O livro Begonha Caamanho, uma das nossas contém três aproximações: um percurso pela vida da homenageada sem pretensões de totalidade, construído por um olhar honestamente parcial, da mão de Charo Lopes; um sério estudo da sua obra, feito por Lara Rozados, cujo rigor é em si um reconhecimento do valor do macrotexto em foco; e um terceiro texto, de Isaac Lourido, colocado no início para perspetivar a leitura e difuminar a distinção entre vida e obra.
Falamos com elas sobre a última publicação da Através.
Begonha Caamanho é, seguindo este volume, uma das nossas. Mas de quem?

Lara: Begonha Caamanho é uma das que não calam, das que agem, das que sai à rua, das que põe o corpo (e o cérebro) na luta. Feminista, independentista, ecologista, internacionalista, defendente da língua, do público, da justiça, da dignidade para todas as pessoas, e, sobre tudo, tecedora de redes.
Isaac: De todas as que estiveram com ela na linha da frente, com trabalho militante e saber fazer prático, no processo em que os movimentos sociais críticos deste país questionaram a narrativa triunfante da normalização política da Galiza autonómica.
Charo: Partilho o dito por Lara e Isaac. Eu sinto que dizer “uma das nossas” é a máxima condecoraçom sentimental para uma companheira, “una di noi”.
Cada uma trabalhou com uns materiais diferentes: Charo com informações publicadas e conversas, Lara com a obra narrativa editada e Isaac com os textos das outras duas. Como é aproximar-se de Begonha Caamanho de cada uma das perspetivas?
Lara: Para mim foi indissociável da Bego ativista que conheci, embora fizesse por me aproximar ao texto da forma mais crítica e teórica possível… Mas, como já assinalo, não há menos rigor na análise da obra de Begonha Caamanho pelo facto de considerar que tudo nela forma parte do mesmo projeto: o ativismo, o jornalismo, as decisões vitais e a pessoa que era Begonha Caamanho translocem no seu macrotexto literário. Ela empreendeu um programa ciente e militante, que ficou infelizmente tronçado com a sua morte, mas configurou todo um universo, uma narrativa própria, que, em diálogo generoso com autores, autoras e mitologias precedentes, com as suas contemporâneas, e ainda projetando cara ao futuro a sua escrita, ficou tendido como uma rede para continuarmos a tecer… E destecer alguma coisa, alguns pontinhos, também.
Charo: Eu também conheci a Begonha, coincidimos em Causa Galiza e na Rede Feminista, mas não chegamos a ter amizade, apenas um café e alguns espaços partilhados. Eu tinha, de facto, mais proximidade com Etxaniz, a sua parelha. Agora, mergulhar na sua vida e no seu contexto foi uma descoberta mui grata, pelo que estou mui agradecida a todas as pessoas do seu círculo mais achegado, que foram extremamente generosas comigo.

Isaac: O meu trabalho foi o mais humilde e o mais simples, dos que compõem este livro. A audácia e a qualidade dos trabalhos das minhas colegas favoreceu a tarefa que se me encomendou, que não foi outra que a de fazer a ponte entre a narrativa biográfica e a análise literária. Na verdade, esses fios de união estavam já nos textos da Charo e da Lara. Porquê? Porque estavam na própria trajetória vital, política e literária de uma autora à qual, aliás, nunca cheguei a tratar pessoalmente, apesar de termos coincidido em diferentes espaços de Compostela.
O intuito declarado do volume é tentar contrabalançar o retrato institucional em volta de Begonha Caamanho. Quais elementos deste livro ficaram fora da foto oficial?
Lara: Essa Begonha mais insubmissa, que tinha habilidade (e empatia, e saber fazer com o cuidado mas também com a capacidade de contestação necessária) para mover-se em ámbitos institucionais também, mas com uma vontade sempre clara de trabalhar pelo bem comum. Podes trabalhar num serviço público como “funcionária” acomodada ou podes ser consequente e trabalhar por um serviço público de qualidade, que funcione como deve, “para todas tudo”. E aí ela agiu tanto dentro da rádio pública como em meios contra-hegemónicos ou nos seus romances.
