Malvares: “ILG e RAG demonstraram a sua total incapacidade para defender o idioma”



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Alberto Lora

Malvares deve a sua alcunha aos pais, é de Moscoso, a 25 km de Vigo onde na sua infância o galego era a língua social. Agora mora em Vigo onde entre as pessoas que o rodeiam é comum falarem com ele em galego mesmo não sendo a sua língua de instalação. Tem três projetos musicais, um só não presta. A sua música não procura apenas o público galego-falantes consciencializado. Foi a música o que o empurrou para o lado escuro da norma.

Qual a origem de Malvares?

Malvares vem do apelido paterno Malvar. A minha avó Maria é conhecida como Maria do Malvares e o meu pai como Pepe do Malvares.

Malvares é de Moscoso, a 25 km de Vigo, nas Terras do Verdugo e do Oitavém. Como era a fotografia linguística de Moscoso aquando eras criança? Como é na atualidade?

Quando era pequeno todos os nenos e nenas falávamos galego. Lembro que foi um shock quando entrei com 4 anos em pré-escolar e a professora nos falou em castelhano.
A geração dos meus pais falava exclusivamente em galego com os seus filhos e filhas e só empregavam o castelhano quando iam à cidade. Os únicos castelhano-falantes eram a rapaziada de Moscoso que viviam em Vigo e vinham à aldeia ao fim-de-semana e nas férias, mas eram uma minoria muito pequena.
Agora a proporção de crianças castelhano-farlantes aumentou porque há vizinhança da minha idade que falam com os seus filhos em espanhol.

Nos últimos anos deslocaste para Vigo. Como se vive em galego na capital económica da Galiza?
Sinto-me um pouco o “bicho raro” porque aqui é quase impossível escutar uma pessoa nova falando com gheada e rotacionismo. A minha pequena alegria é a gente da minha idade ou mais nova que fala normalmente em castelhano mas que comigo mudam habitualmente para o galego. As pessoas com que tenho relação aqui respeitam e sentem o galego como a sua língua própria a pesar de falá-la mui pouco.

A minha pequena alegria é a gente da minha idade ou mais nova que fala normalmente em castelhano mas que comigo mudam habitualmente para o galego. As pessoas com que tenho relação aqui respeitam e sentem o galego como a sua língua própria a pesar de falá-la mui pouco.

A nível laboral sempre trabalhei fora da cidade e em ambientes maioritariamente galego-falantes. Portanto não vivi as pressões que tiveram que suportar algunmhas amizades por parte das suas empresas para evitar que falassem em galego com a clientela.

A motivação da tua ida para Vigo é a tua carreira musical. Fazes parte da banda de rap Rebeliom do Inframundo e do projeto solo Malvares de Moscoso onde misturas rap, poesia e música eletrónica. Fala-nos dos teus projetos e expetativas.

Rocio Cibes #GaliciaEmerxe

Rocio Cibes #GaliciaEmerxe

Agora mesmo estamos trabalhando no novo disco de Rebeliom. Em Dezembro lançamos o videoclipe de uma das novas canções. Fora da banda estou metido em 3 projetos: o meu primeiro disco em solitário, um disco coletivo com os poetas e artistas da Galiza e Nova Iorque que participaram nas edições viguesa e nova-iorquina do Festival Kerouac de Poesia e um EP junto aos produtores J.CNNR e Frank Huxley com versos dos poemários “Tanxerina” e “Blues da Crecente” do ferrolano Mario Regueira.

Em que medida a música é uma boa ferramenta para criar consciencia lingüística e mudar os preconceitos sociais sobre a língua?

Penso que é uma das armas mais potentes que existem. E ainda mais quando falamos de músicas tão urbanas coma o Hip Hop. Acho que nós seguimos um caminho muito bom ao não limitar a nossa música a um público galego-falante e muito consciente politicamente. Sem tencioná-lo, dum jeito mui natural, conetamos com pessoas muito diversas.

Penso que é uma das armas mais potentes que existem. E ainda mais quando falamos de músicas tão urbanas coma o Hip Hop. Acho que nós seguimos um caminho muito bom ao não limitar a nossa música a um público galego-falante e muito consciente politicamente. Sem tencioná-lo, dum jeito mui natural, conetamos com pessoas muito diversas.

