Maria de Medeiros, cineasta e artista portuguesa



maria-de-medeiros-foto-4Dentro da nossa série de artigos de “As Aulas no Cinema” estamos a dedicar vários depoimentos àquelas mulheres que no mundo lusófono destacaram em alguns campos da cultura, da ciência e do ensino. É verdade que são os campos da educação, a música, a canção e a literatura, aqueles onde dentro do mundo lusófono, têm destacado mais mulheres. Porém, neste caso concreto quero lembrar uma importante realizadora de cinema e atriz, e nos últimos tempos também cantora, muito reconhecida em numerosos países. Por isso, dentro da série que estou a dedicar às mais importantes personalidades do mundo lusófono, onde a nossa língua internacional tem uma presença destacada, e, por sorte, está presente em mais de doze países, sendo oficial em oito, dedico este depoimento, que faz o número 150 da série geral que iniciei com Sócrates, à atriz e realizadora de filmes conhecida como Maria de Medeiros, nascida no ano 1965 em Lisboa. Com este depoimento, a ela dedicado, completo o número trinta e oito da série lusófona.

PEQUENA BIOGRAFIA

A atriz, realizadora de cinema e cantora portuguesa, de nome completo Maria de Medeiros Esteves Vitorino de Almeida, conhecida artisticamente como Maria de Medeiros, nasceu em Lisboa a 19 de agosto de 1965. É filha do mestre e compositor António Vitorino de Almeida e da jornalista Maria Armanda de Saint-Maurice Ferreira Esteves. Tem uma irmã de nome Inês de Medeiros que também é atriz, ademais de política. E outra, de nome Anne Vitorino de Almeida, que é violinista e compositora. A sua avó materna, Odette de Saint-Maurice, era escritora juvenil e autora radiofónica, e seu avô materno, Constantino Ferreira Esteves, era pediatra.maria-de-medeiros-foto-de-jovem-1 Pelo trabalho de seu pai passou parte da infância na Áustria, e também porque seus pais antissalazaristas tinham que estar no exílio. Por isto, já com nove anos, em 1974, era uma pequena revolucionária, vivendo o largo historial dos seus progenitores de resistência ao regime ditatorial português. A sua mãe, jornalista, costumava levar consigo a filha nas suas atividades clandestinas, e muitas das vezes a deixava dormindo no carro enquanto ela conspirava. Quando cresceu aquela criança lisboeta quis converter-se em artista. Primeiro foi atriz e depois provou com a direção cinematográfica. Para a sua primeira longa-metragem escolheu como tema a famosa revolução dos cravos do 25 de abril, porque queria fazer uma homenagem àqueles resistentes que conheceu tão bem, e a intitulou Capitães de Abril, que também protagoniza. A fita contou com a coprodução de Portugal, Itália e Espanha, e foi apresentada no seu dia no festival de Cannes, com grande sucesso. Também foi projetada em numerosos países do mundo.

Pelo trabalho de seu pai passou parte da infância na Áustria, e também porque seus pais antissalazaristas tinham que estar no exílio. Por isto, já com nove anos, em 1974, era uma pequena revolucionária, vivendo o largo historial dos seus progenitores de resistência ao regime ditatorial português. A sua mãe, jornalista, costumava levar consigo a filha nas suas atividades clandestinas, e muitas das vezes a deixava dormindo no carro enquanto ela conspirava.

Tinha nove anos quando regressou ao seu Portugal natal, após o 25 de abril de 1974. Em Lisboa, à sua volta, estudou no Liceu francês Charles Lepierre, embora, completados os 18 anos, fizesse as malas e pusesse rumo a Paris, matriculando-se em Filosofia na Universidade da Sorbona, sem finalizar a licenciatura, pois gostava mais do teatro e das artes, pelo que frequenta na capital francesa a Escola Nacional Superior das Artes e Técnicas do Teatro e o Conservatório Nacional de Arte parisino, para estudar artes dramáticas. Logo foi consciente de que se tinha enganado e que o seu lugar estava nos cenários ou frente à câmara cinematográfica. Lançada ao teatro profissional, ganhou muitos méritos, esperando a oportunidade de iniciar a carreira cinematográfica como atriz fílmica. Com a encenadora Brigitte Jacques, que a dirigiu em espetáculos como A morte de Pompeu, de Pierre Corneille ou Elvire Jouvet 40, de Louis Jouvet, deu início ao seu trabalho teatral e depois ao cinema.

