Malaca Casteleiro, importante promotor do Acordo Ortográfico da Lusofonia



malaca-casteleiro-foto-2Dentro da série que estou a dedicar às mais importantes personalidades da Lusofonia, onde a nossa língua internacional tem uma presença destacada, e, por sorte, está presente em mais de doze países, sendo oficial em oito, dedico o presente depoimento, que faz o número 137 da série geral que iniciei com Sócrates, a um professor e filólogo português, infelizmente falecido o passado dia 7 do presente mês de fevereiro. Estou a falar de João Malaca Casteleiro, nascido em Teixoso-Covilhã a 29 de agosto de 1936 e recentemente falecido na cidade de Lisboa. Junto com o brasileiro Evanildo Bechara, no seu cargo de membro da Academia das Ciências de Lisboa, foi um dos máximos promotores do atual Acordo Ortográfico da Lusofonia. Com este depoimento, a ele dedicado, completo o número vinte e cinco da série lusófona.

PEQUENA BIOGRAFIA

Malaca Casteleiro, natural de Teixoso, Covilhã, licenciou-se em Filologia Românica, em 1961, tendo obtido o doutoramento pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1979, com uma dissertação sobre a sintaxe da língua portuguesa. Professor catedrático naquela faculdade desde 1981 e membro da Academia das Ciências de Lisboa, Malaca Casteleiro foi o principal responsável na elaboração do novo Acordo Ortográfico de 1990, acordo esse que só entrou em vigor em Portugal mais de uma década depois (2009). Foi também diretor de investigação do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, conselheiro científico do Instituto Nacional de Investigação Científica e presidiu ao Conselho Científico da Faculdade entre 1984 e 1987.
Malaca Casteleiro foi ainda presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia entre 1991 e 2008, tendo durante a sua longa carreira de professor orientado muitas teses de doutoramento e de mestrado. Em abril de 2001 foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Como linguista João Malaca Casteleiro, foi uma figura central na elaboração do novo Acordo Ortográfico, faleceu na sexta-feira dia sete de fevereiro, aos 83 anos, no Hospital da Cruz Vermelha de Lisboa, onde estava internado, tal como anunciou a agência Lusa de notícias, comunicada tal defunção por uma colega e ex-aluna do professor catedrático. Em declarações à esta agência, Margarita Correia, professora auxiliar da Faculdade de Letras de Lisboa e antiga aluna de Malaca Casteleiro, recordou o professor agora falecido como “uma pessoa muito generosa”, que “ajudou muita gente” e figura “importante na difusão do português na China e em Macau”.

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Malaca Casteleiro em Macau

Margarita Correia referiu que foi aluna de mestrado e doutoramento de Malaca Casteleiro e lembrou que o linguista e professor tinha duas frases prediletas que gostava de repetir aos alunos: “Dando liberdade e exigindo responsabilidade” e “quem nunca fez nada nunca é criticado”. Recordou também que, em outubro passado, Malaca Casteleiro foi alvo de uma homenagem dos seus pares da comunidade de países de língua portuguesa, que decorreu na Universidade do Porto.
A sua bibliografia, iniciada com a tese de licenciatura em 1961, é constituída por muitas dezenas de títulos sobre Linguística, Didática do Português Língua Estrangeira e situação da língua portuguesa no mundo. Publicou obras como A Língua e a Sua Estrutura, A Língua Portuguesa e a Expansão do Saber, Nouvelles perspectives pour l’enseignement du portugais en tant que langue étrangère, A Língua Portuguesa em África e A Língua Portuguesa no Oriente: do Séc. XVI à Actualidade.

FICHAS DOS DOCUMENTÁRIOS

1. Entrevista a João Malaca Casteleiro: I Seminário de Lexicologia da AGLP.
Duração: 7 minutos. Ano 2013.
Entrevistador: Diego Bernal (em Compostela a 5 de outubro de 2009).

2. Entrevista a João Malaca Casteleiro: II Seminário de Lexicologia da AGLP.
Duração: 9 minutos. Ano 2011.
Entrevistadora: Iolanda Mato Creo (em Compostela a 25 de setembro de 2010).

Comentário: Ótima entrevista! Todos nós lusófonos deveríamos compartilhar da visão do Professor Malaca Casteleiro. Portugal, Brasil, Galiza, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Macau todos unidos para a promoção e difusão da língua portuguesa. Nossa língua possui matizes diversos, mas é a mesma. Todos unidos pela da Lusofonia!
3. 1ª Reunião do Conselho da Ortografia Língua Portuguesa na Univ. de Porto.
Duração: 6 minutos. Ano 2019.

4. Acordo Ortográfico em debate (TVI).
Duração: 19 minutos. Ano 2015.

5. Malaca Casteleiro: Portugal é o berço da língua portuguesa.
Duração: 10 minutos. Ano 2010.

6. A língua portuguesa no mundo atual globalizado.
Conferência de João Malaca Casteleiro na Academia de Letras do Brasil.
Duração: 62 minutos. Dia 24 de setembro de 2014 (Rio de Janeiro).

7. Léxico da Galiza incluído no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.
Duração: 4 minutos. Ano 2011.

Comentário: O Seminário de Lexicologia da AGLP realizado em Santiago de Compostela em 5 de outubro de 2009, foi o contexto em que o professor João Malaca Casteleiro apresentou o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Porto Editora, que inclui 800 palavras do léxico galego.

