AGAL HOJE

José Ángel Abreu: «Uma política linguística como a do Reino de Espanha não seria possível na Suíça; a Suíça mesma não seria possível»

Entrevistamos José Ángel, novo membro da Associaçom Galega da Língua (AGAL)



José Ángel Abreu, na Suíça

José Ángel Abreu, na Suíça

José Ángel Abreu é um físico galego residente na Suíça. Ele sempre falou galego mas conheceu o reintegracionismo graças a um professor de primeiro ano de liceu em Ponte Vedra e deu o passo ao galego internacional quando sentiu a necessidade de o transmitir à filha, uma miúda de três anos que fala até o momento quatro línguas diferentes.

A tua relação com a língua vem desde o berço, mas quando e como foi o passo ao galego internacional?

Quando senti a necessidade de o transmitir à minha filha. Tinha claro que seria a língua que lhe ia transmitir. O problema era, em que norma?

Desde que comecei no liceu em Ponte Vedra, sempre tomei as minhas notas na minha própria norma. Por exemplo, não empregava a grafia espanhola do <nh> e fazia um uso próprio e pessoal da língua, mas isto não é válido para educar uma pessoa.

Tenho claro que a norma da língua galega tem de ser uma norma etimológica e lusista. Quer dizer, em minha opinião, é uma questão de rigorosidade científica, além de uma questão prática.

Tens uma miúda de 3 anos que fala 4 línguas diferentes. Como consegues transmitir-lhe o galego? Ajudas-te de algum material?

A miúda fala galego, francês, suíço-alemão e alemão padrão. Do meu ponto de vista, o suíço é ao alemão padrão, o que o galego é ao português, embora o galego fique muito mais perto do português do que o suíço do alemão.

Eu e mais a minha filha vemos os desenhos animados na internet. Por exemplo, A Peppa Pig ou O Ruca, que estão disponíveis em português (vemos muitos na versão brasileira). Também falamos com os meus pais via Skype ou Facetime. A estratégia que aplicamos para lhe transmitir os idiomas, consiste em não misturar as línguas. Sistematicamente eu falo-lhe só em galego-português, a sua mãe fala-lhe só em francês, no infantário e mais com o seu avô fala só em suíço-alemão, e com os companheiros alemãs fala em alemão padrão.

Achas que o galego internacional é uma vantagem para ela?

Acho. Garantiu que a miúda conseguisse aprender o galego. Penso que a miúda fala mais e melhor galego do que muitos na Galiza. De facto, dos filhos dos meus primos e vizinhos na Galiza, nenhum fala em galego. Isto é outra razão para utilizar uma norma internacional, pois se o galego desaparecer da Galiza, ainda o poderá empregar na vida. Quando vamos ao COOP (o Froiz suíço) a miúda costuma falar galego com uma das empregadas que é brasileira, e eu respiro.

Na atualidade moras na Suíça. Como se vê a situação do galego do exterior? Que é o que percebes quando chegas à Galiza?

Quando vou de férias à minha terra, e estou no parque infantil com a miúda, e vejo que é impossível que ela possa jogar com ninguém em galego, ou que ninguém lhe responda nada em galego,  simplesmente não o aturo.  Sou um estrangeiro na minha terra, e sinto estar num conflito constante: a ação diária mais simples pode rematar, como pouco, numa discussão. Assim não se pode viver.

José Ángel Abreu, no Piornedo

José Ángel Abreu, no Piornedo

Que teria passado na Suíça se se seguissem as mesmas políticas linguísticas que no Reino de Espanha? Por que achas que não se seguem?

Na Suíça falam-se oficialmente quatro línguas: alemão, francês, italiano e reto-românico. De todas elas, o reto-românico, que está praticamente extinguida, mesmo superada pelos falantes de galego-português na Suíça, é a única que não tem um grande estado às suas costas, e está praticamente absorvida pelos cantões de fala alemã, que têm a economia mais poderosa de todos os cantões suíços.