Maria de Medeiro com mais artistas, em Cannes.

Maria de Medeiro com mais artistas, em Cannes.

Contudo, era ainda adolescente quando se estreia no cinema ao participar no filme Silvestre, dirigido em 1982 por João César Monteiro. Em 1984 participa no filme coletivo Paris vu par…vingt ans aprés, e a partir desse momento combina o cinema francês com o português, sempre com um grande sucesso. Também ajuda ao seu reconhecimento o ter participado em outros filmes como A morte do príncipe, A tentação de Vénus e Ovos de Ouro. Porém, o seu reconhecimento artístico de intérprete tem lugar quando em 1990 intervém, junto com Fred Ward e Uma Thurman, no filme Henry e June, de Philip Kaufman, e, em 1994, em Pulp Fiction, realizado por Quentin Tarantino, onde atua ao lado de Bruce Willis, John Travolta e Samuel L. Jackson, e também de novo Uma Thurman. Especialmente, com estes dous filmes, começa o seu reconhecimento internacional, passando a ser a mais famosa das atrizes portuguesas. Na altura, sobressaem também as suas participações em outros filmes como A Divina Comédia, de Manoel de Oliveira, rodado em 1991, Huevos de Oro, de Bigas Luna (1993), Três Irmãos, de Teresa Villaverde (1994), com o qual conseguiu os prémios de melhor atriz nos festivais de Veneza (Copa Volpi da Mostra) e de Cancun, Adão e Eva, de Joaquim Leitão (1995), pelo que levou o Globo de Ouro como melhor atriz, e O Xangô de Baker Street, de Miguel Faria Jr. (2001). E também O detetive e a morte, Airbag, Babel, A minha vida sem mim e Sonho e silêncio. Incluindo as curta-metragens, Maria de Medeiros tem uma filmografia de mais de 90 filmes. É ademais uma poliglota excelente, pois domina nada mais e nada menos que seis idiomas, incluído o catalão.

Incluindo as curta-metragens, Maria de Medeiros tem uma filmografia de mais de 90 filmes. É ademais uma poliglota excelente, pois domina nada mais e nada menos que seis idiomas, incluído o catalão.

Como realizadora cinematográfica, estreou-se em 1987 com o filme Sévérine C., e no seguinte ano de 1988 realizoumaria-de-medeiros-cartaz-de-capitaes-de-abril Fragmento II. Porém, considera-se que a sua obra-prima é Capitães de Abril, rodada no 2000, em que combina a direção e também atua como atriz secundária. Tal como já comentámos, o tema central desta fita é a revolução dos cravos no Portugal do 25 de abril de 1974. O filme foi selecionado para ser apresentado no festival de Cannes e foi premiado no de São Paulo. Ademais da nossa realizadora e atriz, no mesmo participaram como atores Stefano Accorsi, Joaquim de Almeida e Fele Martínez. Para o guião deste filme foi assessorada pelo coronel Carlos Matos Gomes, um dos capitães de abril, que viveu ao vivo e em direto a jornada histórica e os acontecimentos da mesma. Recebeu também a assessoria do famoso militar Otelo Saraiva de Carvalho. Ademais contou com a inestimável ajuda de poder contar com as fontes principais dos textos escritos pelos capitães, as conversas entre eles e o material jornalístico daqueles dias. Maria de Medeiros, acertadamente, tratou sempre de ter muito cuidado na rodagem e montagem do filme, de não atraiçoar o espírito dos capitães, para ser completamente fiel aos factos, e agradecer aos oficiais o ter dado aos portugueses a possibilidade de escolher, que era algo que até esse momento tinham totalmente proibido pela ditadura salazarista. O filme recolhe os grandes assuntos do 25 de abril, como a origem do levantamento na brutalidade das guerras coloniais, onde a maioria dos capitães tinham combatido à força, e as injustiças sociais. Ainda assim, nas respetivas ações dos mesmos houve grandes doses de ingenuidade e idealismo.