DE UMA ENTREVISTA A MALACA SOBRE O ACORDO ORTOGRÁFICO

Porque é que houve a necessidade de fazer um novo Acordo Ortográfico?

malaca-casteleiro-foto-7Fundamentalmente porque havia duas ortografias oficiais para a língua portuguesa, a brasileira e a portuguesa. Do ponto de vista da promoção internacional da língua, era prejudicial. Numa universidade ou instituição estrangeira onde se ensine o português, qual era a ortografia que se ia ensinar? A de Portugal? A do Brasil? E depois houve outra razão fundamental: em 1975, as colónias portuguesas tornaram se independentes e adotaram a língua portuguesa como língua oficial. Corríamos o risco, porventura, de se caminhar para sete, oito ortografias diferentes. E repare: a primeira iniciativa do Acordo de 1990 foi tomada pelo Brasil, em 1986. E foi o Presidente da República de então, José Sarney, que era membro da Academia Brasileira de Letras — que sempre com a Academia das Ciências de Lisboa acompanhou este processo da questão ortográfica –, que tomou a iniciativa de promover um grande encontro no Rio de Janeiro (que aconteceu em maio de 1986) para se ver a questão da ortografia. Porque essa questão já vinha de trás.

Porque já tinha havido outras tentativas de acordo.

malaca-casteleiro-cartaz-homenagemEm 1975, a Academia das Ciências de Lisboa preparou uma proposta de acordo mas, como aconteceu o 25 de Abril, não houve condições políticas em Portugal para dar andamento a esse processo. Embora se tivessem tomado nessa altura algumas decisões um pouco radicais, como por exemplo a supressão dos acentos [por causa da diferença no seu uso em Portugal e no Brasil]. [Por exemplo], há palavras esdrúxulas e graves que, no Brasil, se acentuam com um acento circunflexo e em Portugal com acento agudo por causa da diferença de timbre das vogais tónicas, como “Antônio”, “gênero”, “fêmur”, do lado de lá, e “António”, “género”, “fémur”, do lado de cá, porque o timbre é aberto. Para resolver esse problema, pensou-se noutra solução – em adotar um acento diferente, que era sempre uma exceção. Por exemplo, o acento grave. Só que, do ponto de vista pedagógico-didático, da aprendizagem da ortografia, era contraproducente. E também temos de pensar nisso.
Houve várias razões que tivemos em conta. Uma delas foi a de os alunos nas escolas fugirem dos acentos como o diabo foge da cruz [risos]! Acentos não é com eles. Depois, a língua oral precede a língua escrita e uma pessoa sabe onde está o acento tónico mesmo sem lá estar o acento grave. [Além disso], estávamos no arranque da informática e os programas de computador eram em inglês e não tinham acentos. Era uma dificuldade. Mas foi um pouco radical essa posição porque ia provocar muitas incompreensões. “Eu vou à secretaria da faculdade”. Sem acentos, como é que eu sei que é secretaria, lugar físico, e não secretária, pessoa encarregue da secretaria?
Em Portugal houve uma grande oposição e nós compreendemos que era radical porque apresentaram contra-argumentos que tivemos de ter em conta. Tivemos isso em linha de conta e elaborámos então um novo acordo que, em vez de procurar a unificação total e absoluta das duas grafias (uma vez que havia diferenças que se tinham instalado e que era difícil eliminar), adotámos o princípio da dupla grafia. Do lado do Brasil escrevem com acento circunflexo, “Antônio”, “gênero”, “fêmur”, porque articulam com timbre fechado, e do nosso lado com acento agudo. Por outro lado, eles dizem “fato”, “contatar”, “indenização”, e nós dizemos “facto”, “contactar”, “indemnização”. Então ficaram duplas grafias, foi este o princípio.

Dissemos ‘bom, mais vale conseguirmos a unificação de 98% do léxico do que tentarmos a unificação absoluta, que é inviável’

 
Nunca tentaram uma unificação total da ortografia?
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Dissemos ‘bom, mais vale conseguirmos a unificação de 98% do léxico do que tentarmos a unificação absoluta, que é inviável’. Já se provou pelo passado que é inviável. Não vou agora a 1945, mas houve decisões que se tomaram na altura e que revelaram uma total falta de bom senso porque obrigavam, por exemplo, os brasileiros a suprimirem os acentos circunflexos nestas palavras que mencionei e a pôr lá o acento agudo com este sofisma: o acento agudo não marca propriamente o timbre vogal, se é aberto ou fechado, marca apenas a tónica. Então era uma exceção — nos outros casos marcava o timbre, e aqui não marcava. Isto só para dar um exemplo de incongruências que havia e que se revelaram inviáveis.

Nota: É interessante consultar as opiniões de Malaca, sob a denominação “Ciberdúvidas da língua portuguesa” entrando aqui.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um cinema-fórum, para analisar o fundo (mensagem) dos mesmos, assim como os seus conteúdos.
Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a João Malaca Casteleiro, um dos mais importantes promotores do Acordo Ortográfico da Lusofonia, professor, filólogo e membro da Academia de Ciências de Lisboa. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.
Podemos realizar no nosso estabelecimento de ensino um Debate Papo, sob o tema “a importância do Acordo Ortográfico da Lusofonia para a Galiza”, em que participem escolares e docentes, e mesmo pessoas interessadas no tema da comunidade em que se encontra o nosso centro educativo. No mesmo seriam tidas em conta as opiniões de Malaca, Bechara, Monteiro Santalha, Carlos Durão, Ângelo Cristóvão, Gil Hernández, os académicos da AGLP e membros da Agal e da AICL.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.


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  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Bom trabalho