Ferrolano, investigador, docente e atualmente leitor em Lisboa

Isaac Lourido: «A política de subsídios é um fator importante para compreender a construçom do sistema literário galego, mas nom o único»

«A estratégia básica do galeguismo e o reintegracionismo em Portugal deve passar por umha divulgaçom direta da nossa cultura e da nossa realidade social»



Isaac Lourido 1

Isaac Lourido, ferrolano, é investigador e docente, atualmente leitor em Lisboa. Depois do verao a Através Editora publicará o seu trabalho Livros que nom lê ninguém. Embora não gostou da campanha O Mundial Fala Galego, quer ajudar a construir o discurso da associaçom.

A tua passagem pola Faculdade de Filologia da USC seguramente deu-te umha perspectiva privilegiada da questione della lingua. Como se vivia nos teus anos de estudante a questom do reintegracionismo? Mudou desde os teus tempos de estudante até hoje?

Talvez em 1999, quando eu cheguei a Filologia, a questione della lingua estava mais presente nos debates do estudantado. O número de alunas/os era maior do que hoje, havia mais coletivos estudantis e mais diversos e, por colocar um exemplo, a reivindicaçom de umha só licenciatura para as Filologias Galega e Portuguesa estava ainda ativada. Pessoalmente, para a minha formaçom foi decisivo o movimento contra a LOU (2001-2002), através do qual conhecim muitas persoas e participei em debates sobre assuntos mui diversos, tamém os relacionados com a língua e os modelos ortográficos. O fundamental numha etapa de formaçom como a universitária é ter acesso a diferentes pontos de vista para a conformaçom de critérios próprios e para umha participaçom razoável nos debates de interesse público. Neste sentido, e no ámbito da Faculdade de Filologia, o trabalho das pessoas do grupo Galabra parece-me que deve ser reconhecido. Para mim foi fundamental.

Como foi a tua chegada à estratégia luso-brasileiro-angolana para a língua?

Da estratégia reintegracionista atraiu-me sempre a sua potencialidade antagonista e contra-hegemónica. Umha tomada de posiçom no conflito simbólico entre as culturas galega e espanhola, e os diferentes projetos sociais que podemos vincular a cada umha delas. A aposta num tipo de estratégia que discrimina de forma radical os repertórios do sistema dominante (ortografias, discursos, imaginários…) parece-me interessante e necessária. Dado que eu nom comecei a ser monolíngue em galego até os 16 anos, a minha chegada ao reintegracionismo foi progressiva e irregular. Dar o passo do castelhano ao galego numha cidade como Ferrol nom foi fácil. Dar o passo da ortografia hegemónica para a ortografia da AGAL tampouco, até porque só pensei seriamente nessa mudança num momento em que começava a publicar alguns trabalhos (em normativa da RAG) de crítica e investigaçom em revistas e jornais. Durante algum tempo alternei sem qualquer complexo publicaçons numha e noutra ortografia. Na atualidade, tenciono apostar em exclusividade polo modelo da AGAL ou, dependendo do contexto, polo padrom português.

Isaac Lourido 4És um reputado crítico literário. Muitas vezes tem-se alcunhado o sistema literário galego de “ente subsidiado” e, portanto, muito vinculado aos distintos poderes mais ou menos simbólicos. Como vês o panorama literário galego em relaçom a isto?

Tomarei o de “reputado” como umha brincadeira. A política de subsídios é um fator importante para compreender a construçom do sistema literário galego desde meados da década de 1980, mas nom o único. O seu principal efeito pode ter sido o de reduzir o dinamismo do sistema, no sentido de provocar um certo acomodamento para muitas editoras que se despreocupárom de atingir (ou até construir) um público leitor para as suas obras e, consequentemente, de configurar um “mercado literário galego” que, agora que os subsídios descem, acentua a crise do setor. Seriam necessários estudos rigorosos sobre o consumo literário na Galiza para confirmar esta tese.

Acho, contodo, que devemos usar com algumha prudência este tipo de crítica ao sistema literário galego, já que este nom pode ser pensado como um conjunto unificado e homogéneo. Se hai sistema é porque hai diversidade, tensons e distintas estratégias no seu interior. Sempre houvo projetos alternativos, contrários às tendências do poder político e capazes de dialogar com os circuitos culturais internacionais. E, até, muitos deles, maravilhem-se, subsidiados polo governo da altura. Polas suas particulares caraterísticas, no sistema literário galego ‘subsídio’ nom equivale necessariamente, nem sequer regularmente, a ‘reproduçom do discurso do poder’.

