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Miguel Sanches Neto, desafinando o coro dos contemporâneos

José Carlos Silva – Nascido em 1965 numa pequena cidade de nome muito bonito, Bela Vista do Paraíso e com a infância passada na também pequena Peabiru, ambas no Estado do Paraná, Miguel Sanches Neto converteu-se em um dos mais importantes críticos literários.

Tem colaborações nas Revistas Bravo! Veja, Carta Capital e República, em jornais como O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde; é também um dos mais promissores escritores brasileiros da atualidade, tendo lançado em 2008 o romance A Primeira Mulher.

Doutor em Letras pela Universidade Estadual de Campinas (São Paulo), é professor-adjunto da Universidade Estadual de Ponta Grossa (Paraná) em Literatura Brasileira, porém, o autor se considera um «um ficcionista que dá aulas na universidade».

Nesta entrevista, Miguel Sanchez Neto fala de sua crítica e criação literárias, do acordo ortográfico, do reintegracionismo e do porque se considera um «autor periférico».

Confira:

PGL – O Sr. lançou em 2008 o livro A primeira mulher (Record 2008). Como o classifica: um romance policial, uma história de amor ou um romance filosófico?

Miguel Sanches Neto – Acho que é um romance contemporâneo, em que os vários elementos estão presentes, sem a preponderância de um deles. Uma das conquistas da atualidade em arte é a liberdade de transitar entre gêneros sem a menos desfaçatez. Isso permite que o escritor faça o que ele bem quiser. Não existem mais gêneros puros, tudo é contaminado. Em termos culturais, isto é muito bom.

PGL – Como é o seu processo de criação?

MSN – Eu só escrevo sobre aquilo que me atinge diretamente, e escrevo num estado de explosão criativa. Não posso escrever sobre coisas frias, que não me dizem respeito. E primeiro escrevo o livro interiormente, ou seja, vou pensando o livro antes de escrever. Este processo pode levar anos, Um amor anarquista, por exemplo, levou 10 anos. Mas quando me sento para escrever a coisa está pronta em minha cabeça. Daí começa um processo que tenho comparado ao download, trata-se apenas de baixar um arquivo. Pode ser mais ou menos demorado, dependendo do tamanho do documento, mas é um processo, digamos, mais ou menos instantâneo. A partir deste texto obtido assim, começa o verdadeiro trabalho literário, o da revisão, quando vou aparando arestas, corrigindo excessos. Neste momento, leio várias vezes o livro, algumas em voz alta, para pegar o tom do livro.

PGL – A atividade de professor de literatura na Universidade Estadual de Ponta Grossa (Paraná), interfere ou auxilia de alguma maneira a carreira literária?

MSN – Só do ponto de vista econômico. Pago minhas contas com meu salário de professor, o que acho uma coisa maravilhosa. Não preciso da produção literária para sobreviver, pois tenho uma carreira no magistério. Isso me permite escrever o que bem quero. Sem me preocupar com o mercado, com o que querem que o escritor escreva. Mas o grande desafio é não escrever a partir da condição de professor. Não sou um professor que escreve ficção. Sou um ficcionista que dá aulas na universidade.

PGL – E a atividade de crítico literário? É possível fazer uma crítica isenta de suas próprias obras?

MSN – Sou o meu crítico mais cruel. Ninguém que odeie o que eu escrevo vai ter uma avaliação mais ácida de minha produção do que eu mesmo. Treinei meu olho para ver defeitos. Sei ver defeitos nos outros, mas principalmente em mim. O problema é que alguns defeitos só são identificados depois que o livro já está impresso. Por isso evito me ler em formato livro.

PGL – Na página Rascunho (htpp://rascunho.rpc.com.br) está publicado seu “Decálogo”, com orientações para os autores iniciantes. Elas ainda tem validade ou o Sr. Incluiria/substituiria outras?

MSN – Aquele texto tem que ser lido cum grano salis, não é um texto acadêmico, mas uma provocação. Eu tento mostrar que não devemos escrever para incomodar os amigos, os críticos, os escritores, que seriam os destinatários de nossa produção juvenil. Escrevemos porque não estamos contentes com o que somos. Escrevemos antes para nós mesmos. Não mudaria nada daquele decálogo irônico.

PGL – Nas entrevistas para o sítio Digestivo Cultural o Sr. afirma que é um autor periférico, distante do campo do poder. No entanto é aclamado como um dos mais importantes críticos literários da atualidade e um dos mais promissores escritores da literatura brasileira contemporânea. Como pode explicar esse paradoxo?