O filme recolhe os grandes assuntos do 25 de abril, como a origem do levantamento na brutalidade das guerras coloniais, onde a maioria dos capitães tinham combatido à força, e as injustiças sociais. Ainda assim, nas respetivas ações dos mesmos houve grandes doses de ingenuidade e idealismo.

Em anos seguintes realiza outros filmes, entre os que podemos destacar os três rodados em 2004 Bem-Vindo a São Paulo, Mathilde au Matin, Je t´aime moi non plus: artistes et critiques e, dentro do intitulado Mundo Invisível, o episódio “Aventuras de um Homem Invisível”. Em maio de 2007 fez parte do Júri oficial do festival de Cannes. Em 17 de março de 2008 foi nomeada artista pela paz por parte da Unesco, sendo a primeira portuguesa a assumir este papel. Antes, em 10 de junho de 1992, tinha sido feita Dama da Ordem Militar portuguesa de S. da Espada, e, em 2003, recebeu a Ordem das Letras e das Artes da França. Também o prémio Gérad-Philipe.
Em 2007 publica o seu primeiro álbum em solitário como cantora, uma das suas últimas facetas, sob o título de “A Little More Blue”, que é uma recopilação de cantares da resistência à ditadura militar brasileira de autores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ivão Lins e Dolores Durão,  tendo com ele um aclamado batismo musical. Em 2009, para apresentar este seu trabalho discográfico veio à Galiza, e, em concreto às cidades de Vigo e Corunha, onde participou em dous concertos. Mostrou na altura umas excelentes qualidades vocais e muita capacidade expressiva, em perfeita sintonia com um quarteto de jazz (piano, violoncelo, contrabaixo e percussão) que a acompanhou na sua atuação.

Em 2007 publica o seu primeiro álbum em solitário como cantora, uma das suas últimas facetas, sob o título de “A Little More Blue”, que é uma recopilação de cantares da resistência à ditadura militar brasileira de autores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ivão Lins e Dolores Durão,  tendo com ele um aclamado batismo musical.

Em 2010 publicou o seu segundo álbum intitulado Penínsulas e Continentes, e em 2012 o seu terceiro CD com composições próprias e o título de Pássaros eternos. Não queremos esquecer-nos de que participou num dos capítulos da famosa série televisiva “Cuéntame como pasó”, em que interpretava uma jornalista portuguesa durante a Revolução dos Cravos, e onde também mantinha uma esporádica relação com a personagem de Toni Alcántara, interpretada por Pablo Rivero.
Desde 2012 mora na cidade de Barcelona, junto com o seu esposo catalão Agustí Camps i Salat, decorador de cenário. Com ele teve duas filhas: Júlia em 1997 e Leonor em 2003.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

1. Maria de Medeiros.
Duração: 82 minutos. Ano 2013.

2. Entrevista a Maria de Medeiros.
Duração: 8 minutos. Ano 2009.

3. A voz de Maria de Medeiros em Cartagena.
Duração: 5 minutos. Ano 2019.

4. Maria de Medeiros Sentimental de Chico Buarque.
Duração: 5 minutos. Ano 2007.

5. Atuação de Maria de Medeiros em TVE.
Duração: 6 minutos. Ano 2012. Pode-se ver aqui.

6. Maria de Medeiros ao vivo: Pássaros eternos.
Duração: 6 minutos. Ano 2014.

7. Capitães de Abril (um fragmento).
Duração: 10 minutos. Ano 2000.

Nota: A filmografia quase completa de Maria de Medeiros pode consultar-se aqui.

“AS MIL MARIAS DE MARIA DE MEDEIROS”

O português Miguel Esteves Cardoso escreveu em dezembro de 1990, na revista K n.º 3, um lindo depoimento dedicado a Maria de Medeiros, que pelo seu interesse e as acertadas opiniões que expressa, tenho por bem reproduzir a seguir.

