GALIZA 2030

Maria Aguiom: «A gente muitas vezes é capaz de viver feliz na sua própria ignorância»

«Som adolescente, mas em muitas ocasions nom me sinto identificada com a imagem que há de nós; parece que só nos temos que preocupar por um determinado conjunto de cousas»



Maria Aguiom:

  • Idade: 16 anos
  • Procedência: Boimorto
Maria Aguiom

Maria Aguiom

Existe umha imagem, tópica como muitas imagens, de que as pessoas da vossa idade nom se interessam por questons de índole social. Sodes umha exceçom? 

Sim, considero-nos umha exceçom, pois ao meu redor vejo pouca gente da minha idade interessada neste tipo de questons. E nom me considero melhor por eu está-lo, só faltaria. Mas sim que me dou conta de que me interesso mais por outro tipo de perguntas, por intentar indagar mais noutros aspetos da vida. Às vezes penso que há um protótipo de adolescente, bom, hai-no, e sim, eu entro nesse protótipo. Som adolescente, mas em muitas ocasions nom me sinto identificada com a imagem que há de nós. Porque parece que só nos temos que preocupar por um determinado conjunto de cousas, ser lindas/os para encaixar na sociedade, tirar boas qualificaçons, ter claro o nosso futuro e sair de festa. Nom abarca nada mais ser adolescente (do meu ponto de vista) e claro, no momento no que há gente como eu e como muitos outras/os que começam a interessar-se por temas relacionados com a política, com a liberdade, com a língua, pois rompe os esquemas e diretamente converte-se nisso, numha exceçom.

Outra imagem tópica revela que quando uma pessoa galegofalante conversa com uma castelhanofalante, de umha cidade por exemplo, acaba por renunciar a usar a sua língua. É mesmo assim?

Nom vou negar evidências que acontecem diariamente. Ponho por caso toda a gente maior da Galiza: nom lhes faz falta ir à cidade para mudar o idioma e sentir que som pessoas um pouco melhores (sentir-se melhores renunciando ao que som). Chega-lhes com ir ao médico, ao concelho, ou a qualquer lugar de caráter administrativo. Estám educadas/os num esquema da sociedade em que quanto mais prestígio tenhas, menos galega/o és. Bom, nom só aos nossas/os avós lhes passa isto e estám educadas/os nesse conceito, também gente da minha idade, da idade de meus pais. Grande parte da populaçom mira-te de jeito superior por elas/es falarem em espanhol e tu nom, fazendo assim que muitas/os das/os galegofalantes se sintam subestimadas/os, isoladas/os e comecem a renegar do que som, do que somos. Nom nos apreciamos o suficiente, nem metade do que deveríamos, e isto é porque nunca nos inculcaram a teoria de que o da casa sempre é o melhor, o de fora é complementário, simplesmente está bem, mas o da casa ninguém o pode arrebatar. Em certo jeito, ninguém nos está a tirar nada, somos nós as/os encarregadas/os de fazer que pouco a pouco a casa seja outra… O que quero dizer é que desde crianças estamos submetidas/os a uma rejeiçom contínua do que é nosso, eu polo menos sempre percebim que a gente rejeitava Galiza, os costumes, as tradiçons, a nossa casae nunca tiveram em conta isso, o de que o da casa é o melhor. O queijo de Arçua pode ser tam bom como o francês, o vinho da Ribeira Sacra pode ser tam bom como o italiano, o caldo galego para mim é muito melhor do que qualquer prato chinês, mas estas apreciaçons eu nunca as vim, sempre vim todo o contrário. Por isso para a maior parte das/os galegas/os, a nossa casa sempre está num lugar inferior a qualquer outra. Cada cultura tem as suas peculiaridades mas vir de fora nom é sinónimo de melhor ou pior, simplesmente é diferente.

Para vós, a língua galega nom acaba na Galiza, e sim é compartilhada com outras sociedades como a brasileira ou a portuguesa. Como chegaste a essa forma de ver e de viver a língua?