O teu modelo de língua no âmbito musical é o internacional. Como foi a tua descoberta da estratégia reintegracionista e a tua passagem para o lado escuro da norma?
O primeiro recordo que tenho do reintegracionismo é ver escrito “Carvalho Calero” num livro da matéria de galego em 6º ou 7º de EGB. Não nos explicaram quase nada dele nem da sua obra mas entendi rapidamente que algo estranho estava acontecendo porque não percebia que a minha língua fosse distinta da que falavam nas televisões portuguesas que víamos perfeitamente em Moscoso.
Tampouco era distinta da dos livros e discos que traziam os nossos vizinhos e vizinhas emigrantes quando vinham de férias de Salvador de Bahia (a presença da cultura brasileira é muito potente na minha paróquia porque todas as famílias têm parentes ali. O meu pai esteve 17 anos e ainda tenho parentes em Salvador e em outras cidades da Bahia).
Mas o processo de mudança para ao reintegracionismo foi lento. Não dei o passo definitivo até me juntar em 2010 com o produtor musical Deloise e o desenhador Carlos Ndungmandum para levar para adiante o projeto Língua Nativa, uma editora lusófona de Hip Hop e música eletrónica.

Que te motivou para te alistares no navio agálico e que esperas do trabalho da associação?
Este ano entendi que o meu apoio ao reintegracionismo tinha que ir para alem do facto de fazer música. E nos últimos tempos sinto que tenho uma maior conexão com as estratégias que está a seguir a associação e com o jeito que tem de comunicar-se com a sociedade.

Em 2021 somamos 40 anos de oficialidade do galego. Como valorarias esse processo? Que foi o melhor e que foi o pior?
Acho que o nacionalismo espanhol nestas quatro décadas continuou, de Madrid e de Compostela, com o processo de extermínio da nossa língua na Galiza e instituições como o ILG ou a RAG demonstraram a sua total incapacidade para defender o idioma. O mais positivo destes anos é o trabalho desinteressado de muitas pessoas que lutam polo galego porque sabem que não é simplesmente uma ferramenta de comunicação. Dentro destas palavras vivem os nossos antepassados, a nossa história pessoal e coletiva.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2040?
Gostaria que o “binormativismo” fosse uma realidade, que estivéssemos já bastante integrados no mundo lusófono, que o português da Galiza tivesse um prestígio grande e que a mocidade liderasse um processo de recuperação linguística.

Conhecendo Malvares

Um sítio web: estraviz.org
Um invento: o vinil
Uma música: “Só Deus pode me julgar” do rapper carioca MV Bill
Um livro: “Cabalos e lobos” de Fran P. Lorenzo
Um facto histórico: a participação da Brigada Lincoln e o resto das Brigadas Internacionais na Guerra de Espanha.
Um prato na mesa: polvo à feira
Um desporto: futebol
Um filme: Matrix
Uma maravilha: As fragas do rio Barragã (Moscoso)
Além de galego/a: celta e latino

Valentim Fagim

Valentim Fagim

Nasceu em Vigo (1971). Professor de Escola Oficial de Idiomas, licenciado em Filologia Galego-portuguesa pola Universidade de Santiago de Compostela e diplomado em História. Trabalhou e trabalha em diversos âmbitos para a divulgaçom do ideário reintegracionista, nomeadamente através de artigos em diversas publicações, livros como O Galego (im)possível, Do Ñ para o NH (2009) ou O galego é uma oportunidade (2012). Realizou trabalho associativo na AR Bonaval, Assembleia da Língua de Compostela, no local social A Esmorga e na AGAL, onde foi presidente (2009-12) e vice-presidente (2012-15). Co-diretor da Através Editora e coordenador da área de formação. Académico da AGLP.
Valentim Fagim

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  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    É o que se passa em Valência com a Real Academia de Cultura Valencia e o Lo Rat Penat.
    Isso sim, só que lá salvo o blaverismo espanholista ninguém pensa que sejam instuições a defenderem nada.
    E cá a politica espanhola dum Constantino Garcia defendendo um projeto contra nossa, tem o apoio parvo de 99% do nacionalismo político, que fazendo isso remam na corrente que leva a substituição linguídyics edtuoefaciente, a vez que reforçam as correntes (cadeias) na nossa sujeição de submetidos e dependentes.

  • Mário J. Herrero Valeiro

    Repitamos uma e outra vez: planificação do corpus e planificação do status são indissociáveis, uma norma subordinada para uma língua subordinada.