“Finalmente, vê-se uma estrela. Uma estrela a sério. Sem ser em carne e osso. Maria de Medeiros, a noite está linda, o mundo é teu.
A Maria não tem cara. Tem mil. Não é bonita. Não é feia. É bonita quando quer. É feia quando é preciso. Feia ou bonita, está sempre a brilhar. Arde, de arder. Luz, de luzir. Maria de Medeiros é uma estrela verdadeira. Uma estrela não tem cara. Até as pernas parecem engordar e emagrecer conforme as exigências da representação. Em Zazou envelhece à frente dos nossos olhos. É menina. É velha. Cresce. Quando é pequenina, é a mais pequenina. Quando quer ser grande, é gigante.

A Maria não tem cara. Tem mil. Não é bonita. Não é feia. É bonita quando quer. É feia quando é preciso. Feia ou bonita, está sempre a brilhar. Arde, de arder. Luz, de luzir. Maria de Medeiros é uma estrela verdadeira. Uma estrela não tem cara. Até as pernas parecem engordar e emagrecer conforme as exigências da representação. Em Zazou envelhece à frente dos nossos olhos. É menina. É velha. Cresce. Quando é pequenina, é a mais pequenina. Quando quer ser grande, é gigante.

maria-de-medeiros-foto-1A Maria é portuguesa? Cem por cento. Excepto quando é cem por cento francesa. Quando canta “Il n’y a pas d’amour heurex” diante de mil franceses comovidos é mais francesa que eles todos. Parece a Piaf. Parece um passarinho. Sozinha num palco enorme, a cantar pela vida. Podia ser um rouxinol. Podia ser chinesa. Quando é para ser Anaïs Nin, é Anaïs Nin. Maria de Medeiros é uma actriz absoluta. Faz teatro clássico e moderno, bom e mau, com o mesmo empenho e a mesma qualidade.
A Maria não escolhe. Não tem preferência. Maria faz tudo. Fez um filme de uma peça de Beckett. Em Budapeste comprou um violoncelo melhor. Tem pena de não ter continuado a pintar. Quer retomar os estudos de filosofia. Ela é o que quer. Ela consegue ser o que se quiser. Não tem vergonha. Tem o descaramento – o ser capaz de não ter cara – das grandes estrelas. Posa. É um modelo perfeito.
De um momento para outro, passa de Virgem Maria para Maria Madalena. É inocência e podridão. Século XIII e século XX. Miúda e mulher. Maria de Medeiros é a Maria em que se estiver a pensar.
A Maria fala com toda a gente. Dá entrevistas e autógrafos a quem os pedir. Aparece com agrado igual na Vanity Fair como na Nova Gente. Em Estocolmo dorme na suíte real do Grande Hotel. No Teatro Nacional de Chaillot tem um rato morto no camarim. Andou de limousine em Lisboa, rodeada pelos fotógrafos da Interview. Em Paris, anda de metro. Come em castelos. No Teatro Chaillot, como carne com massa no self-service. Está em Hollywood e é hollywoodesca. Está em Lisboa e é lisboeta. Em Nova Iorque, é capaz de jogar na Bolsa. Em Lisboa, joga matraquilhos. E esteja onde estiver, está sempre bem. É uma estrela. Uma estrela não é como as pessoas normais. Está sempre no elemento dela. O elemento dela é a electricidade.
A Maria é portuguesa? Cem por cento. Excepto quando é cem por cento francesa. Quando canta “11 n’y a pas d’amour heureux” diante de mil franceses comovidos é mais francesa que eles todos. Parece a Piaf. Parece um passarinho. Sozinha num palco enorme, a cantar pela vida. Podia Lisboa. É permanentemente uma estrangeira no estrangeiro. É uma estrela. É sempre exterior. Pertence-nos mas não está jamais entre nós. A Maria não esconde nada. Mostra tudo. O que faltar, inventa. Está sempre bem. Se é feliz ou infeliz, não faz sentido perguntar. Está sempre bem como está, onde estiver, e tudo o que faz, faz muito bem. Ela pertence ao público. O público é o dono dela. É por isso que ela é uma estrela. Não há outra Maria de Medeiros. Se calhar, como as grandes estrelas, não tem alma. Só um buraco negro. Onde cabem as almas de quem representa. Se calhar, como as grandes actrizes, não tem interior. Tem sempre a alma à vista. Sente-se que não há nada que se meta entre ela e uma personagem. Ela é quem se vê. Não tem segredo. Não precisa de ter.
Maria é uma actriz absoluta e natural. Vive num mundo que é bom porque lhe pertence. Não tem medo de se tomar uma estrela do cinema americano. Se for preciso mudar-se para Los Angeles, muda-se. Mas do que ela gosta é o que ela está a fazer agora, que se resume em quatro palavras: tudo ao mesmo tempo. Gosta de estar na mão e na contra-mão, no gosto do público e no gosto da crítica, com os dois pés no centro do êxito e dois dedos na vanguarda. Esta confusão é a casa dela. É lá que ela se sente à vontade. Ela não é um camaleão. É outra criatura. É uma verdadeira actriz. Uma artista no sentido antigo e absoluto. Uma criatura divina. Maria de Medeiros é uma estrela em qualquer língua. Em qualquer arte. Em qualquer luz. Em qualquer parte. É a Maria”.