MSN – Não há paradoxo. Sou periférico porque não circulo nos grupelhos literários. Vivo a minha vida, com minha família, com meus colegas de trabalho. E vou fazendo minha obra, que é assim independente. Sempre fui um franco-atirador, alguém que não pertence a ideologias, a estéticas, a ideais. É mais difícil fazer sucesso assim, mas antes do sucesso eu quero a integridade no que escrevo.

PGL – E como ser periférico em um mundo ligado pela internet e outros meios de comunicação?

MSN – A periferia não é um lugar onde você se coloca. Mas uma postura diante do mundo. Ser periférico é não pactuar com os donos do poder. Vivo no meu canto, literariamente falando. Não faço concessões ao estilo valorizado no momento. Se conquistei algum espaço foi por conta do meu trabalho. Tento me envolver o menos possível nas disputas literárias. Sou o morto da literatura brasileira.

PGL – Como autor e crítico, como o Sr. analisa o atual momento da literatura nacional e qual rumo ela está tomando?

MSN – Está tomando o rumo do mercado. Queremos sempre atingir grandes públicos. Isto é bom e é ruim. Bom porque nos coloca dentro de nosso tempo. Ruim porque nos tira do caminho a que estávamos destinados.

PGL – Para fechar este bloco sobre sua obra, uma frase sua me marcou profundamente que diz: “Ter renda para não se render”. É um antídoto contra as pressões mercadológicas dos livreiros e editoras?

MSN – Sim. É uma forma de independência. Escrevo sobre o que quero, da forma que eu quero, para quem eu quero. Tenho meu salário como professor, posso ser, na literatura, uma voz dissonante.

 

 

Acordo Ortográfico e Galiza

PGL – O Sr. participou da Antologia Poesia Brasileira Hoxe (2004 – Editora Danú), em Santiago de Compostela. Como foi a aceitação do livro na Galiza? Suas obras foram lançadas na Europa?

MSN – Chove sobre minha infância foi lançado em Barcelona pela Poliedro. Esta antologia foi quase um livro secreto. Não soube de nada sobre ela. Não sei como foi aceita. Em geral, a Europa não se preocupa muito com aquilo que somos.

PGL – O Sr. conhece a literatura galega contemporânea? Ela é oferecida aos alunos da Universidade?

MSN – Confesso desconhecer esta literatura. Tenho vontade de conhecer, mas não tive ainda a oportunidade.

PGL – A Universidade Estadual de Ponta Grossa mantém algum convênio com universidades da Galiza? (Em caso positivo, quais as atividades)

MSN – Que eu saiba não, mas está aberta para convênios. É muito importante ampliar a presença internacional. Este é um momento favorável para isso.

PGL – Como o Sr. avalia o Acordo Ortográfico? Quais os pontos positivos e negativos a destacar?

MSN –  O problema de distanciamento das línguas portuguesas, porque são mais de uma, é que elas se afastam por questões semânticas. O acordo só trata da questão ortográfica, que é algo menor. Atinge apenas o significante. Mas o diferencial é o significado.

PGL – Com esse acordo ortográfico, espera-se maior integração entre os países de Língua Portuguesa. Como a Galiza pode ser beneficiada desse acordo, uma vez que busca a reintegração no mundo lusófono.

MSN – Ela poderá ser beneficiada por conta da unificação de sinais, mas qualquer país vai precisar de uma maior atividade literária para chamar a atenção para a sua produção.

PGL – Em sua opinião, como o Brasil, em especial escritores e professores podem auxiliar na reintegração do galego?

MSN – Uma língua só funciona literariamente quando somos amamentados nela. Uma forma de amamentar é lendo bons livros na língua. Assim, o galego será um idioma integrado ao português quando seus escritores se tornarem essenciais para os demais países que falam o mesmo idioma.

 

Nosso entrevistado

Miguel Sanches Neto é doutor em letras pela Unicamp (1998), professor-adjunto da Universidade Estadual de Ponta Grossa (Paraná), onde leciona literatura brasileira e desempenha a função de Pró-Reitor de Extensão e Assuntos Culturais. Romancista (Chove sobre minha infância, Um amor anarquista e A primeira mulher), poeta (Venho de um país obscuro e Pisador de horizontes), contista (Hóspede secreto) e cronista (Herdando uma biblioteca e Impurezas amorosas), também escreve para crianças (Estatutos de um novo mundo para as crianças, Amanda vai amamentar, O rinoceronte ri, A cobra que não sabia cobrar, Amor de menino e A guerra do chiclete). É cronista do jornal Gazeta do Povo. Recebeu, entre outros, o Prêmio Cruz e Sousa (2002) e Brasil-Argentina (2005). No momento, publica uma novela-folhetim (História do fim do mundo) no jornal Rascunho – de Curitiba.

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