Cada cantão suíço é como um país. Tem independência económica e linguística (entre outras competências). Por exemplo, nos cantões de fala alemã, a educação (e a vida) é totalmente em alemão e escolhem uma das outras línguas oficiais como primeira ou segunda língua estrangeira. O mesmo acontece nos cantões de fala francesa, toda educação é em francês e o alemão e italiano são de facto línguas estrangeiras, e o mesmo acontece nos cantões de fala italiana. Acho que isto foi o que Castelao sonhou para a Galiza.

Na minha opinião, uma política linguística como a do Reino de Espanha não seria possível na Suíça; a Suíça mesma não seria possível. Os cantões de fala francesa nunca aceitariam a imposição do alemão, por exemplo.

Gostava de esclarecer que na Suíça alemã se fala alemão suíço, que é um dialeto do alemão padrão (Hochdeutsch). Existem tentativas de criar uma norma suíça, mas não calha. O número de variantes dialetais são tão diversas, que a norma resultante seria o alemão standard. Os suíços estão muito orgulhosos das suas falas, mais na escrita aprendem Hochdeutsch. As crianças aprendem no infantário o dialeto suíço, mesmo no Parlamento falam o dialeto suíço, mas na escola aprendem o alemão standard. Não interessa romper a relação com a Alemanha nem com a Áustria. Do mesmo jeito que não interessa romper a relação com os cantões de língua francesa/italiana, com a França ou a Itália. Os falantes do rético, não têm família poderosa, nem são poderosos economicamente, estão isolados e o resultado é que estão a ser absorvidos. Acho que temos muito que aprender da Suíça.

Por que te associaste à AGAL? Que é o que esperas da associação?

Muito me tenho beneficiado dos projetos da AGAL. Por exemplo, das palestras de história, de língua e de todo o material disponível na rede, que acho de vital importância.

Senti estar em dívida com a AGAL, e sinto a obriga de contribuir para o projeto.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Um país em que poder viver em galego com normalidade. Gostaria que quando fosse comprar o meu bilhete de avião ao aeroporto de Santiago não tivesse que vir a polícia pelo facto de ter solicitado o bilhete em galego.

 

Conhecendo José Ángel:

  • Um sítio web: O blogue Desperta do teu sono
  • Um invento:  A lavadora
  • Uma música: “Porque no mundo menguou a verdade”, de Xosé Quintas Canella
  • Um livro: As Tribos Calaicas. Proto-História da Galiza à Luz dos Dados Linguísticos, de Higinio Martins Esteves
  • Um facto histórico:  Execução da tripulação do Vapor Udondo no ano 1936
  • Um prato na mesa: Centolas
  • Um desporto: Regatas de Traineiras
  • Um filme: Bruno Manser-Laki Penan, filme de Christoph Kühn
  • Uma maravilha: A minha filha
  • Além de galego: A Termodinâmica Racional de Clifford Truesdell

PUBLICIDADE

  • Joám Lopes Facal

    De longe vê-se tudo mais claro, questom de perspectiva. Boas-vindas ao companheiro físico e montanheiro. E um beijo para a menina, cá no meu entorno há também crianças que falam e apreciam o galego. Vai ser a primeira geraçom ciente do valor da sua fala.

  • Ernesto V. Souza

    Que boa entrevista… mais uma….

  • ranhadoiro

    deliciosa leitura.
    Á uma cousa, espanha não existe. o que existe é Castela

    • Ernesto V. Souza

      Castela existe bem menos que a Galiza, digo-cho eu que a percorro bastante…

      • ranhadoiro

        o que quero dizer eu, não é contraditório com o que manifesta

  • https://pgl.gal Valentim R. Fagim

    A prática cultural de que as nossas filhas e filhos vejam Peppa Pig ou Dora a aventureira na versão brasileira ou portuguesa estou certo que não aparece no PXNL de 2004 nem em nenhum cantinho das mentes de quem o realizaram 😉

  • Heitor Rodal

    “Quando vou de férias à minha terra, e estou no parque infantil com a miúda, e vejo que é impossível que ela possa jogar com ninguém em galego, ou que ninguém lhe responda nada em galego, simplesmente não o aturo.”