LEITE DE VASCONCELOS, O GRANDE ETNÓGRAFO DE PORTUGAL



leite de vasconcelos capa

O primeiro de maio é a Festa do Trabalho e da Cultura Popular. Também nas primeiras datas do mês se celebram outras interessantes comemorações, e, em concreto, no dia 3, a Festa Popular dos Maios e o Dia da Liberdade de Imprensa. Dentro da série que iniciei com Sócrates, sobre grandes vultos da humanidade que devem conhecer todos os escolares, para os temas comemorativos dos primeiros dias de maio, escolhi o grande etnógrafo português, e um dos mais importantes da Lusofonia, José Leite de Vasconcelos. O qual é autor de uma magna e extraordinária obra de vários grossos volumes com o título de Etnografia Portuguesa, em que trata infinidade de temas relacionados com a nossa etnografia, de uma maneira clara, científica e detalhada. Um verdadeiro tesouro da nossa cultura popular, que merece a pena ser consultado pelos que amamos a Galiza, Portugal e toda a Lusofonia. Também se interessou pela filologia e a arqueologia, áreas em que destacou. O presente depoimento faz o número 98 da série.

PEQUENA BIOGRAFIA

Leite de Vasconcelos com a família

De nome completo José Leite de Vasconcelos Cardoso Pereira de Melo, nasceu na Ucanha a 7 de julho de 1858, e faleceu em Lisboa o 17 de maio de 1941. Por considerá-la muito acertada tomo como base a biografia publicada no seu dia pelo Instituto Camões.

Leite de Vasconcelos cresceu na zona, “de prestigiosas velharias e usanças arcaicas”, do mosteiro cisterciense de São João de Tarouca, isto é entre a vila de Ucanha, Mondim da Beira, Salzedas, onde um padre o iniciou em latim e um tio em francês; “já nesse tempo se manifesta o traço que havia de fazer dele o maior registador de coisas populares: sem saber ao certo para quê, ia apontando em caderninhos o que ouvia ou perguntava”.

Falida a família, aos dezoito anos foi para o Porto como amanuense em liceu e, ao mesmo tempo, continuar os estudos. Aí, em 1886, se licenciaria na Escola Médico-Cirúrgica, mas só exerceu a nova profissão um ano, o de 1887, no Cadaval. Na verdade, a própria tese de licenciatura, Evolução da linguagem (1886), se focava já nos interesses de letras que ocuparam a sua longa vida. Também é verdade que as ciências exatas contaminam o estilo investigativo de Leite de Vasconcelos, seja na filologia, seja na arqueologia ou na etnografia, todas disciplinas em que ficaria como referência. Os seus trabalhos privilegiam o severo escrutínio de fontes e o arquivo de dados, obtidos ora em digressões pelo país, ora até por simples contacto informal com quem se ia cruzando mesmo em Lisboa; e a fornecida biblioteca pessoal, depois legada à Faculdade de Letras de Lisboa, lhe economizava o tempo, para a obra a fazer sempre precioso.

Doutorou-se na Universidade de Paris, com Esquisse d’une dialectologie portugaise (1901; reeditado em 1970 e 1987), a primeira grande síntese da diatopia do português (a que só quase meio século depois sucederiam as investigações de Manuel de Paiva Boléo; e, em fase posterior ainda, as de Luís Lindley Cintra). Chegou a professor do ensino superior apenas em 1911, quando o Curso Superior de Letras se transformava em Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Mas já antes lecionara na Biblioteca Nacional, onde era conservador desde 1887, Numismática e Filologia Portuguesa. Desses tempos são as Lições de Philologia Portuguesa (1911; 2.ª edição, 1926) e a antologia de Textos Archaicos (1903; 3.ª edição, 1922-23). Exerceu também no Liceu de Lisboa, mas a atividade docente não foi nunca o seu terreno preferido, e, diz-nos Orlando Ribeiro, lamentaria “o tempo perdido na tarefa inglória de ensinar meninos”. Os biógrafos de Leite aludem a algumas idiossincrasias: a quase sovinice (“Olhe que a tinta é cara”), a férrea disciplina de vida que a investigação unicamente polarizava (“Que tempo que se perde: é um lenço, lavar as mãos, vestir-me, despir-me”), o afeto aos gatos (“Tenho-lhes tanta amizade como se fosse a pessoas. Não lhes devia ter, mas…”).