Maria é uma actriz absoluta e natural. Vive num mundo que é bom porque lhe pertence. Não tem medo de se tomar uma estrela do cinema americano. Se for preciso mudar-se para Los Angeles, muda-se. Mas do que ela gosta é o que ela está a fazer agora, que se resume em quatro palavras: tudo ao mesmo tempo. Gosta de estar na mão e na contra-mão, no gosto do público e no gosto da crítica, com os dois pés no centro do êxito e dois dedos na vanguarda. Esta confusão é a casa dela. É lá que ela se sente à vontade. Ela não é um camaleão. É outra criatura. É uma verdadeira actriz. Uma artista no sentido antigo e absoluto.

ENTREVISTA A MARIA DE MEDEIROS

maria-de-medeiros-foto-6Em outubro de 2012 Andrea Xouba González realizou-lhe para o diário digital português “Ruadebaixo” uma muito interessante entrevista a Maria de Medeiros que a seguir tenho por bem reproduzir.
Um segredo leva Nasser Ali Khan, um violinista, a desistir da vida em nome do amor e da música. “Galinha com Ameixas” é o mais recente filme da iraniana Marjane Satrapi e do francês Vincent Parannoud, que foi estreado no dia 18 de Outubro de 2012 (em exclusivo nos cinemas UCI El Corte Inglés e UCI Arrábida de Lisboa). Repleto de misticismo persa e magia oriental, o filme retrata Teerão no ano 1958. A atriz e cineasta portuguesa Maria de Medeiros, madrinha da 13ª Festa do Cinema Francês, representa no mesmo uma personagem ingrata e descabida.
Maria de Medeiros concedeu uma entrevista à “RDB” de modo a partilhar um pouco o seu trabalho, pensamentos e ideias.
Foi nomeada madrinha na 13ª Festa do Cinema Francês, que significado lhe atribui?
É uma grande honra e alegria para mim. Estou na minha cidade natal e fui convidada pelo Institut Français du Portugal. Obviamente que fico feliz por representar dois países aos quais estou intimamente ligada.

Foram escolhidos seis filmes seus para exibição na Festa do Cinema Francês. “Capitães de Abril” é um deles. Acha que este filme vem despertar algum sentimento nos portugueses, dada a situação política e económica atual?
Sempre tive muito orgulho na Revolução dos Cravos, e cada vez mais admiro os portugueses, que, sem violência, através do diálogo e com uma atitude democrática, sempre se afastaram de pseudo revoluções violentas de uma forma exemplar e pacífica. Tenho esperança na união dos portugueses, são pessoas formidáveis.

O filme “Repare Bem” está na linha política do “Capitães de Abril”.
“Repare Bem” é uma longa-metragem e será exibida em São Paulo. É sobre o trabalho da Comissão de Anistia e Reparação no Brasil, aborda uma família que teve um destino violentíssimo, foram vítimas da ditadura e o estado acabou por dar-lhes uma nova oportunidade.