Um dos próximos livros da Através Editora vai ser da tua autoria: Livros que nom lê ninguém. Que vam encontrar os seus leitores e leitoras quando se debruçarem sobre ele?

O livro recolhe treze textos sobre as relaçons entre a poesia, os movimentos sociais e, em geral, o antagonismo político na Galiza. A maior parte dos textos fôrom publicados no período 2005-2012, em diferentes meios e com variedade de línguas e ortografias. O livro inclui também alguns textos inéditos, procedentes de comunicaçons orais, da atualizaçom de artigos prévios ou, inclusive, de estudos pensados especificamente para esta obra.

Um primeiro grupo de textos aborda determinados conceitos (como os de resistência ou normalizaçom) e quadros teóricos (por exemplo, umha revisom do conceito de poesia para a sua adaptaçom às práticas contemporáneas ou a proposta de perspetivas para exercer a crítica no contexto galego). A segunda parte do livro foca acontecimentos, processos ou práticas concretas, como a designaçom de Lois Pereiro para o Dia das Letras 2011, o ridiculismo como forma de movimentaçom social, as poéticas de Séchu Sende e Manolo Pipas, ou, num estudo um pouco mais alargado, o trabalho na última década das Redes Escarlata.

Como julgas que se visualiza entre o mundo dos livros a opçom reintegracionista para a nossa língua e a nossa cultura?

Infelizmente, acho que para a maior parte das editoras da Galiza a opçom reintegracionista ainda constitui um limite, um problema, um critério que impede a inclusom no catálogo próprio. Em parte pola política de subsídios antes referida mas, fundamentalmente, pola adesom ao espírito da normalizaçom (política, cultural, linguística, ortográfica) hegemónico no nosso campo cultural. Publicar um livro escrito em ortografia reintegracionista implica ainda quebrar um consenso demasiado consolidado. Só projetos menos dependentes das políticas institucionais ou com umha vontade alternativa, inovadora, dinamizadora, de posiçons ainda periféricas, estám a mostrar umha maior abertura para a estratégia reintegracionista.

Pertences a Estaleiro Editora, um projeto editorial independente e que publica obras respeitando a escolha ortográfica dos seus autores. Como foi a experiência na editora em torno a este tema? Pensas que as editoras convencionais alcançarám algum dia esse mesmo ponto de elasticidade?

Na Estaleiro Editora a questom da ortografia nunca implicou um problema e esse respeito pola escolha das/os autoras/es foi um ponto fundacional. Dado que se constituiu como um projeto alternativo que pretendia, entre outras cousas, publicar livros que nom tinham lugar no catálogo das editoras convencionais, nom podíamos dar continuidade à discriminaçom ortográfica (junto como outras, de tipo temático, ideológico, discursivo, de género, etc.). O facto de as pessoas que constituímos Estaleiro nom termos vivido a intensidade da “guerra ortográfica” dos anos 80 e 90 provocou que o respeito pola escolha da pessoa que assina o livro fosse assumido com naturalidade.

Infelizmente, as editoras convencionais continuam a considerar a questom ortográfica como umha “linha vermelha” que nom querem ultrapassar. Nom vejo razons para prever umha mudança de tendência no prazo curto. A influência de exemplos como os de Séchu Sende e Teresa Moure, a projeçom do catálogo da Através Editora ou a potencial extensom às editoras convencionais de estratégias como as realizadas por Estaleiro ou Edicións Positivas (que, publicando regularmente na normativa da RAG, edita obras em língua portuguesa sem adaptaçom ortográfica) som elementos que deveremos ter em conta no futuro.

Isaac Lourido 2Atualmente estás a trabalhar em Lisboa. Que te está a surpreender dessa cidade e do seu ambiente universitário? Que conhecem da Galiza? Que pensas que deve fazer o galeguismo e o reintegracionismo para dar-se a ver em Portugal?

Dada a difícil situaçom que está a viver o país, o que mais me está a surpreender é a relativa calma social que se vive na capital. Tinha a expetativa de umha mais intensa movimentaçom social e, até, da existência de um dinamismo nos ámbitos político e mobilizador que nom estou a perceber. Infelizmente, parte dessa perceçom atinge a minha universidade, a Nova de Lisboa, sobre a qual trazia umha imagem prévia de um alunado de esquerdas e comprometido com a transformaçom social.