Isaac: Acho que a Begonha menos cooptável pola narrativa institucional é aquela que conheceu de primeira mão alguns dos processos revolucionários marcantes das últimas décadas à escala global – Cuba, Venezuela –, aos quais se ligou política, ideológica e emocionalmente. Ao mesmo nível, temos a Begonha que participou ativamente da solidariedade com os presos políticos do estado espanhol ou a que militou no feminismo mais combativo e radical do período autonómico.
Charo: Exacto, o meu foco na pesquisa biográfica foi a sua posição concreta, ouve-se falar muito da sua “luta pola liberdade e a igualdade”, em abstrato. Mas a realidade é que na prática manifestava-se em favor de superar o “marco constitucional”, e compreendia e apoiava formas de luita para além dos estreitos caminhos habilitados polo sistema capitalista para a participação popular.
As Letras Galegas para Begonha Caamanho são uma vitória para quem a considera uma das nossas?
Lara: Sem dúvida. Não era imprescindível, porque já há muito que a sentimos uma das nossas, já houve mulherenagens, como gostamos de dizer melhor do que homenagens, já muitas profes damos a ler a sua obra no Bacharelato por considerarmos a rapaziada merecente. Mas o facto de se lhe dedicarem as Letras é um aviso para quem ainda não soubesse, não a conhecesse ou mesmo quem subestimasse. É um dizer: sim, Begonha Caamanho é uma das nossas e a autora das Letras também. Experimentem a ler e conhecer se ainda não fizeram, senhorOs, que se calhar aprendem algo!
Isaac: Talvez pola minha distância a respeito das lógicas ligadas ao Dia das Letras, acho que, mais do que em vitórias ou derrotas, vale a pena falar em oportunidade. Uma oportunidade para o feminismo, o soberanismo ou o reintegracionismo produzirem um conhecimento que se afaste dos rituais consensuais e que seja capaz de iluminar uma trajetória extremamente sugestiva para saber mais sobre a nossa história recente, e cujo compromisso político reverbera de maneira singular na sua produção literária.
Charo: Não sei, vamos ver se, após estes meses, conseguimos que a celebração não torne “terra queimada”, como explica Isaac no seu texto. Quero pensar que, como no caso de Carvalho Calero, é uma figura com suficiente peso e respaldo social detrás como para que se sustente independentemente do reconhecimento institucional.
É habitual nas biografias oferecer uma visão homogénea da figura em foco. É este o caso? Ou será que encontramos também contradição, incompletude, falta, neste livro?
Lara: É claro, eu poucas, porque sim que é certo que a sua narrativa é muito coerente… Mas logicamente há coisas que ainda não conhecera, debates que ainda não tivera… Ela, por exemplo, conhece a Odisseia através de traduções feitas por homes, em que as escravas não eram escravas, mas “criadas”…
Isaac: A biografia ensaiada pola Charo tem a virtude, e a honestidade, de declarar uma posição de partida e, portanto, um determinado viés. Isto é extremamente invulgar na nossa cultura e, ainda mais, nos produtos ligados ao Dia das Letras, que costumam funcionar como iniciativas normalizadoras de trajetórias e obras. Isto é, como perspetivas relativamente redutoras para conseguir o encaixe naquelas virtudes que os consensos de fundo ditam que devem ser associadas não só a uma homenageada das Letras, senão a qualquer escritora galega com reconhecimento público.
Charo: Bom, eu penso que para os agentes institucionais que a pretendem integrar, a biografia de Begonha que nós publicamos é um escándalo, e que haverá quem agora a esteja celebrando mas, se pudesse, no seu momento a teria condenado. Depois, também dentro das camaradas pode haver quem questione se o seu jeito de agir era o melhor; não estamos a falar da vida de uma santa, é apenas uma mulher com umas condições concretas, que acompanhamos através da paisagem política do seu tempo e dos seus desejos e escolhas.
Em poucas palavras: Begonha Caamanho é…
Lara: Rede. Ela criou um tecido, com a sua escrita, o seu cuidado, para fazermos o que quissermos com ela: pular sem temor a cair, envolver-nos com ela, seguir a criar rede…
Isaac: Uma inspiração para quem acredita e para quem luta por um mundo mais justo. Uma grande escritora que conseguiu fazer ressonar na sua obra literária, através de caminhos pouco explorados, o alento mais perdurável da sua militância política.
Charo: uma das nossas 🙂
