No prazo de sete dias, a literatura brasileira assistiu a partida de dois grandes ícones: Jaguar e Luís Fernando Veríssimo.
Dois grandes escritores e cartunistas que retrataram a sociedade brasileira com maestria e crítica aguda.
Conhecer a obra desses autores brasileiros vai para além prazer literário; é um mergulho na alma brasileira, um convite à reflexão e, acima de tudo, um antídoto contra a seriedade excessiva.
Jaguar, ferino e bárbaro

Nascido Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe (1932-2025) começou sua carreira, em 1952, na Revista Manchete, uma das mais famosas revistas brasileiras do século XX, onde começou a assinar como Jaguar.
Em 1968, lança sua primeira coleção ”Átila, você é bárbaro”.
Em 1969, funda o jornal O Pasquim com Olga Savary, Tarso de Castro e Sérgio Cabral. O periódico com sue humor ácido e político, foi um foco de contracultura e resistência à ditadura cívico-militar que assolava o Brasil à época.
Depois de muitos anos de perseguição, censura, prisões e embates com generais, o Pasquim fechou suas portas em 1991, sendo responsável pela divulgação e lançamento de grandes cartunistas, como Henfil e Ziraldo, e muitos escritores, além das antológicas entrevistas com grandes celebridades, que não “escondiam nada” do leitor.
Jaguar nunca se aposentou e, aos 93 anos, publicou sua última charge em julho de 2025, pouco menos de 30 dias antes de seu falecimento.
O Legado de um observador inigualável

Nascido em Porto Alegre, filho do também renomado escritor Erico Veríssimo (1936-2025), Luís Fernando Veríssimo herdou e aprimorou a veia literária, construindo uma carreira sólida e multifacetada.
Sua trajetória como cronista, iniciada em jornais e revistas, o consolidou como uma voz essencial na imprensa brasileira. Mas o que o torna tão especial?
Primeiramente, sua capacidade de observação aguçada. Veríssimo possui um olhar cirúrgico para os detalhes da vida comum, para as pequenas manias, os diálogos banais, as situações corriqueiras que, em suas mãos, ganham um novo significado.
Em segundo lugar, o humor inteligente e sutil. Veríssimo é um mestre na arte de fazer rir sem apelar para o óbvio ou o vulgar. Seu humor sofisticado, muitas vezes irônico e, por vezes, sarcástico.
Ele utiliza a comédia como ferramenta para criticar, para questionar e para nos fazer enxergar a realidade sob uma nova perspectiva. Suas crônicas são repletas de tiradas geniais e personagens inesquecíveis que representam arquétipos da nossa sociedade.
A Crônica como Espelho da Alma Brasileira
A crônica, gênero literário que Veríssimo dominou com maestria, é o espaço ideal para sua escrita. É um gênero que permite a liberdade de abordar temas variados, do político ao pessoal, do social ao existencial, sempre com um toque de leveza e profundidade.
Ele transitou com facilidade por diversos assuntos: a política brasileira, as relações humanas, o futebol, a música, a literatura, o sexo, o comportamento social. Em cada texto não faltou uma reflexão, uma provocação, um convite à cumplicidade. Suas palavras fizeram rir, seja da sociedade, de nós mesmos, de nossas idiossincrasias, das esperanças e frustrações.
Motivos para conhecer a obra de Veríssimo
Se você ainda não se aventurou pelo universo de Luís Fernando Veríssimo, aqui estão alguns bons motivos para começar agora:
- Um retrato fiel do Brasil: Suas crônicas são um verdadeiro painel da cultura e da sociedade brasileira. Ao lê-lo, você entenderá melhor o nosso jeito de ser, nossas alegrias e nossas dores.
- Humor atemporal: O humor de Veríssimo não envelhece. Suas piadas e observações continuam relevantes, proporcionando risadas genuínas e reflexões duradouras.
- Leitura prazerosa: As crônicas são textos curtos e de fácil leitura, perfeitos para momentos de lazer ou para iniciar o dia com um sorriso.
- Pensamento crítico: Por trás do humor, há sempre uma crítica sutil, um questionamento que nos convida a pensar sobre o mundo ao nosso redor.
Além das Crônicas
É importante ressaltar que a obra de Luís Fernando Veríssimo vai além das crônicas. Ele também é autor de romances, contos e peças de teatro, além de ser um talentoso cartunista e músico. Sua versatilidade é mais uma prova de seu gênio criativo.
Em suas tiras, como as famosas “As Cobras” e “Ed Mort”, ele demonstra a mesma acidez e inteligência que caracterizam suas crônicas, utilizando o desenho para expressar ideias e críticas sociais.