Com participação em cerca de 50 filmes, é nitidamente uma das maiores representantes portuguesas no cinema internacional. Acha que o cinema português caminha para uma internacionalização positiva?
O cinema português está estagnado, contudo o pouco que se faz é extremamente respeitado e admirado no mundo. É uma pena que não divulguemos mais os nossos filmes, existe uma ausência de Política Cultural. Sinceramente estou preocupada com a situação interna do cinema português, mas tenho esperança que com a nova lei do cinema tudo volte a encarrilar.

O cinema português está estagnado, contudo o pouco que se faz é extremamente respeitado e admirado no mundo. É uma pena que não divulguemos mais os nossos filmes, existe uma ausência de Política Cultural. Sinceramente estou preocupada com a situação interna do cinema português, mas tenho esperança que com a nova lei do cinema tudo volte a encarrilar.

maria-de-medeiros-foto-7Em “Galinha com Ameixas” a sua personagem é antipática. Foi interessante para si desenvolver uma personagem com esta caraterística psicológica?
Sempre admirei imenso a Marjane. É um modelo para mim, uma mulher muito inteligente e criativa. Quando me pediu para representar esta personagem antipática, feia e problemática, desculpou-se ao mesmo tempo. Mas ela sabia que eu tinha o humor necessário para abordá-la e foi muito estimulante para mim defender uma personagem ingrata. O desencontro dela com o marido é trágico, apesar de poderem ser um casal perfeito.

“Galinha com Ameixas” tem todo o potencial para cativar os espectadores portugueses?
Sim, é um conto oriental filosófico, um mundo mágico que a Marjane e o Vicent conseguiram recriar muito bem. O filme já estreou nos Estados Unidos e foi muito bem recebido pelo público.

E a si, cativou-a?
Fiquei maravilhada com o cenário. Como foi gravado em estúdio, tudo teve que ser recriado ao milímetro. Uma técnica muito bem pormenorizada pelo jovem cenógrafo alemão. Foram dois meses de trabalho, havia uma mistura de origens, culturas e alguns franceses. Estávamos juntos por um motivo que era a produção deste filme.

Participa no projeto “Spiritismes” do Guy Maddin.
Já em 2003 trabalhei com o Guy Maddin no “The saddest music in the world”, onde contraceno com a Isabella Rossellini e o Mark Mckinney. O “Spiritismes” é um novo projeto composto por 100 curtas-metragens filmadas em museus no qual eu participo em duas delas. É uma compilação de guiões esquecidos pelo mundo, ressuscitados e adaptados às curtas pelo Guy. Filmámos no Centro Georges Pompidou em Paris com o público à volta, foi muito divertido. Já gravei a minha parte, mas o projeto continua até Nova Iorque no MoMA, entre outros. Talvez volte a participar.

Qual a sua preferência: representação ou realização?
Ambas. Cada uma me preenche à sua maneira e agora acrescentei mais uma à lista, a música e o canto.

Nota: Com motivo de que, em janeiro de 2017, a Filmoteca da Catalunha dedicou a Maria de Medeiros uma retrospetiva da sua obra fílmica, como realizadora e atriz, Letícia Blanco fez-lhe esta entrevista, publicada em castelhano, para o diário El Mundo.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a Maria de Medeiros, atriz e realizadora de filmes, e nos últimos tempos também cantora. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros, monografias, CDs e DVDs.
Seria interessante realizar no nosso estabelecimento de ensino um Ciclo de Cinema, composto de uma dúzia de filmes, entre os quais fossem incluídos alguns dos que fez como realizadora, nomeadamente Capitães de Abril, e aqueles mais importantes e famosos em que interveio como atriz. Entre os que merece a pena olhar: Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994), La Lectrice (Michel Deville, 1988), Henry & June (Philip Kaufman, 1990), A tentação de Vénus (Istvan Szabo, 1991), Huevos de oro (Bigas Luna, 1993) e Porto da minha Infância (Manoel de Oliveira, 2001).

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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