Partilhar

Juan Luis Fernández: “Inspirado no exemplo irlandês, o futebol gaélico galego representa também umha forma de reivindicar e promover a cultura própria”

Juan Luis Fernández Pérez é doutor em Ciências da Atividade Física e do Desporto, exerce como professor de Educaçom Física no ensino público desde 2004. Ao longo de vários anos esteve vinculado ao desporto de competiçom, praticando atletismo (RC Celta), karaté (Shotokan Vigo) e andebol (UB Lavadores e BM Cangas). E quando já se considerava afastado do desporto competitivo, em 2014 foi abordado numa pizzaria de Vigo por um jovem irlandês, Feidhlim, que reconheceu de imediato a camisola de futebol gaélico que levava –uma prenda que o seu irmão lhe trouxera de umha viagem–. Assim começou a sua relaçom com este desporto: primeiro como jogador do Keltoi Vigo GAC e, posteriormente, como um dos fundadores do Turonia Gondomar FG, clube no qual também jogou e onde continua atualmente como treinador.

Formado como Coach Developer pela GGE (2024), participa no desenvolvimento das categorias de base através do projeto Gaélico Escolas e exerce também como preparador físico da Seleçom Galega feminina.

Falamos com ele por ser o autor da última novidade da Através Editora, Futebol Gaélico.

Porque jogar futebol gaélico?

Quem nom conheça, vai encontrar um desporto muito dinâmico e emocionante, cum alto ritmo de jogo e açons espetaculares. Por outra parte, frente às individualidades e a competência implacável que mostram outros desportos, o futebol gaélico pom em valor o trabalho colectivo, o apoio mútuo e a camaradagem entre equipas.

De onde parte a ideia deste livro?

Quando descobrim o futebol gaélico achei que era umha atividade desportiva realmente valiosa a nível educativo, mas pouco conhecida (e menos praticada) nas aulas. Na escola em que trabalho figemos diferentes trabalhos com o propósito de divulgar este desporto nos centros escolares: alguns vídeos em Youtube, umha unidade didáctica… Porém a ideia de fazer um livro surgiu numha conversa com Valentim Fagim, quem achou que podia ser um bom material para publicar.

Futebol gaélico é um desporto jogado basicamente por irlandesas, quer na Irlanda quer pelas comunidades emigradas. A Galiza é uma exceção neste sentido. Porquê?

O facto de o futebol gaélico galego estar formado principalmente por jogadoras nativas, nom irlandesas, surpreende tanto fora como dentro da Irlanda. Apenas um caso semelhante, o da Bretanha francesa, apresenta paralelismos com o fenómeno galego. Acho que a ligaçom “atlântica”, ou “celta”, com estes povos, tem muito a ver com este facto.

No livro vemos fotografias de estádios cheios de adeptos e adeptas, como numa partida profissional. Ora, futebol gaélico é sempre amador, não é?

Sim. Esta é umha das caraterísticas definitórias de todos os desportos gaélicos. Apesar de atingirem níveis de rendimento comparáveis aos dos desportos profissionais, os jogadores e jogadoras nom recebem salários. Jogam por compromisso com a sua comunidade e polo prestígio que acarreta representá-la. O voluntariado estende-se, para além de jogadoras e treinadoras, a toda a comunidade que forma o clube, estabelecendo umha maior proximidade entre as equipas e os bairros, paróquias ou vilas em que se desenvolvem.

Tu mesmo és jogador, treinador, promotor institucional, estudioso, agora também escritor… Será que a natureza amadora e militante deste desporto leva o pessoal para o modo todo-o-terreio?

Nom há outra opçom! Levar adiante um clube requer muito trabalho e todas as mãos som poucas. Nom é infrequente ver o presidente do clube preparar material antes dumha partida, o treinador ajudar a colocar os paus, ou a MVP da partida ficando a limpar os vestiários… Inclusive, em ocasiões se tem chamado algum espectador para fazer de umpire! Este trabalho multi-tarefas ainda se vê acrescentado nas pessoas envolvidas nas atividades da Asociación, quem muitas vezes tenhem de conciliar as obrigações do seu clube com as da AGFG. 

