Num país em que muitos municípios não têm nenhuma biblioteca pública, vamos ter que reabastecer as bibliotecas que existem. Nossos dicionários também viraram, em certa medida, papel velho. Temos que comprar outros. Quantos bilhões de reais vão ser gastos nisso?

 

PGL – Como é possível acontecer uma maior aproximação e troca cultural entre os falantes da Língua Portuguesa, em especial a Galiza?

Mouzar – Acho que é plenamente inteligível tanto pelos falantes da língua portuguesa a escrita dos vários países que a falam, com seus vocabulários locais e estilos. O português do Brasil tem muitos milhares de palavras de origem tupi e elas não são incorporadas no falar do dia a dia dos outros locais, mas isso é enriquecedor e não castrador. Leio livros africanos e procuro saber mais sobre as palavras de origem tribal que não conheço.

Obrigado pela oportunidade, Zé Carlos.

Abraços a todos.

 

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