O conhecimento da Galiza varia muito de umhas persoas a outras. De forma intuitiva, sem pretender estabelecer nengumha tese, diria que o fator geracional joga um importante papel. As persoas de mais idade demonstram um maior conhecimento da cultura galega e da sua história recente e, inclusive, sobretodo em setores mais politizados, dalgumhas ideias básicas sobre as revindicaçons nacionalistas, que podem chegar a partilhar, embora o peso do Estado como referente político central continua a ser mui forte. Nas camadas mais jovens o conhecimento é muito menor, até porque em muitos casos nem sequer tivérom a oportunidade de visitar a Galiza, e portanto, a conceçom da diversidade e das tensons linguísticas e culturais nem sempre é fácil de explicar e de perceber.

A estratégia básica do galeguismo e o reintegracionismo em Portugal deve passar por umha divulgaçom direta, sem alfándegas, da nossa cultura e da nossa realidade social por todo o país e em todos os ámbitos possíveis. Umha divulgaçom positiva e empática, mas também realista, que nom crie falsas imagens. Para que a cultura galega seja reconhecida antes deve ser, simplesmente, bem conhecida. Só com paciência e generosidade, com consciência dos pré-conceitos e estereótipos que sobre a Galiza ainda estám mui estendidos em Portugal, poderemos realizar umha modificaçom crítica da nossa projeçom nesse espaço cultural.

Que visom tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associaçom?

A AGAL foi sempre para mim a entidade de referência do reintegracionismo nos planos social e cultural. Nom só isso, mas um dos referentes fulcrais da defesa da língua galega, sem mais. O principal motivo para me associar é o de apoiar a linha de atuaçom desenvolvida nos últimos anos, menos virada para o filológico e o institucional, e mais orientada para umha divulgaçom dinámica da estratégia reintegracionista no nosso país e para a procura de reconhecimento (cultural e político) para a Galiza na rede dos países de língua portuguesa.

Da AGAL espero, grosso modo, a continuaçom desta linha de atuaçom e, também, umha certa permeabilidade às posiçons críticas formuladas polas bases do reintegracionismo e de outros movimentos sociais. Estou a pensar agora na campanha O Mundial Fala Galego e as críticas que suscitou, que eu compartilho nas suas linhas básicas. Como sócio da AGAL espero poder intervir em debates deste tipo no futuro, para ajudar a construir o discurso da associaçom.

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Em termos históricos, 2020 é, como quem diz, “amanhá”. Para esse ano conformaria-me com a perceçom de umha inversom nas tendências sobre a perda de falantes do galego e sobre os discursos e práticas relacionadas com as línguas na Galiza. Acho esse processo só pode ter lugar com umha profunda revisom (autocrítica) das políticas aplicadas polos setores preocupados polo futuro da língua no nosso país, com um fortalecimento dos movimentos populares e associativos que demonstrem a eficácia de estratégias alternativas (entre elas, as de signo reintegracionista) e, em definitivo, com a produçom e extensom de novos sentidos comuns que vinculem língua galega, reforço dos valores comunitários e justiça social.

Conhecendo Isaac Lourido

  • Isaac Lourido 3Um sítio web: Galiza Ano Cero  
  • Um invento: A guilhotina.
  • Uma música: Qualquer umha dum grupo do qual faga parte Marcos Paino (Xenreira, A Matraca Perversa, Le Glamour Grotesque, Galegoz, Das Kapital).
  • Um livro: Huye, hombre, huye, de Xosé Tarrío.
  • Um facto histórico: As migraçons, os exílios e os êxodos.
  • Um prato na mesa: Risotto de espinafres.
  • Um desporto: O atletismo, em todas as suas modalidades (correr, saltar, lançar e marchar)
  • Um filme:  Deutschland im Herbst [A Alemanha no outono], autoria coletiva (1978)
  • Uma maravilha: A costa do Ortegal
  • Além de galega/o : Feminista e anti-capitalista.

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  • Ernesto V. Souza

    Esse livro sobre livros parece mesmo interessante.

    É bastante curioso o sistema literário galego… eu diria que por igual que na economia, na política e na sociedade galega a sua principal característica é que tem dous eixos de sistemas concorrendo em paralelo (e ignorando-se normalmente): um que desde a a modernidade compartilha espaço em concorrência com o projeto cultural, social e estadual espanhol, mas procurando se integrar como parte dele e dentro das regras do marcado e capital… e outro que anda fragmentário e castrejo como a prórpia sociedade, sem ter aceite (ou compreendido) as regras e mercado do Estado moderno, vivendo nas margens, com regras diferentes às do capital (ainda que não às do mercado e no que reside especialmente essa potência subversiva, esse elo com a tradição essa potencialidade antagonista…