Como dixem na primeira questom à qual respondim, as pessoas da minha idade viajam muito com a mente, e param-se em cousas absurdas (ou nom), como procurar sentido a algo como é o amor, pôr etiquetas à amizade, buscar jeitos de passá-lo bem… Nessa procura por algo em que enredar, reparei em certa gente que empregava umha escrita distinta à minha, e entom quigem saber o por quê, quigem enredar-me no por quê. Comentei-no com umha antiga professora de galego e foi-me encaminhando, falou-me da existência de duas normas, da história de cada umha delas…  dixo-me que entrara no Portal Galego da Língua, que ali atoparia numerosas respostas às minhas impacientes dúvidas.  E assim figem, e aqui estou. Adotei no meu dia a dia a norma AGAL, comecei a escrever nela, mal, mas tentando-o, pouco a pouco. Adotei-na porque considerei e considero que é o jeito de manter vivo algo tam próprio como é a nossa língua, a nossa cultura, e ademais porque há que respeitar a rama linguística à qual pertencemos, que vem ser a lusofonia. E o dito, que aqui estou. Contente com a minha escolha.

Que é o que seria preciso para haverem mais companheiras/os vossas/os com essa vivência?

Informaçom. É certo que sobram meios para adquirir informaçom, resolver dúvidas, esclarecer ideias, mas se nom tens o que procurar, que fás? Nom sei, creio que falta isso, alguém que um dia, na escola, sente e comece a falar simplesmente do galego, da sua história, que era umha única língua junto com o português, a distinta evoluçom das duas por caminhos muito diferentes, a castelhanizaçom do galego, o pleno desenvolvimento do português… A quem nom interessasse em qualquer momento poderia desligar enquanto outras/os poderiam abrir-se a novas formas de ver o galego, de interpretá-lo, novos jeitos de entendê-lo e analisar a situaçom em que aGaliza está imersa de outro ponto de vista totalmente diferente. E aqui, muitas pessoas teriam mais ou menos claro que o galego é, ou galego-castelhano ou galego-português.

Que é o que dirias a alguém que vive o galego como sendo só a língua da Galiza?

“Senta a pensar. Nom te dás conta de que lá ao longe, atravessando estas águas salgadas, toparás alguémque é capaz de compreender desde aquele pesadelo que nom te deixou dormir o mês passado até a lista da compra de ontem?”

A gente vive, muitas vezes, na sua própria ignorância, capaz de ser feliz nela, algo totalmente respeitável, mas essa vida fecha-lhe os olhos fronte a novas ideias, conhecimentos e fai que nom sejam conscientes dos numerosos problemas em que estám submersas/os, mas, à sua vez, também nom som conscientes da infinidade de vantagens que tenhem ao seu redor. Para mim, essa gente que vive na Galiza e dentro desta na ignorância, nom é consciente de que o galego é compreendido aqui, em Portugal, no Brasil, em Moçambique… Essa gente acho que desconhece que pertencemos à lusofonia e que isto nos permite falar, entender-nos, compreender-nos, sonhar-nos com gente de outros países que também pertencem à lusofonia. Para além disso, também desconhecem as raízes da nossa língua e vivem imersas/os numha profunda mentira que a cada pouco vai crescendo sem deixar lugar a que seja destapada. Isto provoca que a ignorância seja consentida e aprovada. E dá lugar a que a gente pouco a pouco deixe de sentir afinidade pola sua terra, que a morrinha desapareça e que as/os galegas/os deixemos de ser parte desta casa. Porque, se nom conhecemos a raiz da nossa própria língua, que é o pilar fundamental que sustém a Galiza, que nos queda? Nada. A língua é todo.


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  • Ernesto V. Souza

    Mira que são galegas estas galegas… adorei… XD

  • madeiradeuz

    A Galiza do futuro já está aqui!

  • ranhadoiro

    que e beleza de conversa, a esperança na Galiza escreve-se com R de reintegração e reintegrantes