Iria Espiño Becerra iniciou os seus estudos superiores na Universidade de Santiago de Compostela, concretamente na especialidade de Português do Grau de Línguas e Literaturas Modernas. No seu Trabalho de Fim de Grau analisou as representações do imperador Ngungunhane na obra narrativa dos moçambicanos Ungulani Ba Ka Khosa e Mia Couto. Já na fase de pós-graduação, inscreveu-se no Mestrado em Literatura, Cultura e Diversidade da Universidade da Corunha, formação que finalizou em 2023 com uma dissertação sobre A posição das literaturas africanas no cânone lusófono: Um estudo institucional a partir do Prémio Camões. Uma investigação que já está disponível no repositório institucional da UDC e que, pelo seu interesse, serve de base para esta entrevista com a autora.
Nos trabalhos de investigação que serviram para finalizar o grau e o mestrado optaste por assuntos ligados aos sistemas literários africanos de língua portuguesa. Como é que se foi conformado o interesse por este âmbito de estudo?
O interesse pelas literaturas africanas começou já nos primeiros anos do grau, Mia Couto fazia parte das leituras obrigatórias duma matéria e fiquei com interesse de descobrir mais sobre Moçambique e a sua história através da literatura. De facto, pouco depois conheci a obra de Paulina Chiziane, agora uma das minhas autoras favoritas, e o que num princípio era interesse ou simples curiosidade acabou por se converter numa linha temática presente constantemente nos meus estudos.
Na tua dissertação de mestrado enfrentas um assunto controverso como é o do “cânone lusófono”, cuja existência é promovida por algumas vozes, mas questionada por outras. Em que ponto do debate estamos na atualidade?
A existência dum cânone lusófono foi, provavelmente, a parte que mais revisitei durante o processo de escrita da dissertação porque é a base do meu trabalho, então eu ficava a pensar: “como é que posso analisar o papel das literaturas se não tenho a certeza, ou melhor, não existe um consenso sobre a existência dum cânone?”. Mas ninguém disse que apenas tenha de existir um único cânone, podem existir vários cânones que atendam a diferentes critérios e, sobretudo, às diferentes realidades que fogem da conceção do cânone clássico de dois sistemas literários predominantes na lusofonia, como são o português e o brasileiro. É neste último ponto que nos encontramos, na possibilidade de existirem diferentes cânones, tal como coloca, por exemplo, a professora Inocência Mata.
Podem existir vários cânones que atendam a diferentes critérios e, sobretudo, às diferentes realidades que fogem da conceção do cânone clássico de dois sistemas literários predominantes na lusofonia, como são o português e o brasileiro.
O teu estudo é um dos poucos trabalhos académicos que trata monograficamente o Prémio Camões. Como descreverias para um público geral a génese e o funcionamento do prémio?
Resumindo brevemente, o Prémio nasceu em 1998 para fortalecer os laços culturais entre Portugal e Brasil e, como tal, está organizado por ambos países; porém, as bases do Prémio foram atualizadas em 1999 com o objetivo de incluir outros países de língua oficial portuguesa, cuja presença estava, e continua, a aumentar. O funcionamento é simples, um júri formado por seis pessoas (duas pessoas de Portugal, outras duas do Brasil e duas de outros Estados diferentes) escolhem anualmente um autor já consagrado que, pelo seu contributo para a literatura em língua portuguesa, mereça ser vencedor do maior galardão literário que existe nesta língua. Além disso, o Prémio Camões tem um valor de cem mil euros, mas esta quantidade não aparece nas bases do Prémio e, portanto, é suscetível de mudanças.
Abordas o Prémio Camões a partir de uma perspetiva institucional, com uma forte base documental e empírica. Como acediste e conseguiste arrumar todos os dados relativos ao Prémio?
Foi um trabalho um pouco complicado porque os registos públicos que há são todos de notícias de jornais e inclusive de alguns requerimentos do Senado Federal do Brasil que recolhem os pareceres do júri. Contudo, tive a grande sorte de contar com a ajuda Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (a instituição que organiza o Prémio pela parte portuguesa), que me permitiu o acesso a um total de vinte e uma atas do Prémio Camões. Desta forma, cataloguei todos os pareceres que pude consultar para comprovar se é que existia algum padrão, especialmente nos argumentos dados em anos em que resultaram vencedoras pessoas de países africanos. Outra parte muito importante do trabalho foi a criação de uma base de dados que sintetizara informação chave sobre os membros do júri e os vencedores, com base numa série de categorias que achei essenciais para determinar o perfil de cada pessoa. Assim é que foi possível extrair conclusões e gráficos que evidenciam certas tendências e também a mudança nas bases do Prémio no ano 1999, embora não foi até 2002 que essas novas bases entraram em vigor.
Quais dirias que são as principais conclusões do teu estudo, nomeadamente no que diz respeito às literaturas africanas?
A minha dissertação põe em evidência a existência de um determinado padrão, tanto de membros de júri como de pessoas vencedoras, que reafirma essa vertente mais tradicional de um cânone lusófono. Neste aspeto, podemos ver como predominam as autorias masculinas, maiormente de Portugal ou do Brasil, cujo principal género literário é o romance. Também foi comprovado que, apesar da centralidade dos sistemas literários desses dois países, existe uma abertura progressiva como consequência dessas tentativas de integração das literaturas africanas, embora essa abertura pudesse ser maior ou mais efetiva se existisse consenso sobre a multiplicidade ou heterogeneidade de cânones lusófonos.
Até o momento, não se têm dado as condições para uma integração clara da literatura galega nem nos debates sobre o cânone lusófono nem, muito menos, no funcionamento do Prémio Camôes. Que seria preciso para esta situação mudar no futuro?
Essa é uma questão muito complexa, por enquanto, algo indiscutível é que, para que uma pessoa da Galiza pudesse resultar vencedora do Prémio Camões, a Galiza teria de ser um Estado próprio e mesmo assim demoraria décadas. Lembremo-nos do que aconteceu com as literaturas africanas desde independência dos seus países até que, por volta de 2006, há um aumento significativo na frequência em que os autores africanos são premiados. Porém, esse suposto teria de ser uma consequência da inclusão da literatura galega no debate sobre os cânones lusófonos. Se bem é certo que a abertura é maior do que nunca, acredito uma missão quase impossível com a norma oficial do galego e o desconhecimento da Galiza e do galego por parte da lusofonia.
Para que uma pessoa da Galiza pudesse resultar vencedora do Prémio Camões, a Galiza teria de ser um Estado próprio e mesmo assim demoraria décadas.