 Dar responsabilidades às pessoas nas tarefas da equipa também fortalece a uniom entre os seus membros. Há muito trabalho “invisível” – mas também necessário –  que seria inatingível sem a colaboraçom de todas: contas, secretaria, material, comunicaçom, terceiro tempo, etc. 

Para além do desporto, o que podemos aprender com futebol gaélico?

O terceiro tempo no final das partidas é umha “marca da casa” do gaélico galego desde os seus inícios . As equipas enfrentadas no encontro deixam para trás as rivalidades desportivas e desfrutam em convívio da paixom que as une. A pertença a umha comunidade gaélica é um dos pilares deste desporto, tanto na Irlanda como aqui. Esse sentido comunitário ao redor do futebol gaélico é muito valioso. As pessoas organizam-se e aprendem a colaborar para que tudo funcione. 

Inspirado no exemplo irlandês, o futebol gaélico galego representa também umha forma de reivindicar e promover a cultura própria, oferecendo um espaço normalizado para a lingua galega, dotando-a dumha imagem positiva e moderna. 

Inspirado no exemplo irlandês, o futebol gaélico galego representa também umha forma de reivindicar e promover a cultura própria, oferecendo um espaço normalizado para a lingua galega, dotando-a dumha imagem positiva e moderna.

Para levar estas propostas às miúdas tendes a iniciativa Gaélico Escolas. Em que consiste?

O labor das Gaélico Escolas é focado na promoçom do futebol gaélico entre as gerações mais novas mediante duas linhas de açom básicas. As academias, onde futebol gaélico é oferecido como atividade extraescolar, e a promoçom em centros educativos no horário letivo: sessões nas aulas de Educaçom Física, materiais didáticos para o professorado e organizaçom de torneios inter-centros. Ano após ano, aumentam as cifras de crianças às quais se aproxima o futebol gaélico. No passado curso, alcançaram-se mais de 3000 alunos de perto de 40 centros escolares.

Há uma liga masculina, uma feminina, mas também uma mista, com instituições próprias. Como é o convívio entre ambas as linhas?

A dizer verdade, a AGFG e a Liga Gallaecia funcionam de jeito independente. Do meu ponto de vista, ambas as opções som complementares, como mostra o facto de haver pessoas que participam nas duas competições. Aliás, as diferentes visões do futebol gaélico na Galiza permitem atingir um maior espectro de público cara ao nosso desporto. Sem dúvida, umha colaboraçom mais estreita entre as duas instituições repercutirá de jeito positivo no conjunto da “comunidade gaélica” galega.

Fora do âmbito do futebol gaélico, a quem recomendarias o livro? Que utilidade pensas que tem?

Pode achar interesse qualquer pessoa alheia ao desporto, mas com curiosidade por conhecer um jogo tradicional, com umha longa história, símbolo de resistência cultural e que mostra que nem tudo precisa de estar orientado polo lucro, e que o prestígio pode vir simplesmente de representar bem a tua gente.

Com o objecto de aproximar os mais novos desta modalidade desportiva, o professorado de Educaçom Física é também um dos alvos deste livro. No âmbito académico, pode ser também de muito interesse. Na Irlanda, há apenas duas décadas que começaram os estudos científicos no futebol gaélico, e no caso galego, é um campo virgem ainda sem explorar. Também pode ser de ajuda a pessoas que estejam baralhando a ideia de embarcar-se nesta aventura, juntar um grupo, criar um clube… mas nom saibam por onde começar. 

Novidades Através: Begonha Caamanho, uma das nossas

Lançamento do Guia de Linguagem não binária em Ponte Vedra

Começam as votações públicas para eleger as Melhores Poesias do Ano em Portugal e na Galiza

Lançamento do Guia de Linguagem não binária no Corufest

Conferência Internacional: O Caminho de Santiago na Perspetiva Brasileira

Juan Luis Fernández: “Inspirado no exemplo irlandês, o futebol gaélico galego representa também umha forma de reivindicar e promover a cultura própria”

Novidades Através: Begonha Caamanho, uma das nossas

Lançamento do Guia de Linguagem não binária em Ponte Vedra

Começam as votações públicas para eleger as Melhores Poesias do Ano em Portugal e na Galiza

Lançamento do Guia de Linguagem não binária no Corufest