Leite de Vasconcelos

Maria Ana Ramos, em artigo em que compara Leite e Carolina Michaelis de Vasconcelos  (“Palavras entre filólogos: uma carta de Leite de Vasconcellos a Carolina Michaëlis”Estudos Portugueses. Homenagem a Luciana Stegagno Picchio, 1991, pp. 143-158), contrasta o zelo de perfeição que Dona Carolina punha no que intentava dar à estampa com certa sofreguidão de publicar, até por vontade de marcar primazias de autoria, que teria algum tanto condicionado a dispersão da obra do Doutor Leite. A bibliografia coligida por Isabel Vilares Cepeda (José Leite de Vasconcellos, Livro do Centenário, Imprensa Nacional, 1960, pp. 139-269) é portanto instrumento indispensável a quem pretenda ter uma ideia da mole de trabalhos de José Leite, entre os quais, diga-se, difícil será escolher obras matrizes. Talvez que o protótipo da sua produção escrita afinal seja a Revista Lusitana (1ª série: 1887-1943, 39 volumes), que fundou, dirigiu e semeou de artículos, notas, recensões, necrológios, ainda hoje de obrigatória consulta.

Outra das revistas por si fundadas se deve lembrar: O archeologo português, 1895-1931 (1ª série), órgão do Museu Etnológico (mais uma criação sua, de que são hoje continuadores o Museu de Arqueologia, nos Jerónimos, e o Museu de Etnologia, no Restelo). No campo que aqui mais interessa, o dos estudos linguísticos, para além do que se foi citando, destaquem-se: a separata com a edição do Livro de Esopo (1906); a fundadora obra sobre o onomástico português que é a Antroponímia Portuguesa (1928); os volumes 1, 2, 3, 4, 6 de Opúsculos (1928, 1928, 1929, 1931, 1988); os trabalhos sobre o mirandês (O Dialecto Mirandez, 1882, com que se estreou em filologia, dedicado ao “senhor F. Adolpho Coelho” e logo premiado; os dois volumes dos Estudos de Filologia Mirandesa, 1900-1901, reeditado o primeiro volume em 1992).

E, entre muitos outros ensaios de índole biobibliográfica, se deve citar O Doutor Storck e a litteratura portuguesa, 1910, o opúsculo A philologia portuguesa (A proposito da reforma do Curso Superior de Lettras de Lisboa), 1888, que bem podia servir de introdução a estas biografias de linguistas (para não mencionar os artigos em que se deteve nas figuras de filólogos seus contemporâneos, como Epifânio, Carolina Michaelis, Júlio Moreira, Gonçalves Viana, Óscar Nobiling, Adolfo Mussafia, etc.). Na referida miscelânea à memória de Leite de Vasconcelos aquando do centenário, devem ler-se as memórias por Manuel Viegas Guerreiro e Orlando Ribeiro, discípulos do mestre.

FICHAS TÉCNICAS DOS DOCUMENTÁRIOS

  1. José Leite de Vasconcelos.

     Duração: 6 minutos. Ano 2013.

     

  1. Endovélico: Deus dos Lusitanos.

     Duração: 10 minutos. Ano 2008.

     

  1. Museu Nacional de Arqueologia de Lisboa, criado por Leite de Vasconcelos.

     Duração: 30 minutos. Ano 2018. Nota: Visita guiada ao museu.

     

  1. A Mãe: Conto tradicional. O rico e o pobre.

     Duração da curta-metragem: 27 minutos. Ano 1979. Realizador: João César Monteiro.

     Tema: Contos tradicionais portugueses. Conto estudado por L. de Vasconcelos na sua Etnografia.

     Ver em: http://www.cinept.ubi.pt/pt/filme/7708/A+M%C3%A3e

  1. Homenagem a Leite de Vasconcelos.

     Realizada no Museu de Etnografia de Lisboa o 28 de Outubro de 2008.

     Organização: Instituto de Estudos Portugueses.

     Série dos seguintes vídeos:

  • Leite de Vasconcelos e o Museu de Etnografia.

     Duração: 33 minutos. Intervenção de Luís Raposo.

     Ver em: http://videos.sapo.pt/6Mo8Ojd7luV6nuHpTGlR

  • J. Leite de Vasconcelos e a etnografia musical portuguesa.

     Duração: 39 minutos. Intervenção de João Nazaré.

     Ver em: http://videos.sapo.pt/96bqRYNVaq3i4AlQnBLf

  • J. Leite de Vasconcelos e as fontes culturais da Etnografia.

     Duração: 26 minutos. Intervenção de Jorge Crespo.

     Ver em: http://videos.sapo.pt/m3MpPfhRq5bI8zRZtuI5

  • Correspondência entre Leite de Vasconcelos e Francisco da Luz Rebelo Gonçalves.

     Duração: 17 minutos. Intervenção de Maria Isabel Rebelo Pinto.

     Ver em: http://videos.sapo.pt/aZV5FjFBFFkvAqdfAEwv

  • Leite de Vasconcelos e a Epigrafia.

     Duração: 16 minutos. Intervenção de Amílcar Guerra.

