Marcos Abalde: “É um problema pedagógico privar o alunado do legado intelectual do ilustre ferrolano”



Entrevistamos Marcos Abalde, professor de galego no IES Concepción Arenal, de Ferrol em cuja turma estuda a ganhadora do primeiro prémio Scórpio. Conversamos com ele, entre outros aspetos, da oportunidade de Scórpio fazer parte das leituras no sistema educativo galego.

Será que uma obra como Scórpio nom se está a ler tanto como se devia, em geral, dentro e fora do sistema educativo?

marcos-abalde-foto-de-borxa-toxaDificilmente se pode ler um livro quando é impossível aceder a ele. Devia haver vinte anos que nom se editava. Até a reediçom de Através a sua distribuiçom ficava reduzida às bibliotecas. Em geral, a produçom literária de Carvalho Calero tem uma receçom bem particular. A faceta de historiador da literatura eclipsa a sua própria produçom literária e somado à questom normativa constituem dous elementos que interferem a leitura. Um polígrafo excepcional como ele que devia estar nos manuais escolares ao mesmo nível do que Fole, Cunqueiro ou Blanco Amor fica desaparecido. Para além disto, o seu Ano das Letras correu ocupado pola pandemia. Ainda que me dê a impressom de que, muitas vezes, esta homenagem, em vez de ajudar a divulgar a obra dos ou das autoras, se centra em elaborar hagiografias. Mas por que a TVG nom fijo uma adaptaçom audiovisual de Scórpio? Por que o AGADIC nom encenou alguma das suas peças? Por que o Concelho de Ferrol se limitou a instalar uma exposiçom de havia dez anos? Por que deixou de organizar o Prémio Carvalho Calero de narrativa e ensaio?

A faceta de historiador da literatura eclipsa a sua própria produçom literária e somado à questom normativa constituem dous elementos que interferem a leitura. Um polígrafo excepcional como ele que devia estar nos manuais escolares ao mesmo nível do que Fole, Cunqueiro ou Blanco Amor fica desaparecido.

Há quem diga que, para além da matéria de literatura, Scórpio é um bom material para uma turma de história. Concordas?

Com certeza, infelizmente pouca ou nula presença possui a história da Galiza no currículo. Dalgum jeito o temário de língua e sociedade e de história da literatura suprem esta deficiência. Para a imensa maioria do alunado, a Galiza nom tem história própria. A existência da língua galega é uma anomalia.

Marcos Abalde leciona em Ferrol, no IES Concepción Arenal. Em que medida é significativo, para as tuas turmas, que o autor do livro seja um conterrâneo?

Partir da realidade mais próxima é fundamental para ir enriquecendo a perspetiva sobre o mundo. O alunado fica gratamente surpreendido ao identificar Ferrol como uma cidade literária. Por primeira vez, aparecem num livro as ruas que pisam a cotio: Sam Francisco, Praça de Amboage, Magdalena… Aliás, em Ferrol é especialmente significativo que exista um referente galego e em galego, pois a história da cidade carga com o peso de ser o lugar de nascimento de Franco. Quando este facto nom é mais do que um pormenor casual. No primeiro terço do S.XX em Ferrol há uma hegemonia socialista e uma permanente presença do galeguismo desde Vicetto a Quintanilla. Franco forja-se nos crimes contra a humanidade perpetrados na República do Rife. Polo contrário, Carvalho Calero é fruto desse Ferrol republicano, culto e proletário. De facto, é um dos seus poucos sobreviventes.

No passado Ano Carvalho Calero 2020 foi convocado o primeiro Prémio Scórpio pensado para qualquer aluna ou aluno do ensino médio. A aluna ganhadora, Carolina Balado, é uma das tuas alunas. Como foi este processo de participaçom entre as tuas turmas?

Na segunda avaliaçom queria que o alunado de 1º de bacharelato lesse Scórpio e como uma das tarefas mandei que escrevessem um novo capítulo do romance tal e como propunham as bases do prémio. Também lhe pedim 300 palavras como mínimo. 90% entregou-o. Alguns deles, textos muito bem formulados. Uma vez corrigidos sugerim-lhes que podiam participar no concurso, que o trabalho já o tinham feito, só era mandar um email. No texto de Carolina nota-se esforço e maturidade, duas virtudes da sua personalidade.

Que dirias a uma/um docente de língua e literaturas galegas para a encorajar a incluir o Scórpio entre as leituras do ano?

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Em primeiro lugar, a metade da obra é um romance de formaçom com protagonista adolescente e com muitos namoros. Isto a rapaziada adora. Também ajuda a compreender polo miúdo a Galiza do primeira terço do S.XX. Tanto Scórpio como Carvalho Calero incorporam-se com dezasseis anos ao Seminário de Estudos Galegos. Assim antecipamos uma parte fundamental do temário do 2º de bacharelato. A Galiza é mais do que as Memórias dum neno labrego, também pode haver as memórias dum neno ferrolám e galeguista, como neste caso.

Em segundo lugar, a técnica narrativa parece-lhes surpreendente, sobretodo, o multiperspetivismo e a metaliteratura. Convém que se vaiam familiarizando com outras maneiras de narrar. Este romance funciona como uma ponte para passar da literatura juvenil a um clássico contemporáneo. Agora que está tam em voga o da autoficçom, este livro adianta-se quarenta anos. Scórpio é uma figura mui carismática e o seu silêncio, um mistério. Possivelmente relacionado com a impossibilidade de representar a voz das vítimas.

Outro aspeto que acho fundamental é aprender a ler em português. Em 1º de bacharelato transcorre metade do curso a analisar cantigas de Fernando Esquio, Dom Dinís e Afonso X. O português moderno é uma variedade linguística mais próxima a nós que a língua que empregam os trovadores. Ler um livro em “reintegrado” é um passo imprescindível para compreender a importância da lusofonia. Muda a vestimenta da língua, mas as palavras som as mesmas. Para além disto, como se vai compreender o processo de elaboraçom da norma padrom se nom se tem contacto com textos que ponham em prática outra maneira de escrever o galego.

Enfim, o alunado tem uma imensa capacidade que está por desenvolver. Nom há problema pedagógico nengum em ler Carvalho Calero. Polo contrário, é um problema pedagógico de primeira magnitude privar-lhes do legado intelectual do ilustre ferrolano.

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim


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  • ernestovazquezsouza

    Boa entrevista, sim…

    Que bem senta lembrar de quando em quando que no ensino há ainda gente lúcida e entusiasta, com perspetiva e que sabe que faz.