     Ver em: http://videos.sapo.pt/zeHiZBp3fCGVPZR74BpK

CANTIGAS POPULARES RECOLHIDAS POR LEITE DE VASCONCELOS

Entre as numerosas pesquisas realizadas por Leite de Vasconcelos, dentro do amplo campo da etnografia, figura a recolha de cantigas populares, com as suas variedades, em múltiplos lugares e regiões. A seguir apresento pelo seu grande interesse uma ampla amostra de muitas das que recolheu:

Eu subi ao limoeiro

Eu subi ao limoeiro
Pus o pé na lealdade,
Arrisquei a minha vida
P’ra te fazer a vontade.
(Santo Tirso) II-46

Eu subi ao limoeiro
Pus o pé na segurança;
Nunca dei ponto sem nó
Nem papas sem confiança.
(Capareiros, c. de Viana do Castelo) II-245

Ó loureiro, ó loureiro,

Ó loureiro, ó loureiro,
O loureiro ramalhudo,
O loureiro diz que paga,
O loureiro paga tudo!
(Vila Nova de Cerveira) II-278

Loureiro, verde loureiro
Seca seja a tua rama!
Inda sou tão pequenina,
Já me quereis pôr essa fama.
(Ponte do Lima) II-295

Salgueiro à borda de água

Salgueiro à borda de água,
Onde o rio faz remanso;
Quem me quer não quero eu,
Quem eu quero não alcanço.

(Amiais, freg. de Minde, c. de Alcanena) II-63

Eu pintei num pessegueiro

Eu pintei num pessegueiro
Cinco letras de ouro fino;
Não me mates com rigor,
Que eu morro com desatino.

JLV/CP-II:104

Pode consultar mais cantigas populares no seguinte documento.


TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR
   

leite-de-vasconcelos-cartaz

Vemos os documentários citados antes, e depois desenvolvemos um Cinema-fórum, para analisar a forma (linguagem fílmica) e o fundo (conteúdos e mensagem) dos mesmos.

Organizamos nos nossos estabelecimentos de ensino uma amostra-exposição monográfica dedicada a José Leite de Vasconcelos, a sua obra etnográfica, as suas ideias e a sua defesa da cultura popular. Na mesma, ademais de trabalhos variados dos escolares, incluiremos desenhos, fotos, murais, frases, textos, lendas, livros e monografias.

Podemos organizar no nosso estabelecimento de ensino um Debate-Papo, em que participem estudantes e docentes, e, se existir na localidade alguma pessoa interessada na etnografia, podemos convidá-la também para participar. O tema monográfico de debate podia ser sobre a semelhança entre a etnografia galega e a portuguesa: o cantigueiro popular, as festas populares do ciclo anual, os costumes, o artesanato popular, os contos e lendas populares, os jogos e brinquedos populares e tradicionais, etc. Tomando como referência os trabalhos de Leite de Vasconcelos, assim como os de António Cabral e Lourenço Fontes, e os dos galegos Risco, Taboada Chivite, Bouça-Brei, Ben-Cho-Shei, Joaquim Lourenço e Fidalgo Santamarina, entre outros. Outra atividade que podemos organizar é um recital de cantares populares galaico-portugueses, ademais de um encontro lúdico de jogos tradicionais, em que não falte a chave, os bilros, a bilharda, a tração à corda, as corridas de sacos, a porca, a rã e os sancos.

José Paz Rodrigues

É Professor de EGB em excedência, licenciado em Pedagogia e graduado pela Universidade Complutense de Madrid. Conseguiu o Doutoramento na UNED com a Tese Tagore, pioneiro da nova educação. Foi professor na Faculdade de Educação de Ourense (Universidade de Vigo); professor-tutor de Pedagogia e Didática no Centro Associado da UNED de Ponte Vedra desde o curso 1973-74 até à atualidade; subdiretor e mais tarde diretor da Escola Normal de Ourense. Levou adiante um amplíssimo leque de atividades educativas e de renovação pedagógica. Tem publicado inúmeros artigos sobre temas educativos e Tagore nas revistas O Ensino, Nós, Cadernos do Povo, Vida Escolar, Comunidad Educativa, Padres y Maestros, BILE, Agália, Temas de O ensino, The Visva Bharati Quarterly, Jignasa (em bengali)... Artigos sobre tema cultural, nomeadamente sobre a Índia, no Portal Galego da Língua, A Nosa Terra, La Región, El Correo Gallego, A Peneira, Semanário Minho, Faro de Vigo, Teima, Tempos Novos, Bisbarra, Ourense... Unidades didáticas sobre Os magustos, Os Direitos Humanos, A Paz, O Entroido, As árvores, Os Maios, A Mulher, O Meio ambiente; Rodrigues Lapa, Celso Emílio Ferreiro, Carvalho Calero, São Bernardo e o Cister em Ourense, em condição de coordenador do Seminário Permanente de Desenho Curricular dos MRPs ASPGP e APJEGP.

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